Quiroga enganou com a verdade ao vendedor quando disse que o veneno era para seu suicídio. Os dois riram. A barba ajudou. Não sabia que sua decisão era mais uma peça do recorrente, parte do seu antes e depois. Que obedeceu a um jogo indecifrável, da série de fatos que está envolvido o universo e seus vínculos circulares, em inúmeras séries e cifras igualmente incompreensíveis, repetitivas. Para isto seu pai teve que morrer com um tiro. Seu padrasto também. E que tentando explicar como seria o funcionamento da arma, matasse acidentalmente seu melhor amigo. Que sua primeira esposa se suicidasse, igual que seu protetor, como seus dois amigos escritores, Leopoldo Lugones e Alfonsina Storni. E que finalmente seus três filhos, Eglé, Dario e a "Pitoca" também procurassem o mesmo fim após a morte do pai.ESCRITOS DO GABRIEL
Meus textos, meus rascunhos com erros... )
"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."
Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
As mortes em Horacio Quiroga
Quiroga enganou com a verdade ao vendedor quando disse que o veneno era para seu suicídio. Os dois riram. A barba ajudou. Não sabia que sua decisão era mais uma peça do recorrente, parte do seu antes e depois. Que obedeceu a um jogo indecifrável, da série de fatos que está envolvido o universo e seus vínculos circulares, em inúmeras séries e cifras igualmente incompreensíveis, repetitivas. Para isto seu pai teve que morrer com um tiro. Seu padrasto também. E que tentando explicar como seria o funcionamento da arma, matasse acidentalmente seu melhor amigo. Que sua primeira esposa se suicidasse, igual que seu protetor, como seus dois amigos escritores, Leopoldo Lugones e Alfonsina Storni. E que finalmente seus três filhos, Eglé, Dario e a "Pitoca" também procurassem o mesmo fim após a morte do pai.quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Cansei
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Flores
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Daquilo que não sentimos quando rezamos
- As orações que aprendemos na infância, são impossíveis senti-las em outro idioma - justificou.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Rastros
Colocas a mobília onde olhas, espalhas gestos pelo chão, encolhes, andas imóvel pela casa, os cheiros tocam fogo na cara, se fundem, dissolvem a luz desta loucura, tentam olhar outra cor passageira que não habita, que não sabíamos antes (mas que é tua). A porta me vigia, não há atalhos. Nela não aparece tua ida, que ainda posso tocá-la com as mãos. Agora também andas pelo texto, cavando, e é provável que não escapes desta página, da parte de trás da letra, traço, fazendo parte de tudo o que cabe e está vazio. Mas cala. Agora que tudo é quase outra coisa onde nada havia. Não me engano se te escuto. Para os outros apenas minto quando digo: ela não mora mais aqui.sexta-feira, 11 de maio de 2012
Que nem eu
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
"Encerrem as palavras e selem o livro..."
“... Ajudei, maquinei o episódio, permiti que os códigos ocultos surgissem através da minha criação. E no entanto, me sobra agora a sentença de que fiz muito pouco, embora toda minha escrita decorreu de uma ilusão vasta. Deformei, ninguém não imagina o quanto, a minha literatura. Minhas intenções me enganaram. Fui também concebido. Vaidade, tudo vaidade... Se de alguma coisa pode valer o meu desgosto, espero servir de lição. Agora meu dever é a esperança. Que meu colaborador destrua ‘minha obra’ restante, a transforme em fogo, para que depois eu possa juntar as cinzas, e criar uma obra melhor do que a anterior - apenas para ser destruída novamente. ‘Encerrem as palavras e selem o livro’. Peço também a indulgência do esquecimento.”quarta-feira, 11 de maio de 2011
Daniel 12:4
"Finalmente os detratores de George de Burgos ficarão sossegados com seu desaparecimento. Tanto sua literatura como o seu original sistema matemático que determinava e gerava sua escrita foram alvos de ilimitados, contundentes e imerecidos ataques literários.Ninguém que reverenciou sua obra poderia esquecer as injustas e incisivas críticas publicadas por Harold Bloomer definindo sua produção de medíocre, “plagiador de Babel” e afirmando que não confiava em nada que poderia sair da sua “autoria”. Esta mesma escola do ressentimento criou pessoas que, em vez de apreciar sua grandeza artística, preferiram espezinhá-la. Evidentemente não se constrói uma revolução literária desprezando novas metodologias. Seus inúmeros leitores não estavam preocupados na inexistência de qualquer processo de inspiração, criação, concepção e até de que maneira conseguia chegar a sua maravilhosa literatura. Alguns juízos de valor foram primeiramente questionados, mas a paixão e reverência pela sua bibliografia e a de muitos autores que se serviram desta foi maior.
De que adiantaria saber que Shakespeare nunca escreveu uma línea? Que não teria figura nem disciplina suficientes para justificar seu gênio; que seu verdadeiro autor foi ou não o político e diplomata Henry Neville, que ocultou seu verdadeiro nome por não poder assumir determinadas posturas? Suas tragédias emocionariam menos? Sua perfeição cairia no abismo por supostamente ter um ghost writer? A existência de Shakespeare é objeto de disputa desde o século 19. Já se afirmou que Francis Bacon, Christopher Marlowe e até mesmo a rainha Elizabeth I seriam os reais autores de seus textos... O que não poderia então ser dito difamatoriamente contra George de Burgos? Que nunca existiu a genialidade de suas novelas, tragédias, contos, poemas e inúmeras obras primas da literatura universal? Se muitas vezes Burgos chegou a ser o próprio William Shakespeare! Sei que poderei exagerar na sua defesa, mas nunca assim procederia se não tivesse colaborado servilmente por tanto tempo, organizando seus papéis. Sei que seus propósitos foram nobres...
É difícil qualificar e até mesmo rejeitar sua descoberta literária. Nasce de um desejo de originalidade do seu mundo íntimo. Não me perguntem como conseguiu desvendar a fórmula do número que tenha ultrapassado o milhão na organização de apenas uma dúzia de páginas. Era incrível ver como milhões de folhas ocupavam apenas algumas. Sua filosofia não condiz com as implacáveis criticas que puniam seu processo dado como artificial e dissimulado, e que beirava a loucura. “Sou como a definição dos estóicos, onde a sabedoria consiste em ter a razão por guia; a loucura, pelo contrário, consiste em obedecer às paixões”, escreveu num dos seus contos memoráveis. E esse pensamento não esgota sua revelação. Sua irônica postura existencial foi justamente o motivo central da sua narrativa.
Tinha decifrado o código por meio de operações matemáticas que continham o resultado de todos os algarismos, de todas as letras e símbolos de todos os idiomas, transformando cada resultado num significado oculto do qual bastava escrever
aquilo que se queria, no estilo escolhido, e até no pretenso autor (existente ou não), para ter um resultado final extraordinário. Sua escrita randômica acumulava informações ocultas sob a forma de seqüências alfabéticas eqüidistantes.
Séries bidimensionais eram somadas a seqüências alfabéticas formando palavras com sentidos exatos. Outra com resultados múltiplos. O desenvolvimento destas ferramentas quantitativas para mensurar o fenômeno, sem dúvida gerou cânones literários inesquecíveis. A memória literária era total e abrangia o incondicional das possibilidades..."
Trecho do meu conto "Daniel 12:4", A culpa é do livro.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Lendo
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
O livro de Areia II
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Os cadáveres não se entregam...
Detalhe: o texto estava em espanhol... deixei propositadamente a palavra "grabada" (e não gravada) sem tampar, para perceber a tradução.
Leia AQUI o final do meu conto "desaparecido", do livro "Borges e outras ficções", inspirado em fatos reais tirado deste informe.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Borges e Neruda: Dois tigres
Para muitos, política é um mal absolutamente necessário. Literatura é um bem absolutamente imprescindível. O restante é intermediário. Nesse contexto, o escritor é alguém que dedica seu trabalho para descobrir quem habita no seu interior, traduzindo-o em palavras, que recriam outro mundo e outro novo ser nesse universo paralelo. A valiosa criação que, na tentativa da sua arte, aventura-se a entender a si mesma, consciente e inconsciente, contando suas dores e alegrias como se foram de outros, e as histórias alheias como suas.
Mas, utilizar a escrita para criticar e mudar a realidade, ou para construir sua fantasia?segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Se é bom ler, é ótimo ter lido

Tempo atrás comprei um livro pelo seu curioso e indiscreto questionamento na capa: "Como Falar dos Livros que Não Lemos?", do professor de literatura francês Pierre Bayard. Cada leitor, com certeza, teria sua própria técnica e artifício para esta resposta...
Mas, o que de fato quer dizer ler um livro? Lê-lo com real atenção da primeira a última palavra, sem pular trechos ou páginas? E mesmo assim, ao chegar ao final, será capaz seu leitor lembrar de tudo? E ainda, quem pode dizer que não conhece um livro como "Dom Quixote", mesmo nunca tendo aberto as páginas da obra de Cervantes? Quantos outros foram comprados (e esquecidos) motivados pelo nosso estado emocional daquela hora?
O autor determina algumas categorias para isto e sugere não separar os livros entre lidos e não lidos. Em lugar disso, os categoriza como livro folheado, livro de que ouvi falar, livro esquecido e livro desconhecido.
Parece impossível concretizar a "obrigação de ler tudo" para ser julgado digno de falar sobre livros. Sem querer entrar numa longa declaração de frustrações e adiamentos, quantas outras categorias poderiam existir a partir desta suposição? No capítulo inicial de "Se um Viajante Numa Noite de Inverno", o personagem-narrador de Italo Calvino entra em uma livraria e tergiversa a respeito desta lista... E vamos ser sinceros: Os livros que todos leram é praticamente como se você também os tivesse lido... Ou não? Parece existir um conhecimento coletivo, compartilhado para este tipo de “leitura” de boca em boca. Ainda temos a categoria daqueles que sempre fingimos ter lido e que já seria hora de decidir-se a lê-los realmente; aqueles outros demasiados caros que podem esperar alguma promoção; os livros que de repente inspiram uma curiosidade inexplicável e sem justificativa aparente; e finalmente aquela velha desculpa dos livros que, se você tivesse mais vidas para viver, certamente leria de boa vontade, mas infelizmente os dias que lhe restam para viver não são tantos assim... E aí já viu.
Livros, livros... Tantos que poderiam levar-nos à loucura de Dom Quixote, as fogueiras do Giordano Bruno, à revolução, à fé ou à estupidez de queimá-los em históricas fogueiras. Esta misteriosa relação de desejo que se estabelece entre leitor e livro parece íntima, física, corporal; onde vários sentidos participam: o tato (o folhear, o passar a mão sobre páginas e texturas), o olfato (sentir o cheiro do papel, da tinta e até do tempo...), a audição (ler em voz alta, escutar a musicalidade das palavras e rimas), o paladar (umedecer a ponta dos dedos com a língua, que tantos transtornos causou em “O nome da rosa”), e de forma absoluta, a visão.
Se leitura, antes de tudo, é prazer, como não lembrar daquela (e para alguns, traumatizante experiência) que já fizemos por obrigação na escola? Com títulos e estilos que pareciam à velha e conhecida colher cheia de comida da mãe: necessária, mas quase sempre a contra-gosto, sem fome daquilo.
Tantos livros, tantas vidas. Mas se falamos dos livros que não lemos, estamos sem participar da sua co-autoria, sem poder somar o que apenas cada um dos leitores consegue incorporar em cada uma das leituras... E como o escritor argentino Jorge Luís Borges definiu: “Um livro, quando está fechado, é uma coisa entre as coisas. Mas quando seu leitor o abre, então ocorre o fato estético, e esse fato estético pode não ser ou não deve ser exatamente o que o autor sentiu, mas algo novo, isto é, cada leitor é um criador – colaborador, em todo caso, do texto. E os textos são, sobretudo, diferentes, não pelo modo como estão escritos, mas pelo modo como são lidos.”
A leitura é a eterna busca por si mesmo, a passagem e travessia que o bom leitor faz para esta descoberta. A procura do livro ideal, da página essencial, da frase e palavra definitiva. Como então falar que decidimos não ter esta busca e descoberta, fingindo que preferimos o que nos contaram a ter uma experiência única e pessoal?
Parafraseando Drummond, se é bom ler, é ótimo ter lido.
Artigo da minha autoria publicado na revista Blush.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Retalhos, mistura de trechos...

Irreal
O rapaz soltou o corpo e se deixou deslizar suavemente no banco. - Nunca me aconteceu uma coisa assim – disse, como que falando a si mesmo. (1)
O medo seca a boca, molha as mãos e mutila. O medo de saber nos condena à ignorância; o medo de fazer nos reduz à impotência. (2)
Essas emoções repetidas e inesperadas, se tivessem que continuar, poderiam transformar uma perturbação mental passageira e momentânea numa doença crônica. (3)
- Devagar, devagar... Não fique preocupado. Você verá que não é nada. (4)
Era preciso reconhecer que seus olhos esbugalhados perfuravam a escuridão. (5)
- Não entre! Não entre! (6)
Trancou-se no banheiro e lavou varias vezes o rosto. Precisava refrescar-se, afogueado. Um frio fogo o queimava. (7) Mesmo não querendo, todo homem é feito de fugas, maiores ou menores, graves ou inconsequentes. O fugir é o pai da mentira. (8)
Do outro lado dos livros, transposta a superfície preta e branca das palavras impressas, do outro lado de um jardim e de uma grade de ferro, o mundo parece irreal, ou, melhor dizendo, o mundo é exatamente essa irrealidade. (9)
Esta página, por exemplo, não nasceu para ser lida. (10)
------------------------------------
1 – Julio Cortazar. Bestiário. 1986. Editora Nova Fronteira. Ônibus. Pág. 57.
2 – Eduardo Galeano. O livro dos Abraços. 1989. Coleção L&PM. 2007. A desmemória 2. Pág 110.
3 – Vincent Van Gogh. Cartas a Théo. L&PM editora. 2002. Carta de 22 de fevereiro de 1889. pág 341.
4 – Luigi Pirandello. Male di Luna. Os melhores contos de loucura – Flávio Moreira da Costa, organização. 2007. Ediouro. Pág. 104.
5 – César Aira, A luz Argentina, 1983, Uma Buenos Aires de Novela, Editorial Sudamericana, pág 338.
6 – Horacio Quiroga. A galinha Degolada. Os melhores contos de loucura – Flávio Moreira da Costa, organização. 2007. Ediouro, pág 89.
7 – Otto Lara Resende. O Elo Perdido. Para gostar de ler. Editora Ática. 1992. Pág 66.
8 - Rubens da Cunha. Aço e nada. 2007. Design Editora. A fuga de todos nós. Pág 130.
9 - Ricardo Piglia. O último leitor. 2006. Companhia das Letras. Pág 29.
10 – Paulo Leminski. Distraídos venceremos. 1987. Editora brasiliense. Pág. 15.
sábado, 22 de maio de 2010
O último outro lado
quinta-feira, 25 de março de 2010
Cartas...

- Eu também não... Lembro sim a última vez que rasguei cartas... Parece haver um dia especial para rasgar certos papeis. Fazer a limpa, faxina geral de sentimentos na gaveta... A gente se sente um pouco mais leve... É como tirar algum peso de cima, esvaziar um pouco nossa bagagem de coisas que, às vezes sem saber, já não usaremos mais... E que faz mal acumular.
- Tem razão... Uma vez rasguei uma carta de amor de um fora que levei, e aconteceu um fato curioso... Depois de rasgada, alguns pedaços pareceram formar outra carta na mesa... Com palavras e frases que eu gostaria de ter lido dela. Apenas palavras boas. As piores, aquelas que falavam de ir embora, de dor, que já não queria mais nada, pareceram ficar de fora... No chão. Gostaria de ter lido aquela carta rasgada, que se formou de forma casual, e que ela nunca escreveu...
segunda-feira, 1 de março de 2010
Pequeno diálogo inexistente

Escrevo, já que não podes ler-me. Que outra sorte me resta com escritores que continuam invadindo-me e justificando? (“Andávamos sem procurar-nos, mas sabendo que andávamos para encontrar-nos”).
Assim como no teu livro “O jogo da amarelinha” poderia pular, sem qualquer ordem, de página em página, de palavra em palavra, procurando a frase exata e encaixá-la. E a história seria outra, sendo a mesma... Buscando a licença no meu diminuto caos literário. E esperar o silêncio, aquele que habita, sabendo que me revelaria.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Diário

- Nunca soube que você levasse um diário. Alias, sempre pensei que colecionasse cadernos escritos em branco. Embora tenha lido e gostado de algumas páginas e reprovado outras, não concordaria em conhecer suas intimidades, já que as tenho lido e não gostei.
- É verdade. Nunca escrevi um diário e nunca o faria, por isso gostaria de poder lê-lo. Quer ouvir?
- Sim, mas com a condição que leia só as páginas em branco.
- Está pedindo-me o impossível. Justamente essas são as mais íntimas, daí o motivo de ter apenas páginas sem nenhuma palavra.
- [...]
- [...]
- [...]
- [...]
- Realmente são bastante reservadas e pelo trecho que acabou de não ler, indiscretas.
- É, por isso nunca as escrevi.
- Concordo. Mesmo assim deveria queimar todas pelas dúvidas de alguém tentar fazê-lo.
- Já o fiz.
- Mas se acabou de não lê-las!
- Não o tinha feito enquanto o fazia.
- Fez bem então. É por isso que não gosto de diários e nunca escreveria um.
- Eu também não.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Desaparecidos!

Embora não sendo eterna, a dor parece interminável, suicida. O passado para muitos ainda não fala por si mesmo. Jurei tentar esquecer, mas não esqueço.
Monto meu quebra-cabeças com partes de mim, perdidas, feito de restos que não encaixam em nada. Agora qualquer mostra de afeto me deixa transparente, puro, cheio de felicidade... Mas sem saber, sem querer ou parar para entender, me pego também fugindo de alguma coisa, qualquer coisa, e corro do jeito que ainda consigo, até meu fôlego esgotar, até meu coração lento acelerar...
Algumas vezes não é nada mesmo. Tomo meus remédios, falo mal, xingo muito, grito além da minha garganta, como se continuasse a sentir tudo de novo e volto a me prometer parar com isso. Em outras, ainda choro; poucas vezes mesmo... Uma ou duas, no máximo, por dia. E rapidamente me escondo no banheiro e enxugo as lágrimas, acesas pelas tantas mortes que morri e que vi morrer.
Como se mede o ódio? Ele me inunda e bebe o resto.
Nunca mais também vi minha filha, ou melhor, vejo-a sempre... Quando “desapareceu”, jurei revirar o céu e a terra para encontrá-la. Mas parecia não estar nem em um, nem no outro... Possivelmente, esteja no mar... Agora está em todas as partes; aonde vou, vai junto, sempre. Terão vencido se não conseguisse vê-la mais... E é olhando para o céu que a vejo melhor.
Ainda luto por justiça, persigo alguns fantasmas que andam por mim e pela rua e gosto de me sentir livre. Toda vez que lembro, cuspo de nojo e revolta. Passo meu dia cuspindo.
Tudo isso, suportado por alguém contra quem ninguém formulou qualquer acusação, num tempo que é melhor lembrar esquecendo.
Guardo um velho revólver para o caso de ainda voltarem. Ou talvez sirva para mim, para eu finalmente descansar deles. Quem aparecer primeiro, leva.
E a memória não me deixa nem um minuto em paz... "
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
A poesia é traduzível?
Muitos dos acessos a este Blog vêm de paises de língua hispânica. Seus visitantes reclamam que não entendem ou entendem muito pouco... Eu já pensei por diversas vezes tentar traduzir alguns dos meus escritos ao espanhol, mas um texto do Blog Digestivo Cultural “A poesia é traduzível?”, fez que este projeto, por enquanto, seja adiado.O referido texto, de autoria de Ivan Junqueira, questiona no seu começo:“Gostaria de iniciar esta conferência com duas perguntas que me parecem cruciais: 1) em que consiste, exatamente, a arte de traduzir?; e 2) seria a poesia traduzível? Antes de respondê-las, porém, conviria tecer aqui umas tantas considerações que, de certa forma, já envolvem uma espécie de resposta. Os vocábulos "traduzir", "tradutor" e "tradução" têm sua origem no latim traducere ou transducere, ou traductio e traductor, que possuíam sentido diverso, mas continham a ideia fundamental de "fazer passar, pôr em outro lugar".”
Leia o texto na integra AQUI.





