ESCRITOS DO GABRIEL

(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )



"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

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quarta-feira, 8 de maio de 2013

Na Feira do Livro de Jaraguá do Sul

O escritor Rio-sulense Gabriel Gómez é um dos confirmados para participar da 7ª edição da Feira do Livro de Jaraguá do Sul, que acontece do 6 até o dia 16 de junho. Ele se apresentara na segunda-feira, dia 10, para uma conversa-palestra sobre poesia e literatura no novo palco no Centro Cultural de Jaraguá do Sul (Scar).

Veja AQUI toda a programação da Feira. 

Durante o lançamento, a organização divulgou também o nome de três grandes autores infantis e mais quatro participantes que já foram confirmados.
Trata-se dos músicos e escritores Zeca Baleiro e Adriana Calcanhoto, a violonista Badi Assad e o escritor Rubens Figueiredo. A cerimônia também contou com o lançamento da logomarca do evento. O evento, que é referência no Sul do País, integra o Circuito Nacional de Feiras do Livro do Governo Federal. Para o coordenador geral, Carlos Henrique Schroeder, a proposta não é que a feira seja apenas um local para vender literatura, mas um ambiente para discutir as obras.
— O objetivo do evento é ser um palco de ideias e não apenas um comércio de livros. No ano passado, demos atenção aos quadrinhos (com Ziraldo e Mutarelli) e, neste ano, nos voltamos para a música. A literatura toca em todas as artes —, acredita.
A intenção da organização é nunca repetir um nome sequer. Por isso, na hora de escolher os convidados, o que mais conta é o ineditismo.
Adriana Calcanhotto (que também assina como Adriana Partimpim) participa para falar sobre suas composições, ilustrações e seus dois livros, no dia 6 de junho, às 19 horas. Uma das grandes compositoras e violonistas do país, Badi Assad faz um show no dia 8 de junho, às 19 horas. Vencedor do Prêmio Jabuti por duas vezes, Rubens Figueiredo estará o dia 11 de junho, às 19 horas, e o compositor e músico Zeca Baleiro marca presença no dia 12 de junho, às 19 horas, para falar sobre seus livros e suas composições.
Além dos convidados, a feira continua com a programação de debates, oficinas contações de histórias e a comercialização de livros a partir de R$ 1.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Como ser um grande escritor

Charles Bukowski

 

Poema do livro “O amor é um cão dos diabos”.


você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados;

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil -
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma derrota total
mesmo que a razão para esta derrota
pareça certa ou errada

um gosto precoce da morte não é necessariamente uma cosa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente
o tempo é a cruz de todos
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque

e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem?
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Lançamento Revista Ruído Cultural


Quinta-feira, dia 3, será o grande lançamento da Revista Ruído Cultural (no Bituin). Participo com 3 páginas dedicadas a livros e literatura.
E assim como fala sua proposta, a Ruído Cultural é uma revista distribuída gratuitamente  com a linha editorial focada na Cultura & Comportamento.
Seu objetivo é fazer com que as pessoas tenham acesso facilitado à Cultura de nossa região, além de matérias atraentes, conteúdo relevante, design diferenciado e um espaço onde possam mostrar aquilo que fazem. Nós acreditamos, que desta forma, elas comecem a valorizar cada vez mais a cultura e as artes de forma geral, prestigiando mais eventos, sendo mais críticas e inclusive, cobrando mais espaço para do poder público e dos órgãos ligados à cultura.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Mundo das palavras

Participei da série "Mundo das palavras", realizada pela RBA, Rede Bela Aliança de Televisão.

Veja AQUI a reportagem.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Que livro você é?

Eu descobri que seria "Memórias póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis. O link para descobrir essa identidade literária está no portal Educar para Crescer do Grupo Abril.
Na seção de testes você responde a uma série de perguntas que no final sugere um livro que tem a sua cara.
Além do título, o programa também tenta definir sua personalidade. Olha o que deu o meu...(Será?):

Ok, você não é exatamente uma pessoa fácil e otimista, mas muita gente te adora. É possível, aliás, que você marque a história de sua família, de seu bairro... Quem sabe até de sua cidade? Afinal, você consegue ser inteligente e perspicaz, mas nem por isso virar as costas para a popularidade - um talento raro. Claro que esse cinismo ácido que você teima em destilar afasta alguns, e os mais jovens nem sempre conseguem entendê-lo. Mas nada que seu carisma natural e dinamismo não compensem.
"Memórias póstumas de Brás Cubas" (1881) é considerado o divisor de águas entre os movimentos Romântico e Realista. Uma das expressões da genialidade de Machado de Assis (e de sua refinada ironia), há décadas tem sido leitura obrigatória na maior parte das escolas e costuma agradar aos alunos adolescentes. Já inspirou filme e peças de teatro. É, portanto, um caso de clássico capaz de conquistar leitores variados. Proezas de Machado.

Quer ver qual livro você é? Faça o teste AQUI e depois me conte...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Livros publicados no Brasil que falam de outros livros, escritores, livrarias, livreiros e bibliotecas

Num extenso e detalhado artigo sobre "Livros publicados no Brasil que falam de outros livros, escritores, livrarias, livreiros e bibliotecas",  Maria de Jesus Nascimento, Doutora em Ciencias de la Información (Complutense, España). Professora do Curso de biblioteconomia e gestão da informação da Universidade de Estado de Santa Catarina, fornece um instrumento norteador do processo de seleção de coleções, capaz de ajudar o bibliotecário a formar acervos com obras que incentivem a leitura e contribuam para formar um país de leitores, com este fim levantou-se uma bibliografia através de busca a esmo, em livrarias, feiras de livros, bibliotecas, sites de livreiros e sebos, entre outros. Os 120 títulos, independentemente do gênero literário, falam de outros livros e de tudo que está relacionado ao mundo dos livros, daí o nome “livros trailers”, pois conduzem a outras leituras.
Com muito orgulho, meu livro de 2008, "A culpa é do Livro", foi uma das obras analisadas.

Leia o texto completo AQUI.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O beijo

Um dos poemas que o poeta Carlito Azevedo apresentou na sua oficina no ano passado, foi “o beijo” de C. Tarkos, poeta francês que morreu em 2004. Além da sua singular leitura, o poema, mesmo traduzido ao português, é uma incrível música aos ouvidos e às sensações...



O BEIJO

Um beijo. Eles se beijam. Ele toma sua boca em sua boca, ela toma sua boca em sua boca, eles se beijam. Ele abre seus lábios à sua boca, à sua língua, ela abre seus lábios aos seus lábios, à sua boca, à sua língua, ela gira sua língua em sua boca, ele gira sua língua em sua boca, ele descobre seu beijo, ela descobre a sensação de seu beijo, sua língua doce em sua boca, sua língua doce contra sua língua, ele envolve sua língua em sua língua, ele a mistura, ela gira sua língua contra sua língua, eles se beijam, ela a mistura, eles se misturam, ela cede sua boca à sua boca, eles se dão um beijo, ela lhe dá um beijo e sua língua, ele acaricia sua língua em sua boca, ela acaricia sua língua em sua boca, ela o deixa entrar, eles se amam, sua língua está em sua boca, ela mete sua língua em sua boca, seus lábios estão colados contra seus lábios, ela acaricia sua língua contra sua língua que gira em sua boca contra sua língua, acaricia sua língua contra sua língua quente e oferecida, ele mete sua língua em sua boca, e então eles se amam, eles se beijam.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Dois pensamentos de Borges, uma pergunta com opções e uma constatação

Os pensamentos

Sobre os livros na sua biblioteca: "Ordenar uma biblioteca é uma maneira silenciosa de exercer a arte da critica." (Ele já tinha dito que não guardava na sua biblioteca nenhum livro que tinha escrito. Não tinha como ficar ao lado dos que considerava seus mestres.)
[...] Eu sigo brincando de não ser cego, sigo comprando livros, sigo enchendo minha casa de livros. Outro dia deram-me a Enciclopédia de Brockhause. Senti a presença desse livro em casa, senti-a como uma espécie de felicidade. Aí estavam vinte e tantos volumes com uma letra gótica que não posso ler, com os mapas e gravuras que não posso ver e, no entanto, o livro estava ali. Sentia como que uma gravitação amistosa vinda do livro. Penso que o livro é uma das formas de felicidade que temos, os homens."Sobre os espelhos: "Estou só e não há ninguém no espelho. [...] Eu que senti o horror dos espelhos/não só diante do cristal impenetrável/ onde acaba e começa, inabitável,/um impossível espaço de reflexos/ porem diante da água especular que imita/ o outro azul em seu profundo céu/ que as vezes aproxima o ilusório vôo/ da ave inversa o que um tremor agita.../ "
Os espelhos o assustavam. Tinha repetitivos sonhos com esta duplicidade.

A pergunta

Mesmo sendo cego, você gostaria de estar rodeado de:
1)      Apenas de livros que você escreveu.
2)      De espelhos.
3)      Dos livros que você ama.

A constatação

Borges tinha razão.  

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Sobre "Meia-noite em Paris" e cada um por si...

Ainda estou pensando num pequeno diálogo do maravilhoso filme de Woody Allen “Meia-noite em Paris”.
Para quem ainda não assistiu (está perdendo...), esclareço um pouco da história para poder entender aquilo que quero destacar.
Gil Pender (Owen Wilson), um ex-roteirista de Hollywood tenta agora ganhar a vida como escritor. Em viagem a Paris com sua noiva Inez (Rachel McAdams) e os pais dela, descobre que a cidade pode lhe devolver sua inspiração: todos os dias, à meia-noite, Gil pode viajar no tempo, a Idade de Ouro em que seus ídolos viveram (como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e muitos outros artistas e escritores reconhecidos).
Numa das cenas onde o protagonista volta no tempo, Gil entrega o manuscrito de seu livro para um impagável Hemingway, pedindo para que este o leia, o carrancudo escritor responde de forma prática e realista:
- “Não vou ler. Se for ruim, vou detestar. Se for bom, vou ficar com inveja e detestarei ainda mais”.
Ainda esclarece que não é uma boa idéia mostrar textos para outros escritores esperando alguma opinião, destaque ou divulgação... Parece afirmar a existência de um clima de competição e inveja entre seus pares.
Não tenho como não associar ou lembrar que escritores entregam seus livros, seus "originais”, e outros tantos textos, para outros tantos escritores (alguns afamados, que apenas com sua “benção” já bastaria...), responsáveis por Blogs, sites, revistas literárias, colunas em jornais e afins, esperando possivelmente, alguma opinião, divulgação ou mínimo comentário de “recebi, obrigado”.
Ninguém sabe em que fundo falso está localizada a prateleira destes livros de pequenas editoras, muito menos se algum dia serão lidos. Além das conhecidas “panelinhas” literárias, ninguém existe se publicar fora do eixo, ou não conta com os favores de algum amigo-crítico da imprensa especializada? Aliás, parecem existir cada vez menos críticos literários que também não se dediquem a escrever... E aí, já viu... Sem falar que quando acontece algum destaque, nem sempre a gratidão do escritor aparece. Mas esse é outro assunto extenso e complexo... Aquela gratidão que consegue transformar uma refeição em um banquete, uma casa em um lar, um estranho em um amigo.
Qual será a válida e real separação entre a literatura boa e ruim? Cada um por si e que ela fale mais alto?
Mesmo que a realidade seja outra, assim como destaca Hemingway, a verdadeira escrita (e seu protagonista) parece não esperar a função da mídia, as benesses da crítica, dos amigos, dos leitores, do suposto reconhecimento e prestígio das grandes editoras... Ela se afirma e confirma por aquela “coisa sagrada”, inexplicável para muitos, para quem a considera, por cima de tudo, e independente de divulgação, sua verdadeira condição de existência.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A poesia como liberdade e experiência do ser


Mesmo que o Blog seja "Escritos do Gabriel", acredito tanto na verdade deste texto de Antonio Cicero como se eu mesmo o tivesse escrito... (quem me dera...)
As frases em destque são minhas, a verdade, universal...

Por Antonio Cicero

Vivemos numa época que — com a internet, os computadores, os celulares, os tablets etc. — experimenta o desenvolvimento de uma tecnologia que tem, entre outras coisas, o sentido manifesto de acelerar tanto a comunicação entre as pessoas quanto a aquisição, o processamento e a produção de informação. Seria, portanto, de esperar que, podendo fazer mais rapidamente o que fazíamos outrora, tivéssemos hoje à nossa disposição mais tempo livre. Ora, ocorre exatamente o oposto: quase todo mundo se queixa de não ter mais tempo para nada. Na verdade, o tempo livre parece ter encolhido muito.

Acontece que, de maneira geral, a fruição de um poema exige mais tempo livre do que a fruição de obras pertencentes a outros gêneros artísticos. Não precisamos nos concentrar numa canção ou numa pintura ou numa escultura ou na arquitetura de um prédio para que elas nos deleitem. Podemos apreciá-las en passant. Não é assim com um poema escrito. Quem lê um poema como se fosse um artigo, um ensaio ou um e-mail, por exemplo, não é capaz de fruí-lo. Para apreciar um poema é necessário dedicar-lhe tempo.
O fato é que, numa época em que todos se queixam de falta de tempo, é evidente que sobram argumentos para aqueles que pretendem não haver mais, na nossa época, lugar para a poesia. E não são poucos os que hoje afirmam que a poesia ficou para trás: que foi superada pelos joguinhos eletrônicos, por exemplo.
Pois bem, penso o contrário. É exatamente nesta época de aceleração desembestada que a poesia mais se faz desejável. Por quê? Porque o que me parece inteiramente indesejável é a aceitação passiva da inevitabilidade do encolhimento do nosso tempo livre.
A verdade é que, se praticamente não temos mais tempo livre, isso ocorre porque praticamente todo o nosso tempo — mesmo aquele que se pretende livre — está preso. Preso a quê? Ao princípio do trabalho, ou melhor — inclusive, evidentemente nos tais joguinhos eletrônicos —, do desempenho. Não estamos livres quase nunca porque nos encontramos numa cadeia utilitária em que parece que o sentido de todas as coisas e pessoas que se encontram no mundo, o sentido inclusive de nós mesmos, é sermos instrumentais para outras coisas e pessoas.
Nessas circunstâncias, nada e ninguém jamais vale por si, mas apenas como um meio para outra coisa ou pessoa que, por sua vez, também funciona como meio para ainda outra coisa ou pessoa, e assim ad infinitum. Pode-se dizer que participamos de uma espécie de linha de montagem em moto contínuo e vicioso, na qual se enquadram as próprias “diversões” que se nos apresentam imediatamente.
Em tal situação, parece-me que uma das poucas ocasiões em que conseguimos romper a cadeia utilitária cotidiana é quando, concedendo a um poema a concentração por ele solicitada, permitimos que ele “esbanje” o nosso tempo. Configura-se então um espaço-tempo livre, isto é, um espaço-tempo que já não se encontra determinado pelo princípio do desempenho. Afinal, a rigor, o poema não serve para nada. Ou bem a leitura de um poema recompensa a si própria, isto é, vale por si, ou não vale absolutamente nada.
É nesse espaço-tempo livre que nos deleitamos em flanar pelas linhas dos poemas que mereçam uma leitura ao mesmo tempo vagarosa e ligeira, reflexiva e intuitiva, auscultativa e conotativa, prospectiva e retrospectiva, linear e não-linear, imanente e transcendente, imaginativa e precisa, intelectual e sensual, ingênua e informada. E, para tanto, deixamos que em nosso pensamento interajam e brinquem uns com os outros todos os recursos de que dispomos: razão, intelecto, experiência, emoção, sensibilidade, sensualidade, intuição, senso de humor, memória, cultura, crítica etc. Desse modo, a leitura de poesia proporciona apreensão alternativa — e poderosa — do próprio ser.
Em todo caso, foram semelhantes reflexões sobre o sentido da poesia no mundo contemporâneo que me motivaram a conceber uma série de palestras proferidas por alguns dos teóricos e/ou poetas que tenham pensado de modo profundo e original sobre essa questão.


ANTONIO CÍCERO é filósofo e poeta

sábado, 26 de fevereiro de 2011

De andar para trás

Ainda que Cortazar, em seu impagável Manual de Instruções, do livro “Histórias de Cronópios e Famas” (1962), detalhe que “as escadas se sobem de frente, pois de costas ou de lado tornam-se particularmente incomodas” e minuciosamente explique este procedimento:
“...começa-se por levantar aquela parte do corpo situada embaixo à direita, quase sempre envolvida em couro ou camurça e que salvo algumas exceções cabe exatamente no degrau. Colocando no primeiro degrau essa parte, que para simplificar chamaremos pé, recolhe-se a parte correspondente do lado esquerdo (também chamada pé, mas que não se deve confundir com o pé já mencionado), e levando-a à altura do pé faz-se que ela continue até colocá-la no segundo degrau, com o que neste descansará o pé, e no primeiro descansará o pé. (Os primeiros degraus são os mais difíceis, até se adquirir a coordenação necessária. A coincidência de nomes entre o pé e o pé torna difícil a explicação. Deve-se ter um cuidado especial em não levantar ao mesmo tempo o pé e o pé.)”, ele mesmo completa no seu livro posterior “Último Round” (1969), que existem escadas para subir e escadas para descer, acrescentando que também pode haver escadas para ir para trás:
“Os usuários desses úteis artefatos entenderão sem esforço excessivo que qualquer escada vai para trás se a gente sobe de costas, mas o que resta saber nesses casos é o resultado de tão insólito processo...”.
Como também não voltar a lembrar (e associar) que entre as diferentes criaturas literárias e mitológicas concebidas no “Livro dos seres imaginários”, Borges descreve uma curiosa ave, originária da fauna dos Estados Unidos?: “Não esqueçamos o Goofus Bird, pássaro que constrói o ninho ao contrário e voa para trás, porque não lhe importa aonde vai, mas sim onde esteve.”
Escadas e pássaros que andam para trás, parecendo importar-lhe apenas o passado, vendo as coisas regressarem e não se perdendo de vista.
Cortazar explica que é preciso olhar muitas coisas desta forma, subindo para trás: uma boca, um amor, um romance... Mas ele mesmo adverte para tomar cuidado: é fácil tropeçar e cair; há coisas que só se deixam ver quando se sobre para trás e outras que não querem, têm medo dessa subida que as obriga a despir-se tanto; obstinadas em seu nível e em sua máscara, vingam-se cruelmente de quem sobe de costas para ver outra coisa...
Já disse em outro texto que por trás de andar para trás, é o medo da rota pela frente que alimenta a vontade de querer voltar de onde, possivelmente, nunca se conseguiu sair.
Visitar o reino do ignorado exige um voo sem melancolia.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Dicionário de Lugares Imaginários

No “Dicionário de Lugares Imaginários” de Alberto Manguel e Gianni Guadaluppi, um curioso guia para a transição entre o mundo da realidade e o do sonho literário, em mais de 1.200 verbetes (ou possivelmente “destinos”), poderá “viajar” para infernos, paraísos, céus, mundos subterrâneos, cenários incríveis ou absurdos; no futuro, passado e até fora do tempo no universo inusitado. Em alguns deles, existem mapas e indicações como chegar... Em outros, as mesmas explicações são complexas, impossíveis.
Incrível ou não, os autores não inventaram nada, ou melhor, nada que já não tivesse sido inventado em inúmeras histórias que deram origem a tantos lugares...
Jorge Luis Borges (pai literário de Manguel), com a colaboração da historiadora Margarida Guerreiro, escreveram nos anos sessenta, o “Livro dos seres Imaginários”, uma antologia de criaturas literárias (Leia um deles AQUI), que certamente conhecem cada lugar enumerado neste dicionário.
E já que falamos do “velho bruxo”, descrevo um dos tantos lugares que podemos encontrar em sua inesgotável literatura:

Babel: Cidade de localização indeterminada, célebre por sua biblioteca, não deve ser confundida com a Babel bíblica (Gênese 11:1-9). Essa biblioteca, que alguns chamam de universo, constitui-se de um número indefinido, e quiçá infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por varandas baixíssimas. De qualquer hexágono vêem-se os pisos inferiores e superiores interminavelmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte estantes, com cinco longas prateleiras, cobrem todos os lados, menos dois: sua altura, do chão ao teto, quase não excede a de um saguão estreito, que desemboca em outra galeria, idêntica à anterior. À esquerda e à direita do saguão há dois quartinhos minúsculos. Um é para dormir em pé; o outro é um banheiro. Por ai passa uma escada espiral, que se debruça e se eleva para o longe. No saguão há um espelho, que duplica as aparências fielmente. Os homens costumam inferir desse espelho que a biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que essa duplicação ilusória?). Cada prateleira encerra 32 livros de formato uniforme; cada livro tem 410 páginas, cada página quarenta linhas; cada linhas, umas oitenta letras na cor preta. Uma vez que os símbolos ortográficos são 25 e que a biblioteca é infinita, encontra-se ali tudo o que é dado a expressar, em todos os idiomas. Tudo: a história minuciosa do futuro, as autobiografias dos arcanjos, o catalogo fiel da biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos, a verdadeira historia da morte de cada homem, a versão de cada livro em todas as línguas. Geração após geração, os bibliotecários percorrem a biblioteca em busca do livro.

(Jorge Luis Borges, “La biblioteca de Babel”, em El jardin de los senderos que se bifurcan, Buenos Aires, 1941; “A biblioteca de Babel”, em ficções, trad. Carlos Nejar, São Paulo, 1995)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Noite de Natal

O poema anterior era sobre um texto do escritor uruguaio Eduardo Galeano, e este também... É sobre a noite de natal... Para que tentar escrever outra coisa diferente se ele já escreveu tão bem?

O texto é do Livro dos Abraços...


Fernando Silva dirige o hospital de crianças, em Manágua.
Na véspera do Natal, ficou trabalhando até muito tarde. Os foguetes espocavam e os fogos de artifício começavam a iluminar o céu quando Fernando decidiu ir embora. Em casa, esperavam por ele para festejar.
Fez o último percorrido pelas salas, vendo se tudo ficava em ordem, e estava nessa quando sentiu que passos o seguiam. Passos de algodão: virou e descobriu que um dos doentinhos andava atrás dele. Na penumbra, reconheceu-o. Era um menino que estava sozinho. Fernando reconheceu sua cara marcada para a morte e aqueles olhos que pediam desculpas, ou talvez pedissem licença.
Fernando aproximou-se e o menino roçou-o com a mão:
_ Diga para... _ sussurrou o menino. _ Diga para alguém que eu estou aqui.


Um feliz Natal a todos que estão por aqui também...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Aposta do silêncio



Após uma aposta (que perdi), um poema dedicado a mim e o costumeiro silêncio como tema, a escritora Regina Carvalho publicou isto no seu Blog...


Leia Aqui

(Meu poeminha não chegou a tempo...)

Eu rio...
E tu,
com este silêncio
de mar.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Conversas sobre literatura



A partir desta segunda feira, fui contratado pelo SESC de Rio do Sul para dar uma serie de conversas-debates (para alunos do terceirão e convidados), sobre alguns escritores latino-americanos.
Agradeço aos responsáveis do SESC pela confiança depositada para desenvolver este gratificante trabalho.

O primeiro autor será o uruguaio Mario Benedetti.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Um diálogo de Borges


Do recente livro que comprei, agora traduzido ao português...


OSVALDO FERRARI: Para além de todas as modas do nosso século, o senhor declarou, em um de seus textos, que afortunadamente não possui vocação iconoclasta.

JORGE LUIS BORGES: Sim, é verdade, acho que devemos respeitar o passado, uma vez que o passado é tão facilmente modificável, não é? No presente.


OSVALDO FERRARI: Mas essa atitude de se manter alheio às sucessivas modas iconoclastas, por sua parte...

JORGE LUIS BORGES: Ah, sim, eu acredito que sim; mas é um mau hábito francês pensar na literatura em termos de escolas, ou em termos de gerações. Flaubert disse: "Quando um verso é bom, perde sua escola". E acrescentou: "Um bom verso de Boileau equivale a um bom verso de Hugo". E é verdade: quando um poeta acerta, acerta para sempre, e não interessa muito que estética professe, ou em que época tenha sido escrito: esse verso é bom, e é bom para sempre. E isso acontece com todos os versos bons, podem ser lidos sem levar em conta o fato de que correspondem, por exemplo, ao século XIII, à língua italiana, ou ao século XIX, à língua inglesa, ou que opiniões políticas professava o poeta: o verso é bom. Eu sempre cito aquele verso de Boileau; surpreendentemente, Boileau diz: "O momento no qual falo já está longe de mim". É um verso melancólico e, além disso, no momento em que dizemos o verso, esse verso deixa de ser presente, e se perde no passado, e não importa se é um passado muito recente ou um passado remoto: o verso fica ali. E foi Boileau quem disse; esse verso não se parece com a imagem que temos de Boileau, mas seria igualmente bom se fosse de Verlaine, se fosse de Hugo, ou se fosse de um autor desconhecido: o verso existe por conta própria.


* BORGES, Jorge Luis; FERRARI, Osvaldo. "Os clássicos aos 85 anos". Sobre os sonhos e outros diálogos. Trad. de John Lionel O'Kuinghttons Rodríguez. São Paulo: Hedra, 2009.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Brincadeiras infantis na ilha de Santa Catarina


No programa que participei na TVCOM "Estudio 36" em Florianópolis (que logo postarei aqui), fui entrevistado juntamente com a escritora e pesquisadora Telma Piacentini, autora de "Brincadeiras Infantis na ilha de Santa Catarina".
Brincadeiras de roda, pião, pandorga ou bola de gude encantam as crianças em qualquer época ou lugar. Representações dos jogos de infância estão presentes nas pinturas de Pieter Bruegel (1525-1569) e nos registros de Franklin Cascaes (1908-1983), feitos quatro séculos depois. Parte desse imaginário é o tema desta pesquisa.

O livro é resultado de um estudo sobre as esculturas em barro feitas pelo folclorista Franklin Cascaes, que retratam o legado das brincadeiras e brinquedos da Ilha, surgidos da mescla das heranças culturais luso-açoriana, negra e indígena. Seis esculturas estão publicadas em forma de lâminas avulsas numa reprodução das peças originais do acervo sob guarda do Museu Universitário Oswaldo Rodrigues Cabral, da UFSC.
Para a escritora catarinense a origem das brincadeiras locais está ligada à vasta tradição existente no Ocidente e Oriente. A pesquisadora estabelece relações entre os temas das obras de Cascaes e os jogos lúdicos retratados por artistas como Bruegel, Luca Cranach e Portinari. Segundo ela, algumas brincadeiras da Ilha registradas nas esculturas feitas pelo folclorista catarinense serviam como iniciação ao trabalho: meninos brincando de fabricar farinha de mandioca ou no engenho de açúcar, e meninas rendeiras preparando enxoval.
Com 96 páginas e prefácio de Gilka Girardello, o livro traz ainda verbetes explicativos sobre cada uma das brincadeiras – um trabalho feito pela arte-educadora Patrícia Guerreiro, que recorreu à bibliografia e a depoimentos de populares que traziam na memória lembranças dos jogos da infância.
Para Telma Piacentini, que também se dedica como artista à pintura, ao desenho e à gravura, “as brincadeiras infantis de Franklin Cascaes são como as manhãs de maio da Ilha: iluminadas”. Com Cavalinho de bambu, roda de aro, ciranda de roda e batizado de boneca, entre outras, elas fazem parte do “itinerário da magia”, define a autora.
Telma Anita Piacentini nasceu em Nova Veneza, SC, em 1947. Possui doutorados em Educação (USP) e em Pesquisa na Universitá Degli Studi de Ferrara (Itália) e, no mesmo campo de pesquisa, foi uma das criadoras do Museu do Brinquedo da UFSC, onde é professora da Pós-Graduação em Educação (PPGE/ UFSC).

Agradeço à escritora pela dedicatória e cordialidade de presentear-me com esta importante obra, além de encaminhar meus livros para a biblioteca da Barca dos Livros, localizada nas margens e proximidades da Lagoa da Conceição.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Lista de livros

Lista dos Livros (alguns autografados) que trouxe de Florianópolis, no outro dia, após o lançamento do meu livro ... Uns na troca com os autores, outros recomendados pelo ótimo atendente da Livraria "Livros & Livros", Jonatan Lopes.
A maioria, dos bons autores catarinenses ...

A morte dos Olhos - Contador Borges.
Sentidos / Sinais - Alcides Buss
Elegias Urbanas - Marco Vasques
Extraviário - Dennis Radünz
Dois em Um - Alice Ruiz S
Ensaios ato n o 5 - Cristiano Nagel
Bricolagens para geladeira - Clotilde Zingali
Trêmulo - Ryana Gabech
Os sempre - C. Ronald
O natimorto - Lourenço Mutarelli
Cidades Marinhas - Dennis Radünz
Conversas, diferença n.1 - Julia Studart (org.)
Sadomasoquista - Antologia da Literatura Brasileira - Antonio Pietroforte, Glauco Mattoso.
Livro, Segredo e Infamia - Júlia Studart
15 Escritores - Organização Fábio Brüggemann
Um centro sem imagem - Francisco dos Santos
Jardim dos aromas - Semy Braga
As certezas e as palavras - Carlos Henrique Schroeder
Vazados & Molambos - Laura Erber
Exames de Rotina - Tarso de Melo
Logocausto - Leandro Sarmatz
Mas isso é, um Acontecimento - Demétrio Panarotto
Histórias de Homens casados - Birmajer Marcelo.
99 poemas - Joan Brossa (prefácio de Victor da Rosa)
Sobre a amizade e outros Diálogos - Borges e Osvaldo Ferrari (já tinha em Espanhol)
Sobre a filofofia e outros Diálogos - Borges e Osvaldo Ferrari (idem).
Envie meu dicionário - Cartas e alguma crítica - Paulo Leminski e Regis Bonvicino.

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