ESCRITOS DO GABRIEL

(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )



"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

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terça-feira, 5 de março de 2013

Preto e branco numa última cor no abraço

Tinha escrito bem grande "Abraço grátis" e saído entusiasmado para o calçadão. Acreditava que um abraço poderia mudar o dia. Por isso levantava o cartaz bem alto, ante o olhar indiferente de muitos, agitando-o quando enxergava algum possível candidato. A edição para a filmagem tinha escolhido sua música preferida. Focalizava todo mundo preto e branco. O combinado era que as cores apenas apareceriam quando alguém também abrisse seus braços. Estava nítida a mancha vermelha da sua camiseta pela bala perdida. Era sua última cor ao despedir-se para sempre de um estranho.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Perdidos

Onde você está agora?
Estou aqui, bem aqui! Calma, não tenho certeza, mas acho que estou perto. Você parece um pintor seguindo meu relevo de memória. Já te vi, fica onde você está que estou chegando. Eu sei que não são horas... É, também pensei. Pensou o quê? Que não são horas, ora. Mas tenha paciência, já estou perto. Tenho. Isto não é a saída? Não sei, fica aí, por favor! Fico. O quê? Como é possível me ver e não ser visto? Estou aqui. Finalmente! Nem de perto te enxergo direito. Nem eu. Eu sei. Dei voltas e voltas. Eu fiquei parada. Ainda bem. Não era feito à medida? Não, nada é a medida. As coisas não mudam juntas. A vista agora melhora o espaço. Sim, o olho parece se acostumar. Cheguei, podes me ver? Ainda não. E sentir? Estou aqui. Sim, agora sim. Eu também. Me dá a mão, segura. Seguro. Vou pular. Pulei, demorei? Demorou, sim. Parece estar com frio. Estou. Está tudo bem? Acho que sim. Fica. Então tá, fico, mas deixa agora me virar. Já? Sim. Já vamos dormir? Sim, é tarde. Sei, mas... Cansei para chegar, até amanhã. Cuida, não se perca... Cuido, sim, pode deixar. Coloca melhor o lenço, te cobre mais. Estou coberta, mesmo sem saber o que estou deixando entrar, o que estou deixando fora. O quê? Nada, deixa. Beijo então. (Estranhamente próximos e sozinhos, pensou, mas falou um vai à merda bem baixinho e depois dormiu).

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Vou dormir

"O suicídio não é querer morrer,
é querer desaparecer."
Georges Perros


Que amarga queixa o mar ouviu?
Que confissão?
Lágrimas e mar, sal no sal,
na chaga que não cala.
Seu sonho tropeçou, submerso.
Dorme agora,
abraça o abismo claro que também abraça.
Onde guardou sua cicatriz?
Ouvem uma voz vinda das águas?
É naufrágio ou travessia?
Tudo vibra.
Ele vai chamar? Não importa mais.
Deita que a ressaca devolve o poema,
para sempre,
entre duas vidas,
quando não se quer a vida
e abre espaço no mar.
Ainda cheiro essa mesma espuma.
Os pássaros migram, partem,
mas não esquecem Alfonsina,
se entreolham tristes e também veem,
outro sal no mar.

------

Na madrugada do dia 25 de outubro de 1938, uma mulher não aguenta mais as dores causadas pelo câncer. A morfina não faz mais efeito e sua depressão lhe ajuda para tomar a decisão: sai da sua pensão em Mar del Plata e se joga desde um espigão para o remédio dos sais marinhos. Alguns afirmam que foi adentrando lentamente, que o alívio veio com as ondas. De manhã, alguns trabalhadores veem surgir um corpo boiando. Ao levá-lo ao hospital, a reconhecem como Alfonsina Storni. Tinha 46 anos.
Naquele lugar, seu corpo, agora talhado na pedra, olha para sempre a maré e pressente as flores que sempre deixam em seus pés.
Alguns dias antes, Alfonsina tinha encaminhado por carta seu poema "Vou dormir", ao jornal "La Nación", que chegou postumamente, como último pedido num bilhete suicida:

Dentes de flores, touca de sereno,
Mãos de ervas, tu, ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.
Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada à cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho
Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos…
Embala-te um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos
Para que esqueças… obrigado. Ah, um
encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que saí…*


Apenas como curiosidade: tenho o livro
"El dulce daño", 1918, autografado por ela.
Primeira edição. Muito raro.

* O poeta Felix Luna escreveu a letra da música "Alfonsina e o mar", cantada pela primeira vez por Mercedes Sosa em 1969, utilizando parte do poema original de Alfonsina:

Pela branda areia/ Que lambe o mar/ Sua pequena pegada/ Não volta mais/ Um caminho só/ De pena e silêncio chegou/ Até a água profunda/ Um caminho só/ De penas mudas chegou/ Até a espuma. / / Sabe Deus que angústia/ Te acompanhou/ Que dores velhas/ Calaram tua voz/ Para deitar-te/ Sussurrada no canto/ Das conchas marinhas/ A canção que canta/ No fundo escuro do mar/ A concha. // Te vais Alfonsina/ Com tua solidão/ Que poemas novos/ Foste a buscar?/ Uma voz antiga/ De vento e de sal/ Te requebra a alma/ E a está levando/ E te vais até lá/ Dormida, Alfonsina/ Vestida de mar// Cinco sereinhas / Te levarão/ Por caminhos de algas/ E de coral/ E fosforescentes/ Cavalos marinhos farão/ Uma ronda ao teu lado/ E os habitantes/ Da água vão a brincar/ Prontamente a teu lado. // Baixa-me a lâmpada/ Um pouco mais/ Deixa-me que durma/ Ama-de-leite, em paz/ E se ele chama/ Não lhe digas que estou/ Diz-lhe que Alfonsina não volta/ E se ele chama/ Não lhe digas nunca que estou/ Diz que me fui.


(Do meu livro "Suicidas - os modos de falar à parede)


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Cervos

Caminhamos lentamente e em fila, para cruzar o rio. E nadar quando for necessário. A terra ainda é um lar. Um coro de pássaros nos acompanha e sossega nas pontas de cada haste. Não me perguntem como e onde nasceu o costume de apoiar a cabeça e o pescoço nas costas daquele que está na frente. Sei que facilita e o caminho parece mais leve. Mas hoje estou cansado. Já nem falar consigo. Peço desculpas, não aguento muito ser o primeiro. Levei uma mordida e agora estou sentindo. Nós não contamos os anos, apenas vemos se podemos fazer algo ou não. Não sei quantos estão atrás. As correntes estão aumentando e precisamos manter-nos atentos. Parecemos ariscos, mas quem nos ameaça está sempre de prontidão.
Vou dar um sinal e pedir para ser o último. Quem sabe aí eu possa me atrasar um pouco, até as águas ficarem vermelhas...

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

As mortes em Horacio Quiroga


Quiroga enganou com a verdade ao vendedor quando disse que o veneno era para seu suicídio. Os dois riram. A barba ajudou. Não sabia que sua decisão era mais uma peça do recorrente, parte do seu antes e depois. Que obedeceu a um jogo indecifrável, da série de fatos que está envolvido o universo e seus vínculos circulares, em inúmeras séries e cifras igualmente incompreensíveis, repetitivas. Para isto seu pai teve que morrer com um tiro. Seu padrasto também. E que tentando explicar como seria o funcionamento da arma, matasse acidentalmente seu melhor amigo. Que sua primeira esposa se suicidasse, igual que seu protetor, como seus dois amigos escritores, Leopoldo Lugones e Alfonsina Storni. E que finalmente seus três filhos, Eglé, Dario e a "Pitoca" também procurassem o mesmo fim após a morte do pai.
Assim como no Jardim de veredas que se bifurcam, o tempo se bifurca perpetuamente em inumeráveis futuros de frágeis fios. Em um deles, no caminho mais longo, todos esperam pacientemente até o final.

(Vínculos circulares - do livro "Suicidas, os modos de falar à parede", Gabriel Gómez) 


E quiçá ele poderia ter contado sua propria morte, tal como escreveu Eduardo Galeano, no seu recente livro "Os filhos dos dias":

Hoje, morri.
No ano de 1937, fiquei sabendo que tinha um câncer incurável.
E soube que a morte, que me perseguia desde sempre, havia me encontrado.
Eu enfrentei a morte, cara a cara, e disse a ela:
- Acabou esta guerra.
E disse a ela:
- A vitória é sua.
E disse a ela:
- Mas o quando é meu.
E antes que a morte me matasse, eu me matei.

(Pode ser que Horacio Quiroga Tivesse contado assim sua própria morte - "Os filhos dos dias", Eduardo Galeano)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Flores

P:
R: Vendo flores na rua, de porta em porta, de carro em carro, no pequeno posto onde trabalho e me entrincheiro.
P:
R: Não, seria como penitência. A intempérie me protege e agasalha. A rua ensolarada substitui a anestesia.
P:
R: Acho que sim. Apenas diria que aqui tudo se vê, que é mais uma forma de sustento. Minto como todo mundo. Não penso no fim do mês, tenho poucas certezas que o desamor me impôs.
P:
R: Não moço, mas se há que ler, eu leio.
P:
R: É que muitos não sabem, mas de cada uma, ajeito as folhas, rego-as com cuidado, coloco um papel platinado como arranjo...
P:
R: Já fiz muito, agora não, aliás, o mínimo necessário. Não temos nada em comum, não me deixaram nada além de alguns beijos esquecidos e fracassos por toda a minha cara. Voltando: quando posso, falo com elas, baixinho. Renovo-as com carícias. No jardim cresce meu pão.
P:
R: Não, já apanhei muito também. Não vai funcionar comigo. Antes chorava por isso, agora apenas grito: Flores! Flores! Perfeitamente ensaiado. De algum modo, sou cada uma delas com o cheiro dos espinhos, quando a gente se cheira.
P:
R: Sim, mas algumas acabam murchando, perdendo seus verdes e vermelhos, caindo suas pétalas com o mesmo silêncio dos doentes. E vão como se vão as flores.
P:
R: Por isso dá pena jogá-las fora, então peço licença e as levo para casa quando meus braços estão vazios. Acomodo todas em vários copos com água morna, onde os ramos parecem sangrar em silêncio no meio da noite, que é quando bebo, e combina com meu aspecto de muitos metros enroscado nas cobertas, com o resto triste e barato do abandono, a mínima luz, as plantas da varanda, olhos de pedra, e eu atrás, encolhida, paredes cegas e o cheiro de funeral das coisas caladas onde parece não haver paisagem, onde restam poucas claridades, além de um sorriso claro. De manhã, pássaros pousam sobre minhas feridas. Eles acreditam que não os vejo antes de dormir. Divertem-se me cercando. Mas, que importam seus murmúrios, enquanto morro? E se Deus fosse uma decepção total? Às vezes penso que a intuição é seu alfabeto. Só não me peçam saber qual é o sentido de tudo isto. Eu deveria ler a Bíblia. Não sei descrever um quarto escuro onde não cabe o céu na janela.
P:
R: Qualquer coisa. Qualquer. Falo de esperança em gavetas separadas.
P:
Em algumas situações gostaria fazer isso, sim. Passar a borracha, apagar algumas partes e redesenhar a vida de uma forma diferente. Por momentos somos apagados pelo que já não conseguimos dizer. Encobertos pelo extraviado. E é com tanta intensidade que não estamos, que nem palavras nos encontram, que do nó da garganta brota sempre a fome ou apenas flores que morrem e que prontamente usarão para decorar nosso silêncio. Não sabemos que fazer do olhar. O que se vê, é o que falta, o que não fala, o que não volta. Não estamos nem detrás da procissão da ausência; e as suas pernas que se arrastam. Nós, que já não estamos: os invisíveis, os esquecidos, os ignorados e errantes... Os que falam com línguas sem céu. Cada dia desaparecemos um pouco, até completar-nos.
P:
R: Pois é... Tento fazer o mesmo com minha vida. Nem sempre consigo. Vez que outra me alcança um desespero. Abro esta porta, mas o inverno nas flores chega por acumulação. Amor e vento (e eu morrendo). Quando acordo todo dia e vejo que sou a mesma de ontem, penso que não é o bastante. Já não sei aonde ir, mas volto a trabalhar cedo para que nada disto se note.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Autografados e abandonados (Desculpa Bioy...)


“Ocasionalmente as obsessões permitem
a grande obra. Quem sabe de que livro
estamos lendo agora os rascunhos.”
Adolfo Bioy Casares


Borges e seu amigo Bioy Casares


Entre os diversos livros da biblioteca, guardo um lugar especial para aqueles autografados. Levam a marca e respiram o ar do tempo em que foram datados. Sinto-me transportado àquela hora. Outros, incompreensivelmente, mesmo com assinatura e dedicatória para seus leitores, foram esquecidos e deixados de lado em algum sebo.

Que destino ou castigo imposto levou alguém a abandoná-los? Tomavam muito espaço ou a nova cor amarela das páginas não sustentou sua nova leitura? Prometeram uma literatura que não foi cumprida? Qual foi a falha? Onde foram vencidos seus acertos? Que caminhos percorreram até perder-se da estima? Talvez até contem uma história mais curiosa e triste que a do próprio livro. Sinto-me na obrigação de resgatá-los, como se estivesse devolvendo ao autor, e a suas páginas, o carinho e respeito que tiveram na hora da sua assinatura.

Antigos e contemporâneos convivem em harmonia com assinados rejeitados comprados de terceiros. Assim como o filho perdido que volta pra casa. Mesmo adotados, são próximos e amados por igual. Em muitos outros, que guardo com mais zelo ainda, aparece meu nome. Sempre exerceram grande fascínio e foram utilizados com diversos propósitos, assim como suas dedicatórias. Mas quero enfatizar uma. Ela sempre chamou minha atenção e fez que especulasse infinitas conjunturas e perguntas a partir dos detalhes registrados na página do livro.

Dono de uma vasta obra onde a fantasia e a realidade se superpõem com harmonia magistral, o escritor Adolfo Bioy Casares não pára de me surpreender. E deve ser em parte por isso que possuo, justamente dele, uma das “dedicatórias” mais curiosas e inusitadas. Suspeito que foi na 6º exposição da Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, já que o carimbo ainda consta numa das páginas.

A impecável construção de relatos fez com que, em 1990, conquistasse o maior galardão literário da língua espanhola: o prêmio Cervantes. Bioy era rico, pertencia a uma família tradicional.

Sua fama de galã e conquistador extrapola também sua bibliografia. “Comecei a escrever para seduzir as mulheres. Elas estão sempre na origem de tudo”, confessou. E claro que diversos fatos da sua vida e obra retratam e confirmam este perfil. Casado com a escritora Silvina Ocampo, construiu, junto com Borges, um dos pilares mais fortes e renovadores da literatura de ficção Argentina e mundial. Escreveram individualmente e a quatro mãos, adotando o nome de H. Bustos Domecq e B. Suárez Lynch. Bustos fora um tataravô de Borges e Domecq um tataravô de Casares. “A invenção de Morel” (1940), a mais reconhecida obra de Bioy Casares, foi claramente a inspiradora do bem sucedido seriado americano “Lost”. Numa clara referência e homenagem, um dos capítulos exibe um dos protagonistas e habitantes da ilha lendo o referido livro.

Por muitos anos Borges e Bioy lideraram o cenário literário - intelectual. Sua escrita, amizade e gostos se fundiam de forma recíproca, no cordial papel de mestre e discípulo.

Não posso deixar de citar um comentário do seu contemporâneo, Julio Cortazar, a uma de suas obras: “Poderia ter sido algo grande, mas malogra parcialmente pela excessiva assimilação da técnica do papai Borges e de seus temas”.

“Adolfito”, como era conhecido pelos amigos e família, um dos escritores de mais prestigio e sedutores da sua época, não escondia sua paixão pelas mulheres. Silvina, também rica e onze anos mais velha, sentia orgulho da sua conquista. Compartilhavam assuntos literários e certa burla para convenções sociais. Mas defendia seu “troféu” até de suas amigas mais intimas. Nem sempre ganhava... Com o tempo acabou aceitando suas diversas amantes, aventuras superficiais, como ela mesma definia, enquanto não ameaçassem a estranha e estável união intelectual. Um dos casos mais conhecidos e duradouros foi aquele que manteve com a bela Elena Garro, esposa do escritor mexicano e prêmio Nobel de Literatura, Octavio Paz.

Silvina possuía um particular encanto que contrastava com aquilo que a si mesma considerava como “fealdade”: “Onde quer que eu vá com esta cara?” perguntava. Impossibilitada de dar um filho a seu marido e, com medo de perdê-lo, acabou concordando em adotar Marta Bioy, filha de Adolfito com uma de suas amantes.

Diversas histórias com suas mulheres faziam parte já do folclore literário. “Bioy teve amantes que o freqüentaram até o dia da sua morte”, confessa no seu livro “Os Bioy”, Jovita Iglesias, fiel empregada da casa, amiga da família e que trabalhou com o casal por quase cinqüenta anos. “Tenho um defeito, Jovita, uma grande debilidade: gosto tanto de mulheres, que se a um pau de vassoura fantasiassem de mulher, iria atrás desse pau de vassoura.” Esse tipo de confissão não era raro para ela, mas não acontecia com amigos como Borges, onde autores, obras e escritos eram quase a exclusividade dos temas das conversas. E por esta popularidade e fama é que a dedicatória que fez no exemplar do livro “Cuentos breves y extraordinários” (Editora Losada, 2º edição), recompilada juntamente com Jorge Luis Borges, toma uma dimensão diferente.

Nele textualmente está escrito:

“Para Nora Mónica Marcalain,
muy cordialmente
Adolfo Bioy Casares (sua assinatura), 1980
44 - 6586 después de las 11 a.m.”.


O telefone aparece riscado uma vez e logo escrito novamente de forma clara... Não vou indagar nem querer saber quem era a tal Nora... Mas arrisco a perguntar: - por que junto a uma dedicatória, um telefone e até o esclarecimento da melhor hora para ligar? Que telefone era esse? Por que depois das 11 a.m.? Por que tudo isto escrito num livro e não numa outra folha qualquer? Qual é o verdadeiro sentido deste recado? Por que parecendo uma coisa tão pessoal e atenciosa, Nora Mónica Marcalain, se desfez dele? Talvez o tempo tenha apagado o interesse, ou faça parte de um passado que não faz questão lembrar. Por que está comigo como mais um livro-filho desarraigado? E eu cobrando ainda alguma ingênua explicação...

Perguntas que talvez não tenham nunca uma réplica coerente.

“A vida consiste em adaptar-se à incoerência”, com certeza me responderia. Mesmo assim parece curioso, e de fato o seria, em circunstâncias normais.

Coincidentemente (ou não) tenho uma folha original das memórias de Bioy (que publicou em 1994 com também alguns bastidores amorosos). Nela, claramente altera e emenda, corrigindo à mão com sua caneta, algumas palavras do texto escrito à máquina. Comprei de um antigo colecionador de livros, documentos e manuscritos em Buenos Aires. Casualidade também ou não, seu escritório fica defronte ao apartamento de Borges, na rua Maipú. Por ironia do destino, justamente nessa folha, conta que seu interesse pelos sonhos começou quando seus pais tiraram dele um cachorro que tinha ganhado numa rifa. Eles, que não queriam o bicho, asseguraram que não existia o tal cachorro. Que possivelmente o teria sonhado...

A tal ironia é que tanto no manuscrito que tenho como no livro depois publicado, o nome do cachorro era “Gabriel”. Provavelmente, uma fantástica e premeditada vingança no tempo, por possuir agora justamente o livro que faz jus àquela fama de conquistador... Ou estarei novamente fabulando? “A gente afirma que muitas explicações convencem menos que uma só, mas a verdade é que para quase tudo existe mais de uma razão.”, justificaria. E seria uma boa saída para esta história de amores, literatura e memórias.

“Que agradável seria a vida se terminasse um pouco antes da morte...”, disse na voz de uma das suas tantas personagens. O último aristocrata das letras argentinas faleceu aos 84 anos em 1999.

Mas sou o “cachorro” que espalhou a tal dedicatória, o telefone e recado... Que possui o referido volume e divulgou mais esta “prova”.

Estamos quites agora.

Desculpa, Bioy...

Obs: A citada folha autografada do livro e o manuscrito corrigido de Bioy Casares continuam comigo para atestar a veracidade ante qualquer cético leitor.




(Do meu livro "Borges e outras ficções") 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Rastros



Colocas a mobília onde olhas, espalhas gestos pelo chão, encolhes, andas imóvel pela casa, os cheiros tocam fogo na cara, se fundem, dissolvem a luz desta loucura, tentam olhar outra cor passageira que não habita, que não sabíamos antes (mas que é tua). A porta me vigia, não há atalhos. Nela não aparece tua ida, que ainda posso tocá-la com as mãos.  Agora também andas pelo texto, cavando, e é provável que não escapes desta página, da parte de trás da letra, traço, fazendo parte de tudo o que cabe e está vazio. Mas cala. Agora que tudo é quase outra coisa onde nada havia. Não me engano se te escuto. Para os outros apenas minto quando digo: ela não mora mais aqui.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Que nem eu


Um dia você abrirá os olhos, que nem eu. Acordará em qualquer lugar, suponhamos que aqui, neste triste espaço íntimo, parte do seu todo, objeto de repouso invisível, que nem eu. Por esta vez dirá, terei que esperar, e sentada, esperará. Então você pensará em contar, um, dois, três, até quanto acreditar que possa demorar. Mas não contará. E você pensará, não tenho paciência em contar, mas já que estou sentada, vou esperar sem calcular o tempo. Mas você não terá calma nem tempo para regular. Estará impaciente, calculando inconsciente toda espera, e tentará não pensar nisso, e possivelmente dirá, não sei há quanto estou aqui, mas vou ficar imóvel, talvez em transe a fila ande, e aí tudo aconteça sem perceber, e assim você fica. E quando se mexer, novamente, um pouco antes do então, num gesto singular, não haverá mais animação nem pausas para simular o alimento no deserto. Nem tempo para esperar. Estará excessivamente sozinha, e então você será como eu, depois nunca mais.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Só empresto o que puder presentear

“Liberdade completa ninguém desfruta, mas, nos estreitos
limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda podemos
nos mexer”.
Graciliano Ramos


Odeio emprestar livros. Gosto de tê-los comigo, de relê-los se quiser, de tocá-los e sentir o cheiro da sua presença. Saber que eles estão aguardando, que já foram lidos e ainda esperam renovados a cada leitura. Mas como nunca consegui não emprestá-los, fiquei sem alguns e acabei perdendo não só o livro como a memória das pessoas a quem o emprestei.
Pensei fazer igual ao tempo dos antigos e valiosos manuscritos, onde era costume escrever pragas nos livros, amaldiçoando quem os furtasse. Cheguei até copiar um texto daquela época para colocá-lo em qualquer página e quando menos o leitor esperasse, dar de cara com a mensagem:
“A quem furtar um livro da minha biblioteca, que se transforme em uma serpente suas mãos e o subjugue, que seja atacado por paralisia e todos os seus membros sejam amaldiçoados. Que agonize em dor, gritando perdão. Que não haja descanso para sua agonia, até que se afunde na dissolução. Que os vermes de livros roam suas entranhas...”.
Mas ninguém precisou agonizar, ser atacado ou roído pelo remorso. Muito menos pedir perdão por isso. Entendi que, ao longo do tempo, nossa memória vai formando uma biblioteca díspar, feita de livros, lembranças ou de páginas soltas, e tal vez em essas páginas esteja já o essencial, e cuja leitura foi uma felicidade e que gostaríamos inconscientemente de compartilhar. Classificar minha biblioteca foi uma maneira silenciosa de exercer o artifício do meu julgamento e, com ele, poder dividir meus gostos.
Comecei emprestando aqueles sem os quais eu poderia viver. Mas a dor foi de flagelo. Essa norma foi logo substituída por outra que descobri com a perda: só empresto o que puder presentear. Mesmo sabendo que ainda que comprando muitos outros, não serão nunca como esses. Que é um livro, se não o abrimos? Eles guardam parte de nós e merecem nosso cuidado. Um único livro ameaçado ocasiona uma perigosa perda na biblioteca universal. Eles eternizam nossa memória. Por isso acredito estar cercado de belas metáforas.
Talvez cada um de nós seja uma mera letra no complexo texto cifrado do universo. De fato deixei de emprestar livros, agora só os dou. E foi isso o que fiz quando soube da idéia de fazer uma biblioteca no presídio municipal.
Uma pesquisa da Universidade local tinha levantado que a leitura estava sendo feita só no pavilhão dos ‘isolados’, onde ficam os presos que, por uma razão ou outra, não podem deixar suas celas. Lá circulam, num caixote, velhos livros emprestados uma vez por semana, uma iniciativa que poderia estimular a todos agora, com a campanha de arrecadação. Ela coincidiu com o final da faxina na minha biblioteca e com a vontade de pôr ordem no caos literário de anos. Sem ordem, uma biblioteca seria um simples depósito de livros. Um caos no qual, às vezes, podemos suspeitar que exista uma outra ordem. Cada livro revelado ao lado de outro, e este, ao lado de um terceiro, ramificando-se pelas prateleiras, ganha vida própria, multiplicando-se entre estantes e corredores, procurando a biblioteca ideal, completa, inconcebível. Quando a vida cai, o mundo se desvanece e a biblioteca, iluminada por suas vozes, vira meu paraíso. Livros abrem portas, entortam vigas e podem levar à liberdade absoluta. Na biblioteca descobri minha tábua de salvação, meu antídoto, minha lâmpada dos pedidos e desejos. Uma ilha, na qual ancorei. Uma ilha chamada livro, à qual gostaria que chegassem as respostas escondidas, quando tudo o que ela consegue fazer é me trazer mais desejos. Livros me sacodem, mordem e me ferem como a mais dolorosa das desgraças, e me recuperam com o remédio diluído na tinta preta impressa no papel. No acúmulo e no desprendimento, achei minha companhia e meu consolo.
Entre os que primeiramente separei, fiz uma melhor seleção com aqueles que se encaixariam no perfil do suposto novo leitor. Fiquei realmente feliz ao descobrir livros de cuja existência não lembrava e que, todavia, se revelam extremamente importantes para mim. Na verdade, minha preocupação tinha mudado, querendo encontrar alguns, tentando adivinhar gostos e preferência de quem pudesse lê-los.
A classificação aumentava e diminuía, descartava ou incluía e comecei a perceber que justamente aqueles que não tinham entrado na lista eram os que melhor ou mais facilmente seriam assimilados por eles. Mas afinal, a limpeza ou a escolha? Tentei ser imparcial e depois liguei para que alguém passasse a recolher minha doação.
Naquela mesma tarde um detento, daqueles que passam só a noite na prisão, veio em casa. Timidamente subiu a escadaria em caracol, à esquerda da entrada que leva até uma galeria com um pequeno piso de madeira que dá para a sala de leitura com estantes de livros alinhadas. Algumas delas apanhando poeira.
– Sua biblioteca parece ser enorme. Sua casa toda parece ser uma biblioteca... – falou notadamente surpreso, enquanto o imaginei olhando de cima para baixo a distribuição das prateleiras.
– Agora que está um pouco mais em ordem, assusta menos – respondi em tom de exagero – Tem que ver na confusão como parece um labirinto feito de colunas de volumes empilhados querendo engolir leitores... Muitas vezes me perdi em meio a velhos tomos de edições esgotadas, gravuras do século passado e enciclopédias as quais eu cheguei a ler como a um livro desde a letra “A”.
– O senhor parece feliz e empolgado quando fala dela...
– Quem conhece a biblioteca, conhece diversas felicidades, meu jovem...
Acredito que tenha ficado surpreso diante dos espelhos que propositalmente duplicavam as prateleiras até o infinito, e que agora cercam o mundo real de sombras e luzes a que estou acostumado. Quanto mais eu falava, mais ele parecia extasiado, demonstrando-me sua admiração por cada detalhe da sua estrutura. Ela possui em si a potencialidade do mágico. Em algum lugar dessa fabulosa arquitetura, existe uma porção diabolicamente divina ou uma chave que abre a porta do prazer desconhecido. E ele agora parecia estar descobrindo esse feitiço em cada passo que dava. Aqueles que eu já tinha escolhido estavam separados. Na realidade não sabia quantos eram exatamente, nem o título de todos. E foi justamente isso o que ele acabou perguntando:
– Sua doação parece ser a maior até agora. Quantos livros o senhor está doando?
– Na verdade não sei. Comecei a selecioná-los e não contei quantos...
– E no total, o senhor sabe quantos livros tem?
Poderia ter arriscado qualquer número parecido a cinco mil que a pergunta estaria respondida sem questionamentos, mas preferi não revelar nenhum número e responder que só quando terminasse minha arrumação poderia saber com exatidão.
– O senhor realmente quer doá-los? Não irá sentir falta?
– Possivelmente, mas é preciso decidir se queremos proteger e exibir os livros ou dá-los a ler. Ainda que não saibamos, sempre estamos voltando a ler o mesmo. Faço questão de dar aqueles que possivelmente tenho duplicados ou que agora possam ser mais úteis aos outros que a mim.
Poderia também ter argumentado que cada geração escreve o mesmo texto, conta o mesmo conto, publica em definitivo o mesmo livro. Com uma pequena diferença de voz, modulação ou acento gramatical... Que em todos meus anos de leitura, não concordei com muitos deles, embora sempre tenha percebido algo de sagrado e imortal na sua composição; mas preferi guardar algumas justificativas para mim mesmo.
No tempo que passou visitando os corredores, e enquanto conversávamos sobre minha doação, ele concordou em me ajudar a preencher um formulário com alguns dados, que depois assinei. Não consegui fingir. Confessei que preferiria contribuir dessa maneira, dá-los de presente a ter que emprestá-los e nunca mais vê-los. Que ficaria aflito sabendo que o livro que deveria andar de mãos em mãos continuava parado sobre as mesas ou nas prateleiras, impossibilitado de passar sua mensagem. Morrendo seu autor, a obra, o leitor e minha biblioteca. Ele contou que tinha aprendido a gostar de ler quando teve que cumprir sua pena de forma integral na cela.
– Imagino então que deverá ter outros cômodos, outras áreas cheias de livros....
– Não... Minha biblioteca está na sua frente, grande o suficiente como você pode ver. Os outros cômodos são apenas de leitura...
– Me pareceu ver uma prateleira com só um livro na parte de cima...
– Sim... Ela não é casual. Está com aquele livro que definitivamente não quis saber nada comigo. Sua leitura, seu entendimento e prazer me foram negados. Ele não me ama como leitor, não me escolheu para decifrá-lo e deve ser por isso que nunca consegui passar das primeiras páginas. E como a leitura é uma forma de felicidade, não me esforcei e acabei abandonando-o lá encima. Quem sabe se em outro tempo, quando ele consiga transformar-nos, não alcancemos essa revelação...?
– (...) Bom, agradeço e reconheço sua atitude e desprendimento. Eles serão muito bem aproveitados.
Quando apertou minha mão na despedida, percebi que estava tenso, algo preocupado. Assim que terminou de carregar, fez sua última pergunta:
– Por que fez questão de doar todos seus últimos livros, de ficar só com aquele único perdido na estante?
Fechei com calma a porta, respondendo sua dúvida com um sorriso. Para meus olhos cegos, aqueles livros agora estavam em branco. De todas as coisas que me aconteceram, a menos importante foi a cegueira. Embora seja rodeado por infinitas sombras de prateleiras e o eco de antigas leituras, estou condenado a viver no centro do seu labirinto. Que outra bela sorte me resta? Só aquilo que se foi é o que nos pertence.
Continuo sendo em silêncio a soma do que li e perdi e que ainda guardo como revelação.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Silêncios...

“Llega un día en que la poesía se hace sin lenguaje, día en que se convocan los grandes y pequeños deseos  diseminados en los versos, reunidos de súbito en dos ojos,  los mismos que tanto alababa en la frenética ausencia de la página en blanco”.

Alejandra Pizarnik
Fragmento de “Pequenos Poemas em Prosa”.
Publicado em “La Nación”,
Buenos Aires (21 de março, 1965).

“Se ha perdido el significado de la palabra más obvia.
Y aún escribo, aún me precipito con urgencia a narrar estados de asombro y de ira. Unalevísima presión, un nuevo reconocimiento de lo que te acecha y ya no escribirás. Estamos a pocos pasos de una eternidad de silencio”.

ibidem
29 de diciembre, París, 1962.




Lemos que o silêncio é o prelúdio de abertura a uma revelação. Por outro lado, o mutismo é o fechamento decidido a qualquer revelação; é a recusa em receber ou transmitir qualquer ideia ou pensamento; é a atitude deliberada de não revelar, nem por gestos ou palavras, a sua intenção ou pensamento.
O silêncio abre uma passagem, o mutismo a fecha.
Segundo as tradições, houve um grande silêncio antes da criação do mundo, e, ao final dos tempos, haverá outro ainda maior. O silêncio antecede e envolve os grandes acontecimentos, os grandes fatos. O mutismo os oculta ou os disfarça. O silêncio dá às coisas grandeza e majestade; o mutismo as degrada e as deprecia. Um marca o progresso; o outro indica uma regressão. O silêncio é uma grande cerimônia.
Este é um livro sobre silêncios. Mesmo que muitas palavras faltem e outras pareçam dissecadas, aprisionadas, evasivas, envoltas de mais silêncio. Difícil de ser alcançado. Para alguns, ausência de som; para outros, a arte de escutar o que não é dito. Prefiro a invisibilidade da palavra e sua nudez.
De forma parcial, conseguimos contemplar apenas seu eco, habitado de forma residual, inefável, interior, primordial. Todos eles convergem e se afundam em palavras que prescindem. De um silêncio vão a outro, ao acabamento da linguagem perfeita, reduzindo e dissolvendo para diferenciar sua voz. Seu ir e vir persegue o inominável. E o prolonga, alternadamente, de forma infinita. Somos o grande ouvido daquilo que se deixa ouvir. E nos interpela ou transpassa.
“Cada um possui seu próprio silêncio”, afirma o místico indiano Krishnamurti, que expõe, para que se escute, sem nenhum movimento do pensar, a partir da quietude completa, que “o silêncio que há entre as nuvens e o silêncio que existe entre as árvores tem uma diferença imensa. O silêncio entre dois pensamentos é atemporal; o silêncio do prazer e o do medo são palpáveis. O silêncio artificial, que pode fabricar o pensamento, é morte; o silêncio entre ruídos é ausência de ruído, porém, não é o silêncio, tal como a ausência de guerra não é a paz. O sombrio silêncio de uma catedral, de um templo, é um silêncio de séculos e de uma beleza especialmente construída pelo homem. Este é o silêncio do passado e do futuro, o silêncio do museu e do cemitério. Todavia, tudo isto não é silêncio.”
Silêncios e palavras que, de tão independentes, fazem de cada escritor seu escravo. Viajamos nelas e não são poucos os momentos em que sentimos sua ausência. Ficam engasgadas, presas e impedem nossa fala. E aí falamos muito, sem usar nenhuma. Outras, vazias, não representam o que queremos ou expressam o que elas próprias sentem. Levamos, de algumas delas, mordidas boca adentro. De certezas, tom e dizer errados; de momentos, medos e perdão. Elas têm a importância da oportunidade que não volta e a sabedoria daquela que está perdida. Às vezes fogem; esquecidas, são levadas pelo vento (na verdade ficam suspensas no ar e algumas, poucas, conseguem precipitar-se no fluxo misterioso da inspiração) ou têm o peso daquilo que nunca é dito. Alguns sentimentos não cabem nelas; então, por esse motivo, apenas conseguem suspirar. O que separa o desejo da palavra?
Julio Cortázar sabia que elas também sofrem: “Se algo sabemos, nós, os escritores, é que as palavras podem chegar a cansar-se e ficar doentes, como se cansam e ficam doentes os homens e os cavalos. Há palavras que, à força de serem repetidas, e muitas vezes mal empregadas, terminam por esgotar-se, por perder pouco a pouco sua vitalidade...”. Alguém já disse que deveríamos usar palavras como se tivéssemos de pagar para publicá-las ou dizê-las? E, claro, algumas seriam mais caras. Outras, de tanto valor, nunca poderiam ser ditas. Talvez falemos tanto para não dizer-nos os silêncios.
Há uma palavra, e apenas essa palavra é a que melhor expressa, a que, possivelmente, chegue mais perto do que sabemos ser inclassificável, inteligível. A eloquência analógica do indizível. As palavras, então, se detêm e nada manifestam. Olhamos sem ver o invisível; ouvimos sem entender o inaudível; tocamos sem ver o imperceptível; porque haveríamos de entender ou sermos afetados pelo silêncio diluído no próprio silêncio?
O escritor uruguaio Eduardo Galeano recomenda, com sabedoria, nunca escrever por escrever, mas escrever somente palavras que queiram ser melhores que o silêncio. Aquilo que desconhecemos costuma ser mal interpretado. E, prestar atenção a seu significado, é tentar interpretar com palavras aquilo que não tem nenhuma.
Todavia, Rubem Alves afirma que “todas as palavras, tomadas literalmente, são falsas. A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Prestar atenção ao que não foi dito, ler as entrelinhas. A atenção flutua; toca as palavras sem ser por elas enfeitiçada. Cuidado com a sedução da clareza! Cuidado com o engano do óbvio!”
Reeduquemos, portanto, nossa percepção, acendamos e apuremos os sentidos, degustemos a palavra na boca, porque estamos rodeados de poesia e silêncio; e isto é uma grande cerimônia!
Eu não encontrei melhor forma de fazê-lo.


Introdução a meu livro “Cerimônias do Silêncio”

sexta-feira, 23 de março de 2012

De que falam os que falam sozinhos pela rua?

“Quem fala sozinho/ espera falar com Deus um dia”
Antonio Machado


De que falam os que falam sozinhos pela rua?* Com quem discutem, passeiam, ensaiam respostas? De que riem em alto e bom silêncio? Aonde vão os que não têm lugar? De onde voltam? (Lembro daquele bumerangue que não voltou porque encontrou Deus...). Resistindo, contrastando, cheios de ar, mas em pedaços.
Que desabafo morreu de angústia? E aspirou vida. Que monólogo acompanha o céu? (Que se nubla se tocado). Para onde olham rasgando paisagens? Enquanto a fome canta, desafinada...
Para onde não vão os que falam sozinhos na rua? Por onde passam? Detidos. Onde pára sua fala? Que passa. Quem cumprimenta calado, de muda testemunha, e junta entulhos de presença? Qual o limite? Que cruzam como uma rua ou um rio de água triste, de fumaça molhada, deserta. Parecem caminhar longe, porque longe tudo é mais leve.
Quem o alheio interlocutor que não aparece?  Que platéia imaginária e muda responde ocupado? Respiram. Extasiados, distraídos, quase sem necessidade de voar; isso que os pássaros dizem escrever. Guardam secretos, falsos souvenires dos lugares, nos bolsos da calça. E lhes colocam nomes, para logo esquecê-los, nos mais remotos destinos. Sabem que é para isso que servem os segredos. Beijam cachorros de rua, que não latem nem mordem, de andares sem rumo, desorientados. E também falam com eles. Brincam com o silêncio, o nada e um pingo de morte cheio de vida. Inventam que não sentem dor. Descrevendo, insistindo com os inúmeros seres que os rodeiam e não sabemos, mas não se distraem.
Para quem os gestos e as palavras? Que desabam, repelem e abrem janelas? Talvez falem para todos (pensam em voz alta), o que todos apenas confessam em voz baixa.
Que ausência apontam seus dedos? O que justificam e não revelam? Anotam, oralmente, cartas nunca escritas, mandadas vagamente, com a vontade secreta de jamais serem lidas. Para quem a música assobiada, que ilumina silêncios de ternura apodrecida? Que faz ouvir sua própria fala? Que parece orar, de mãos juntas, insuficiente, precária; com olhos que não enxergam, porque também falam... E contam mais do que dizem.
Caminham sem pressa, ou param, já que tudo nunca chega, ou chega tarde a lugar nenhum. Nada é tão nosso, quanto deles o desejo por falar; ainda que a rua cale ou libere o que sentem. E encontram muito em muito pouco; provocam movimento, flutuam devagarzinho como silêncios que nos pegam no meio da fala.
Não abrem portas, apenas passam sua presença por debaixo delas, e olham pacientes pelo olho da fechadura, esperando. O espelho quebrado reflete a voz, mas não recolhe seu rosto; não serve para se olhar, apenas para enxergar quanto deles somos; quanto deles temos.
Enquanto nós falamos com máquinas que não funcionam, com plantas que crescem e os espelhos dos elevadores, eles falam sozinhos...
Como então encontrá-los sem nos perder primeiro? De que não falam os que não falam sozinhos? Por que não falam? Talvez os que falam se perguntassem. E por isso falam. Sozinhos pela rua.

– Está falando comigo?
– (...)
– Não. Desculpe.


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* Um curioso estudo publicado sobre diversos casos, identificou alguns tipos:
Aquele que não fala completamente sozinho, já que o faz com seus animais de estimação, que passam a compreendê-lo melhor que ele mesmo. Alguns com idioma próprio que, aparentemente, apenas eles conhecem.
O segundo caso parece com o primeiro, mas este fala com rádios e TVs, contestando argumentos e opiniões. Podem chegar a rir, ameaçar e até insultar. A falta de resposta dos aparelhos parece enfurecê-los ainda mais.
O seguinte é um monologuista agudo. Efetivamente, está acompanhado de um interlocutor, mas este não consegue responder nem intervir nunca, apenas ouvir. Na sua fala, logra não deixar pausas e silêncios, controlando até sua respiração, e assim ninguém conseguir interferir.
O seguinte tipo fala incansavelmente para si, a suposta resposta que deveria ter dito no dialogo que acabou faz tempo. Ele consegue retrucar, fazer que a mesma palavra tenha diferentes tons e ensaia até gestos, caras e bocas para finalmente dizer agora o quê, de forma arrependida, não disse antes. (Existe uma variante neste tipo: aquele que pratica antes todas as formas da fala daquilo que irá dizer, mas dificilmente consegue que seja igual).
O último caso podemos ver tradicionalmente falando sozinho com todos seus invisíveis interlocutores. Além disto, existe uma pequena porcentagem que também interage com outras pessoas, tentando dar a entender aos incrédulos que eles também podem participar.
Em todos os casos se recomenda calma. Eles não são muito diferentes de todos nós.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Um clássico

Certamente, o livro que eu estava lendo – um clássico da literatura – deve ter sido o responsável daquele curioso encontro.
Não caminhei, como sempre, com a finalidade de encontrar o melhor e mais afastado refúgio do parque para sentar e ler. Preferi pegar um ônibus com um destino qualquer e, de tanto em tanto, olhar a nova paisagem se abrindo como um filme novo. Na volta seria o mesmo, e talvez conseguisse fazer essa contemplação pela janela por mais tempo, já que esperava terminar minha leitura até lá.
Não sei por quê, mas gosto de ler nas viagens. Enquanto alguns mal conseguem disfarçar a ansiedade para que o momento passe, eu me perco de tal modo nas histórias que meus livros contam, que a surpresa de não saber para onde estou indo se incorpora, de forma cúmplice e misteriosa, nas páginas de cada obra. Levo sempre meu jornal para cobrir sua capa e evitar exibir o que estou lendo. Curiosos existem em toda parte.
Mal podia imaginar que o cenário da minha leitura não iria acontecer fora do ônibus. Em uma das incontáveis paradas e momentos em que rapidamente levantei a cabeça, fazendo uma pausa na minha leitura, acabei avistando aquela mulher adentrar o ônibus. Ela se sentou no lugar que o homem de bigode exagerado, sobretudo preto, cheirando forte a cigarro e álcool, tinha deixado duas paradas antes. No começo, não pensei nada. Só percebi que alguém tinha saído e outro alguém tinha sentado ao meu lado. Só isso.
O percurso do ônibus, que eu não conhecia, me pareceu pouco prático para minha leitura. As curvas eram seguidas, os buracos constantes e as paradas contínuas. Deixei de ler para recuperar um pouco minha atenção. Lembro perfeitamente que eu estava vestindo uma daquelas confortáveis roupas de fim de semana, não muito preocupado com minha aparência. Nem a barba tinha feito. Se soubesse o que iria acontecer, teria tido um pouco mais de cuidado.
Admirei a paisagem das ruas e casas com muitas árvores de cedro e passei meus olhos ligeiramente por quem estava a meu lado. Foi quando percebi que ela também estava lendo.
Com uma estudada curiosidade, simulei estar observando qualquer outra coisa e olhei de lado, para arriscar enxergar qual era o livro. Seu autor, o título, ou ao menos que tipo de leitura era. Qualquer coisa. Justamente eu, que não gostava de mostrar ostensivamente a capa do meu, peguei-me com algum constrangimento fazendo o mesmo. Não enxerguei nada. Mas me pareceu que ela tinha descoberto minha invasora curiosidade literária e fiquei sem jeito.
– Gosta de autores clássicos? – perguntou, como se percebesse meu inexplicável e repentino interesse por sua leitura.
– Sim. Justamente o livro que estou tentando terminar de ler agora é considerado um dos melhores clássicos, ainda que monótono para quem não está acostumado – respondi, surpreso pela abordagem.
– Pois que coincidência, – disse, fechando o livro – eu também acho um pouco cansativo e até, às vezes, me pergunto: por que não ler aquilo que nos faça entender melhor nosso tempo? Mas todo clássico parece nunca esgotar aquilo que tem para dizer, não é mesmo?
Consenti com a cabeça e esbocei um sorriso. Com essa simples colocação, percebi que era uma leitora de respeito, que sabia daquilo que estava falando. Sempre fui leitor dos clássicos sem entender muito o porquê. Imagino que são livros que “devem” ser conhecidos de todos porque, supõe-se, carregam alguma espécie de conhecimento “obrigatório” para a compreensão da cultura ou, simplesmente, para a formação humanista. Ou como dizia Calvino, toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.
Pareceu-me também que ela tivesse gostado de mim ou, pelo menos, do meu livro, do meu gosto pelos clássicos. Por que escolheria justamente estar a meu lado, havendo tantos assentos? Por que falar comigo? – pensei, procurando alguma tonta justificativa.
Queria contar-lhe também que tenho inúmeros livros que, se eu tivesse mais vidas para viver, certamente os voltaria a ler, mas infelizmente os dias que me restam não são tantos assim. Que não gosto desta geração cujos hábitos de leitura se resumem apenas ao consumo de textos facilmente digeríveis, oferecidos em boa parte pela internet, essa infindável cadeia de fast-food do conhecimento! Mas achei meu comentário tolo e inoportuno, ante alguém que recém-conhecia.
O ônibus parecia não ter parado mais; não subia nem descia mais ninguém. Não fazia mais curvas, não entrava mais em buraco nenhum. Ainda que desconhecendo seu trajeto, me pareceu ter mudado radicalmente o seu caminho. Decerto era a distração que ela estava me causando. A paisagem lá fora passava despercebida.
Esperei sem saber o quê. Uma nova pergunta, uma nova abordagem literária ou alguma outra palavra sobre outro assunto qualquer. Afinal, ela praticamente tinha me provocado. Mas não falou nada. De repente, ficou calada como se nunca tivesse falado comigo. Fiquei nervoso e ansioso por querer continuar conversando. Olhei pela primeira vez diretamente para ela e o livro que segurava com tanto zelo, procurando algum gesto, algum aceno que pudesse servir para alguma palavra. Não encontrei nada, também. Sentia-me apreensivo. O que poderia esperar daquela situação?
O ônibus parecia andar mais rápido ou era eu que não queria chegar nunca ao meu destino?
Por que estaria tão preocupado, e revelando toda minha fragilidade emocional, a ponto de começar nitidamente a suar? Comecei a me sentir culpado por tudo: pelo que até aquela hora não tinha feito, não tinha visto nem ouvido. Por seguir as regras do meu jogo, minhas portas fechadas, minha autoabsolvição.
Meu velho medo de falar e o abandono para tirar o pó dos cantos da minha alma. As palavras que não disse a tempo e o significado das que ainda não tinha descoberto. Pelas preocupações que nunca se realizaram, pelos encontros a que cheguei tarde e aos que não fui para não encontrar a mulher dos sonhos. O cachimbo da paz, a terra prometida, o vento que seca meu travesseiro e o eterno brinde para o amanhã que será melhor. A compreensão detalhada das frases de um livro e a raiva por não entender ou decifrar os olhos com que ela me olhou. O importante sempre foi não abdicar da minha vida, mas viver intensamente e ver como os livros se encaixavam nela. Nem sempre deu certo, ao dar a eles a prioridade errada.
Meu desespero foi maior quando pensei que a qualquer momento poderia descer e não encontrá-la nunca mais. Não sabia o porquê. Talvez fosse inimaginável para mim a possibilidade de achar alguém que gostasse da leitura de clássicos na mesma viagem, sentada a meu lado e ainda puxando conversa. Não temos condições de ‘conhecer’ tantas pessoas, com tanta intimidade; porque precisamos nos conhecer melhor, ler melhor, buscando empatia com a vida.
– Humm, falamos de autores clássicos, de algumas páginas monótonas e sobre aquilo que um livro carrega consigo, mas ainda não sei qual é o livro que está lendo – custei a falar com uma certa coragem, esperando alguma reação.
Não sei se o barulho que vinha de fora, aliado às buzinadas do ônibus contribuíram para tampar minha tímida e gaguejante voz, mas ela continuou calada, como se eu não tivesse perguntado absolutamente nada.
Fiquei quieto, sem saber mais uma vez o que fazer. Pensei em repetir meu questionamento, mas desiludido, imaginei ser em vão.
Repentinamente, aconteceu aquilo que mais temia. Lentamente se levantou, sem olhar na minha direção, e sem se despedir com qualquer palavra. Caminhou até a saída e desceu do ônibus. Quando olhei seu assento, percebi que tinha esquecido ou deixado, quem sabe propositadamente, seu livro.
Abri prontamente a janela para avisar, mas o ônibus partiu, sem me dar tempo para nada. Pensei em descer, correr e devolver o livro, ou até mesmo em utilizá-lo como pretexto para algum futuro encontro. Logo me conformei em ficar com ele, ao menos como lembrança. Teria entre suas páginas algum pertence particular, seu nome em algum bilhete indiscreto ou um simples e despretensioso marcador?
Apanhei o livro e olhei-o com curiosidade para finalmente saber seu título. Constatei ser o mesmo que eu estava lendo. Mais confuso fiquei, quando não vi onde estava o meu.
Procurei embaixo do jornal e do assento, ao meu lado, e nada. Parei por um momento para refletir se ela realmente existiu ou foi só no coração do próprio acaso.
Quando o ônibus chegou ao seu destino final, já era noite. Desci, mas já não sabia se era um livro que apertava contra o peito.

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