ESCRITOS DO GABRIEL

(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )



"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

Mostrando postagens com marcador Meus textos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Meus textos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

As mortes em Horacio Quiroga


Quiroga enganou com a verdade ao vendedor quando disse que o veneno era para seu suicídio. Os dois riram. A barba ajudou. Não sabia que sua decisão era mais uma peça do recorrente, parte do seu antes e depois. Que obedeceu a um jogo indecifrável, da série de fatos que está envolvido o universo e seus vínculos circulares, em inúmeras séries e cifras igualmente incompreensíveis, repetitivas. Para isto seu pai teve que morrer com um tiro. Seu padrasto também. E que tentando explicar como seria o funcionamento da arma, matasse acidentalmente seu melhor amigo. Que sua primeira esposa se suicidasse, igual que seu protetor, como seus dois amigos escritores, Leopoldo Lugones e Alfonsina Storni. E que finalmente seus três filhos, Eglé, Dario e a "Pitoca" também procurassem o mesmo fim após a morte do pai.
Assim como no Jardim de veredas que se bifurcam, o tempo se bifurca perpetuamente em inumeráveis futuros de frágeis fios. Em um deles, no caminho mais longo, todos esperam pacientemente até o final.

(Vínculos circulares - do livro "Suicidas, os modos de falar à parede", Gabriel Gómez) 


E quiçá ele poderia ter contado sua propria morte, tal como escreveu Eduardo Galeano, no seu recente livro "Os filhos dos dias":

Hoje, morri.
No ano de 1937, fiquei sabendo que tinha um câncer incurável.
E soube que a morte, que me perseguia desde sempre, havia me encontrado.
Eu enfrentei a morte, cara a cara, e disse a ela:
- Acabou esta guerra.
E disse a ela:
- A vitória é sua.
E disse a ela:
- Mas o quando é meu.
E antes que a morte me matasse, eu me matei.

(Pode ser que Horacio Quiroga Tivesse contado assim sua própria morte - "Os filhos dos dias", Eduardo Galeano)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Cansei

Cuando aprendí braille para leer tus cicatrices…
Raquel Bullón Acebes


Deixa. Cansei. Deixa assim. De alguma forma deixa disso. Volta, cansei, volta só hoje, à noite, açoite. Cansei. Estou faminto agora e não quero discutir. É difícil julgar apenas pela casca antiga. A lâmina já não corta e seu cheiro não sai dos meus dedos. De fato, cansei. Nossa vida não era isso. Ouça. Quando ficou assim? Deixa, coloca os pratos e comamos em paz, sem falar, sem olhar, sem dar-nos autênticos motivos, ou sim. Sem sermos você e eu. Eu sei, está fria, a comida, nossa vida, seca de nós, e não volta aonde ia quando íamos juntos. Lembra? Troca. Cansei. Pela última vez, sejamos rápidos de passos, de saídas, de encontrar algum novo canto abandonado, até para lamentar no escuro. Depois correr ou chorar. De leve. Deixa pular primeiro desta corda. Tempo de menos repartido em dois, ou em três, diga. Não sei. Chegamos até aqui, veja, separados o bastante, pela proximidade. Nada. Ninharia, migalha. Droga de vida. É quase isso. Deixa por tanto. Cansei.

Do meu livro: "Suicidas - Os modos de falar à parede"

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Flores

P:
R: Vendo flores na rua, de porta em porta, de carro em carro, no pequeno posto onde trabalho e me entrincheiro.
P:
R: Não, seria como penitência. A intempérie me protege e agasalha. A rua ensolarada substitui a anestesia.
P:
R: Acho que sim. Apenas diria que aqui tudo se vê, que é mais uma forma de sustento. Minto como todo mundo. Não penso no fim do mês, tenho poucas certezas que o desamor me impôs.
P:
R: Não moço, mas se há que ler, eu leio.
P:
R: É que muitos não sabem, mas de cada uma, ajeito as folhas, rego-as com cuidado, coloco um papel platinado como arranjo...
P:
R: Já fiz muito, agora não, aliás, o mínimo necessário. Não temos nada em comum, não me deixaram nada além de alguns beijos esquecidos e fracassos por toda a minha cara. Voltando: quando posso, falo com elas, baixinho. Renovo-as com carícias. No jardim cresce meu pão.
P:
R: Não, já apanhei muito também. Não vai funcionar comigo. Antes chorava por isso, agora apenas grito: Flores! Flores! Perfeitamente ensaiado. De algum modo, sou cada uma delas com o cheiro dos espinhos, quando a gente se cheira.
P:
R: Sim, mas algumas acabam murchando, perdendo seus verdes e vermelhos, caindo suas pétalas com o mesmo silêncio dos doentes. E vão como se vão as flores.
P:
R: Por isso dá pena jogá-las fora, então peço licença e as levo para casa quando meus braços estão vazios. Acomodo todas em vários copos com água morna, onde os ramos parecem sangrar em silêncio no meio da noite, que é quando bebo, e combina com meu aspecto de muitos metros enroscado nas cobertas, com o resto triste e barato do abandono, a mínima luz, as plantas da varanda, olhos de pedra, e eu atrás, encolhida, paredes cegas e o cheiro de funeral das coisas caladas onde parece não haver paisagem, onde restam poucas claridades, além de um sorriso claro. De manhã, pássaros pousam sobre minhas feridas. Eles acreditam que não os vejo antes de dormir. Divertem-se me cercando. Mas, que importam seus murmúrios, enquanto morro? E se Deus fosse uma decepção total? Às vezes penso que a intuição é seu alfabeto. Só não me peçam saber qual é o sentido de tudo isto. Eu deveria ler a Bíblia. Não sei descrever um quarto escuro onde não cabe o céu na janela.
P:
R: Qualquer coisa. Qualquer. Falo de esperança em gavetas separadas.
P:
Em algumas situações gostaria fazer isso, sim. Passar a borracha, apagar algumas partes e redesenhar a vida de uma forma diferente. Por momentos somos apagados pelo que já não conseguimos dizer. Encobertos pelo extraviado. E é com tanta intensidade que não estamos, que nem palavras nos encontram, que do nó da garganta brota sempre a fome ou apenas flores que morrem e que prontamente usarão para decorar nosso silêncio. Não sabemos que fazer do olhar. O que se vê, é o que falta, o que não fala, o que não volta. Não estamos nem detrás da procissão da ausência; e as suas pernas que se arrastam. Nós, que já não estamos: os invisíveis, os esquecidos, os ignorados e errantes... Os que falam com línguas sem céu. Cada dia desaparecemos um pouco, até completar-nos.
P:
R: Pois é... Tento fazer o mesmo com minha vida. Nem sempre consigo. Vez que outra me alcança um desespero. Abro esta porta, mas o inverno nas flores chega por acumulação. Amor e vento (e eu morrendo). Quando acordo todo dia e vejo que sou a mesma de ontem, penso que não é o bastante. Já não sei aonde ir, mas volto a trabalhar cedo para que nada disto se note.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Daquilo que não sentimos quando rezamos

                         
Veio de criança para o país. Ninguém mais conseguia distinguir algum sotaque. Muitos nem sabiam que era estrangeiro, por isso ficaram surpresos quando, no dia que faltou sua companheira, pediu para rezar naquela língua desconhecida por todos.

- As orações que aprendemos na infância, são impossíveis senti-las em outro idioma - justificou.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Rastros



Colocas a mobília onde olhas, espalhas gestos pelo chão, encolhes, andas imóvel pela casa, os cheiros tocam fogo na cara, se fundem, dissolvem a luz desta loucura, tentam olhar outra cor passageira que não habita, que não sabíamos antes (mas que é tua). A porta me vigia, não há atalhos. Nela não aparece tua ida, que ainda posso tocá-la com as mãos.  Agora também andas pelo texto, cavando, e é provável que não escapes desta página, da parte de trás da letra, traço, fazendo parte de tudo o que cabe e está vazio. Mas cala. Agora que tudo é quase outra coisa onde nada havia. Não me engano se te escuto. Para os outros apenas minto quando digo: ela não mora mais aqui.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Que nem eu


Um dia você abrirá os olhos, que nem eu. Acordará em qualquer lugar, suponhamos que aqui, neste triste espaço íntimo, parte do seu todo, objeto de repouso invisível, que nem eu. Por esta vez dirá, terei que esperar, e sentada, esperará. Então você pensará em contar, um, dois, três, até quanto acreditar que possa demorar. Mas não contará. E você pensará, não tenho paciência em contar, mas já que estou sentada, vou esperar sem calcular o tempo. Mas você não terá calma nem tempo para regular. Estará impaciente, calculando inconsciente toda espera, e tentará não pensar nisso, e possivelmente dirá, não sei há quanto estou aqui, mas vou ficar imóvel, talvez em transe a fila ande, e aí tudo aconteça sem perceber, e assim você fica. E quando se mexer, novamente, um pouco antes do então, num gesto singular, não haverá mais animação nem pausas para simular o alimento no deserto. Nem tempo para esperar. Estará excessivamente sozinha, e então você será como eu, depois nunca mais.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

"Encerrem as palavras e selem o livro..."

“... Ajudei, maquinei o episódio, permiti que os códigos ocultos surgissem através da minha criação. E no entanto, me sobra agora a sentença de que fiz muito pouco, embora toda minha escrita decorreu de uma ilusão vasta. Deformei, ninguém não imagina o quanto, a minha literatura. Minhas intenções me enganaram. Fui também concebido. Vaidade, tudo vaidade... Se de alguma coisa pode valer o meu desgosto, espero servir de lição. Agora meu dever é a esperança. Que meu colaborador destrua ‘minha obra’ restante, a transforme em fogo, para que depois eu possa juntar as cinzas, e criar uma obra melhor do que a anterior - apenas para ser destruída novamente. ‘Encerrem as palavras e selem o livro’. Peço também a indulgência do esquecimento.”

Explícito pedido no trecho final do testamento do escritor George de Burgos, personagem do meu conto "Daniel 12.4", no livro "A culpa é do Livro".

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Daniel 12:4

"Finalmente os detratores de George de Burgos ficarão sossegados com seu desaparecimento. Tanto sua literatura como o seu original sistema matemático que determinava e gerava sua escrita foram alvos de ilimitados, contundentes e imerecidos ataques literários.
Ninguém que reverenciou sua obra poderia esquecer as injustas e incisivas críticas publicadas por Harold Bloomer definindo sua produção de medíocre, “plagiador de Babel” e afirmando que não confiava em nada que poderia sair da sua “autoria”. Esta mesma escola do ressentimento criou pessoas que, em vez de apreciar sua grandeza artística, preferiram espezinhá-la. Evidentemente não se constrói uma revolução literária desprezando novas metodologias. Seus inúmeros leitores não estavam preocupados na inexistência de qualquer processo de inspiração, criação, concepção e até de que maneira conseguia chegar a sua maravilhosa literatura. Alguns juízos de valor foram primeiramente questionados, mas a paixão e reverência pela sua bibliografia e a de muitos autores que se serviram desta foi maior.
De que adiantaria saber que Shakespeare nunca escreveu uma línea? Que não teria figura nem disciplina suficientes para justificar seu gênio; que seu verdadeiro autor foi ou não o político e diplomata Henry Neville, que ocultou seu verdadeiro nome por não poder assumir determinadas posturas? Suas tragédias emocionariam menos? Sua perfeição cairia no abismo por supostamente ter um ghost writer? A existência de Shakespeare é objeto de disputa desde o século 19. Já se afirmou que Francis Bacon, Christopher Marlowe e até mesmo a rainha Elizabeth I seriam os reais autores de seus textos... O que não poderia então ser dito difamatoriamente contra George de Burgos? Que nunca existiu a genialidade de suas novelas, tragédias, contos, poemas e inúmeras obras primas da literatura universal? Se muitas vezes Burgos chegou a ser o próprio William Shakespeare! Sei que poderei exagerar na sua defesa, mas nunca assim procederia se não tivesse colaborado servilmente por tanto tempo, organizando seus papéis. Sei que seus propósitos foram nobres...
É difícil qualificar e até mesmo rejeitar sua descoberta literária. Nasce de um desejo de originalidade do seu mundo íntimo. Não me perguntem como conseguiu desvendar a fórmula do número que tenha ultrapassado o milhão na organização de apenas uma dúzia de páginas. Era incrível ver como milhões de folhas ocupavam apenas algumas. Sua filosofia não condiz com as implacáveis criticas que puniam seu processo dado como artificial e dissimulado, e que beirava a loucura. “Sou como a definição dos estóicos, onde a sabedoria consiste em ter a razão por guia; a loucura, pelo contrário, consiste em obedecer às paixões”, escreveu num dos seus contos memoráveis. E esse pensamento não esgota sua revelação. Sua irônica postura existencial foi justamente o motivo central da sua narrativa.
Tinha decifrado o código por meio de operações matemáticas que continham o resultado de todos os algarismos, de todas as letras e símbolos de todos os idiomas, transformando cada resultado num significado oculto do qual bastava escrever
aquilo que se queria, no estilo escolhido, e até no pretenso autor (existente ou não), para ter um resultado final extraordinário. Sua escrita randômica acumulava informações ocultas sob a forma de seqüências alfabéticas eqüidistantes.
Séries bidimensionais eram somadas a seqüências alfabéticas formando palavras com sentidos exatos. Outra com resultados múltiplos. O desenvolvimento destas ferramentas quantitativas para mensurar o fenômeno, sem dúvida gerou cânones literários inesquecíveis. A memória literária era total e abrangia o incondicional das possibilidades..."

Trecho do meu conto "Daniel 12:4", A culpa é do livro.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Lendo

Gosta de estar sozinho. Lendo. Lento, muito lentamente. Passa de pagina fechando o livro todo. Passa o tempo. Uma e outra vez, a página. A casa está quase vazia. Na sala, sozinhos, ele e eu. Ele, com sua leitura. Cigarro esquecido, pouca luz, o livro cobre seu rosto. Tanto faz eu estar aqui. Minha presença não lhe importa tanto. Lê apenas. Levanto-me. Não me percebe. Chego quase a seu lado, quase a ler junto. Agora parece ler em voz alta. Respira forte. Não, fala sozinho. Mente que ninguém ouve. Ouço-o sem entender, sem querer. Minto que o entendo. Abro a porta, estou indo. Não sabe, continua lendo. Lê, fala sozinho como se estivesse acompanhado. Não está. Passa de página, o tempo lento; fechou o livro, todo. Apenas uma vez. Para sempre cobre seu rosto. A casa está sozinha, sem antes nem depois. A seguirão sonhando dois homens. 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O livro de Areia II

Uma possível continuação do conto O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges.


I
No conto “O Livro de Areia”, do escritor argentino Jorge Luis Borges, publicado em 1975, existe talvez uma premonição literária. Nele, uma pessoa entra no apartamento de um colecionador e oferece um livro com características especiais:

 “– Não vendo apenas bíblias. Posso mostrar-lhe um livro sagrado que talvez lhe interesse.”
(...) Abriu a valise e o deixou sobre a mesa. Era um volume em oitavo, encadernado em tecido. Sem dúvida, havia passado por muitas mãos. Examinei-o; seu peso inusitado me surpreendeu.
(...) Abri-o ao acaso. Os caracteres me eram estranhos.
(...) Trazia uma pequena ilustração... Foi então que o desconhecido disse:
“Olhe-a bem. Já não a verá nunca mais.”
(...) Pediu-me que procurasse a primeira folha. Apoiei a mão esquerda sobre a portada e abri com o dedo polegar quase pegado ao indicador.
Tudo foi inútil: sempre se interpunham várias folhas entre a portada e a mão. Era como se brotassem do livro.
“ – Agora procure o final”.
Também fracassei; apenas consegui balbuciar com uma voz que não era minha: “ – Isto não pode ser.” Sempre em voz baixa o vendedor de bíblias me disse: “– Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a última. Não sei por que estão numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número.”
“Comprovei que as pequenas ilustrações distavam duas mil páginas uma da outra. Fui anotando-as em uma caderneta alfabética, que não demorei a encher. Nunca se repetiram.”

Pois bem, na verdade nunca vendi bíblias. Inventei a desculpa para desfazer-me do exemplar. Mas fracassei. Ainda que talvez contenha a chave ou súmula do universo, não suportou seu interminável número de páginas.
Considerou-o um pesadelo monstruoso que corrompia a realidade e o deixou propositalmente perdido numa das prateleiras da Biblioteca da Rua México.
O livro encontra-se novamente comigo. Além de infinito é onipresente. Está em cada ponto do universo ilimitando suas páginas. Não suporta a rejeição e se materializa multiplicando-se. Seu número é igual ao número de pecados dos quais nos desfazemos, dos anos de vida que requeremos. Sua maldição me persegue e desde então vivo recluso, tentando livrar-me da revelação, da presença. O conceito do infinito não tinha por base nenhuma experiência sensível até conhecer O Livro de Areia. E no fim da ficção, começa a substituir o mundo real.
Hoje decidi voltar a Buenos Aires, ao apartamento da Rua Belgrano e falar novamente com o comprador.

II
Golpeei a mesma porta e, embora tivesse passado tanto tempo, reconheci sua figura. Pareceu outra vez receber-me resignado. Apontou a velha cadeira e entrei com renovada melancolia. Um velho tango insinuava seu lamento.
– Venho lhe devolver sua Bíblia inglesa em letras góticas, a de John Wiclif, que serviu como moeda para nossa troca... O Livro de Areia está novamente comigo e não seria justo ficar com ela.
– Quando o deixei naquela biblioteca, supus que não voltaria a ver nem ao livro nem ao senhor...
– Eu também pensei o mesmo – respondi.
– Só espero que não o tenha trazido novamente. – replicou angustiado.
Entendi que estávamos unidos pelo desespero. Que nossas digitais estariam multiplicadas no interminável das páginas, e isso, de alguma maneira, nos tornava cúmplices e solidários.
– Não trouxe o livro porque nunca saiu daqui!... Custei a falar: – Está naquela prateleira no sótão da biblioteca, com os periódicos e os mapas, onde sutilmente o abandonou. Mas também na minha prateleira e repetidamente na sua. Logo se espalhará na maioria dos lugares e todos pensarão possuir o conhecimento infinito.
Visivelmente alterado, procurou atrás de uns volumes desemparelhados de As mil e uma Noites. E com resignada surpresa viu que estava aí. Tomou o exemplar e se deixou cair na poltrona. Suspirou profundamente, encostou a cabeça para trás e soube que nunca tinha deixado sua biblioteca. Presente, impossível, interminável.
Nossa transação tinha envolvido aquela Bíblia e o dinheiro da aposentadoria. Quando o adquiri nos confins de Bikanir, em troca de algumas rúpias e da Bíblia, desconhecia todas suas qualidades e azares. Seu antigo proprietário não sabia ler e suspeito que nunca soube o que tinha em mãos. Após a venda, voltou à minha biblioteca (ou nunca saiu de lá), e desde então me persegue reproduzindo páginas de forma estática na prateleira.
Ainda em silêncio, posso ouvir que aumentam e acumulam intermináveis caracteres celebrando a união do temporal e o espacial. Sua presença é assustadora.
– Em todos estes anos suspeitei que também estivesse aqui. – confessei – E em quanto mais lugares for abandonado, mais se reproduzirá. Abraça as formas, multiplica-se e a elas se molda. Incontável e sem limite. Seu conteúdo é inesgotável. Se retirarmos um componente, restará exatamente o mesmo número de elementos (e o processo poderá ser repetido com qualquer número, infinitas vezes).
– E então? – questionou – Continuaremos sendo figuras efêmeras? A fábula que aspira a que o livro infinito não corrompa a realidade e se incremente a ela, oferecendo novos atalhos, portas e saídas imprevistas? Não respondi. Não era meu propósito convencê-lo e sim tentar entender junto este singular universo. Mesmo sabendo que a literatura é o último intento de reconstruir um mundo absoluto e irrestrito.
Só não concordei quando comparou as folhas da árvore da vida aos caracteres, representando a totalidade dos seres, das páginas e dos decretos divinos. Se ele for o livro da revelação, não passa então de especificações, traduções de linguagem inteligível. Lembrei o que o velho mestre disse: “Cada vez que repetimos um verso de Dante ou Shakespeare, somos de algum modo aquele instante em que Dante ou Shakespeare criaram esses versos. Enfim, a imortalidade está na memória dos outros e na obra que deixamos”. Possivelmente apenas sejamos um instante reiterado, eternamente, pelo livro e seu criador... Como se desfazer completamente da sua presença?
Descartamos novamente a opção de queimá-lo. A combustão de um livro infinito pode ser igualmente infinita, como determinou Borges em 1975. Ainda que agora tenhamos voltado a encontrar-nos sem seu consentimento (gostaria de escrever como George, mas ele já fez isso...).
Possivelmente, nosso castigo seja também por isso...
Na primeira chance, a vertigem que lhe provocou o fez abandoná-lo na estante de uma biblioteca; afinal, não haveria melhor lugar para se perder um livro. Agora, estamos juntos e temos outra oportunidade. A premonição literária foi nosso único pensamento. Foi a primeira analogia do que seria a literatura labiríntica diante do espanto do leitor. Ler e sangrar infinitamente. Ler, cujo preceito primeiro é reler, não é possível num livro que nunca repete suas páginas. Este parece ser o castigo imposto da sua eternidade. Ler com reler.

III
Combinamos em nos encontrar posteriormente e cada um levar seu Livro de Areia. E assim foi. O diálogo foi interrompido por uma nova transformação. Quando os colocamos despretensiosamente um em cima do outro, eles se fundiram. Literalmente derreteram e formaram um só. Assim como novas páginas brotavam do volume, soubemos que também poderiam diminuir, já que o infinito admite qualquer número. O desdobramento e fusão igualmente fatal da literatura, quando o ler, escreve-o. A biblioteca fantástica, catalogada, porém inominável. Acaso existe nome que contenha por completo aquilo que é nomeado?

Sugeri procurar novamente aquele mesmo Aleph encontrado por Borges na década de 20. Um dos pontos do espaço que contém todos os pontos. Talvez conseguíssemos diluir um livro com a memória do infinito, num lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares, vistos de todos os ângulos. O inconcebível universo. Uma literatura que é o mundo, assim como o mapa dos cartógrafos daquele império (borgeano) era tão perfeito que cobria todo o império. Mas lembrei que a casa da Rua Garay, onde o Aleph se encontrava, foi demolida em 1942. Vê-lo e tentar esquecer sua visão, era a recomendação.
Sem ter alcançado fundir dois infinitos, decidimos resignadamente fazer o mesmo com o Livro de Areia. Esquecê-lo antes que sejamos devorados.
Diante dele qualquer pessoa seria tomada pela angústia. A compilação do saber, de todos os conhecimentos em todas as áreas, obtidos em todas as épocas, em todos os lugares, é desesperante. Mas uma biblioteca que só entesoura exemplares preciosos seria um museu de livros e não uma biblioteca. A literatura é um movimento de fratura.
Sei que naquela época escandalizei o infinito com a premonição, mas hoje a Internet é a nova fronteira sem contorno. Acaso não representa um único livro que contém todos os outros? Não guarda todos os volumes de todos que já foram escritos, que serão escritos, e inclusive, os que nunca serão? Textos que se reproduzem, que se recriam, que nada criam e se perdem. A história nunca contada e a última. O que hoje está disponível pode não estar amanhã. Um espaço caótico com o qual poderia afirmar que não significa que “tudo” esteja enfim acessível, mas sim definitivamente fora de alcance.
Acredito que o Mundo Virtual procura adulterar todos os livros existentes, modificando autorias e conteúdos. Sabemos que o processo já começou... Afinal, que importa o nome do autor, passados três mil anos? Restarão obras célebres de autores anônimos ou autores notáveis dos quais não se conhecerá nenhuma obra. E possivelmente alguém atribuirá este crédito ao espírito que, em definitivo, é o verdadeiro autor de qualquer livro que mereça ser lido. Ou a este grande livro que é o mundo, cujos autores somos todos nós.

IV
Continuo recluso esperando uma nova revelação. E acredito que ele permaneça ainda afundado na poltrona aguardando um sinal. Talvez a última expressão da vida. Interrogando as palavras que nos interrogam. Nossa agonia também é infinita... Juramos guardar silêncio sobre o que aqui se passou. Ele hoje é oração.
Não sei mais se sou o comprador ou o vendedor. Continuo, repetidamente, indagando: se me dizes que não sabes, te ensinarei até que saibas; se disseres que sabes, perguntarei até que não saibas... E com a voz que também não será minha, direi: que outra sorte me resta, se não abrir o livro e escolher qualquer página aleatoriamente? Ou ela me escolherá. Estou preparado para me desvanecer, já que se nenhuma página pode ser vista duas vezes, eu também, reciprocamente, para cada uma delas desapareço para sempre...
O sol só consegue iluminar metade desta folha. É tão difícil achar um oponente desinteressado!
O Livro de Areia, secretamente, continuará se multiplicando como uma metáfora sem fim. A leitura permanecerá como uma forma de angústia e felicidade.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Os cadáveres não se entregam...

Apaguei e destaquei frases eventuais, tentando reconstruir a historia de uma das páginas do livro “Nunca Mais” (página 241), coordenado pelo escritor Ernesto Sábato, informe da comissão nacional sobre a desaparição de pessoas no regime militar argentino. E assim como esclarece sua introdução: “As Forças Armadas responderam com um terrorismo infinitamente pior que o combatido, porque desde o 24 de março de 1976 contaram com o poderio e a impunidade do Estado absoluto, sequestrando, torturando e assassinando miles de seres humanos...

Detalhe: o texto estava em espanhol... deixei propositadamente a palavra "grabada" (e não gravada) sem tampar, para perceber a tradução.

Leia AQUI o final do meu conto "desaparecido", do livro "Borges e outras ficções", inspirado em fatos reais tirado deste informe.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Borges e Neruda: Dois tigres

Para muitos, política é um mal absolutamente necessário. Literatura é um bem absolutamente imprescindível. O restante é intermediário. Nesse contexto, o escritor é alguém que dedica seu trabalho para descobrir quem habita no seu interior, traduzindo-o em palavras, que recriam outro mundo e outro novo ser nesse universo paralelo. A valiosa criação que, na tentativa da sua arte, aventura-se a entender a si mesma, consciente e inconsciente, contando suas dores e alegrias como se foram de outros, e as histórias alheias como suas.
Mas, utilizar a escrita para criticar e mudar a realidade, ou para construir sua fantasia?
Em “Neruda por Skármeta”, o escritor chileno Antonio Skármeta (O carteiro e o poeta), cita o poema de Pablo Neruda, “O Tigre”, e propõe uma leitura comparativa com outro clássico tigre literário (e tema constante da sua escrita), o de Borges: “Para ver em seus micromundos como são diferentes esses dois tigres”.
Dois tigres diferenciados por estilo, métrica, realidade, diferenças literárias e políticas que acabaram afastando dois grandes escritores latino-americanos.
Conheceram-se quando jovens e como conta o próprio livro: “... com toda a cortesia fizeram o impossível para não se toparem de novo.”. Trocaram alguma correspondência cordial na primeira época e coincidiam que as opiniões políticas sejam possivelmente o menos importante em um autor. "Creio que as opiniões de um escritor não devem interferir em sua obra. O processo poético é misterioso; temos que deixá-lo por sua própria conta", definia Borges.
Mas a teoria não conseguiu conciliar a prática e,segundo Neruda, a relação não funcionou por Borges ser um anarquista de direita e ele de esquerda. Os dois foram poetas, mas Borges se tornou o grande divisor de águas pelos seus contos e prosas de ficção. Neruda acabou recebendo o prêmio Nobel em outubro de 1971. Borges foi sempre seu eterno candidato.
A ingênua posição política de apoio ao ditador Pinochet, que aproveitou sua ida ao país em 1976, para receber o Doutorado Honoris Causa da Universidade de Chile, e o condecorou com a Ordem ao Mérito Bernardo O’Higgins, possivelmente seja um dos motivos para nunca tê-lo conquistado.
Em outubro de 1979, data da anunciação do Nobel a que ele concorria, e fora outorgado a um desconhecido escritor grego "Odysseus Elytis", Borges respondeu a Sandra Pien, que foi entrevistá-lo: "Não se preocupe, trata-se de uma situação que antes de machucar me diverte. Tenho pena sim dos argentinos, que sentem como se fora a perda de um campeonato de futebol."
E o Nobel ficou sem Borges, como muitos ainda tentam justificar, desculpando a falta deste reconhecimento.
As inclinações políticas do escritor argentino, seus claros-escuros, também foram questionadas por outro grande da literatura latino-americana, o peruano Mario Vargas Llosa: “A tomada de distância com a ditadura militar foi tardia, e não diáfana o bastante para apagar o infortúnio tremendo que causaram, não só em seus inimigos, como também em seus mais entusiastas admiradores (como o que isso escreve), seus longos anos de adesão pública a regimes autoritários e manchados de sangue. Como se explica esta cegueira política e ética em quem, a respeito do peronismo, do nazismo, do marxismo, do nacionalismo, se tinha mostrado tão sensato?”
Conservador confesso, Borges recebeu constantes e pesadas críticas da esquerda por não utilizar seu reconhecimento e prestigio literário mundial, diante dos crimes cometidos pelos governos militares. Sem uma dura posição contrária nem contestadora, parecia, dessa maneira, saudar o fim do tão odiado regime peronista."... um grande número de argentinos está se tornando nazista sem sequer se dar conta", apontou num jornal de Montevidéu. O escritor considerava Perón um protagonista do cruel fascismo latino-americano, manipulador e autoritário.
A importância da obra de Borges é reconhecida na cuidadosa lista de 26 autores que marcaram a literatura mundial de Harold Bloom – "O Cânone Ocidental". O crítico coloca Borges e Neruda entre os fundadores da literatura hispano-americana do século 20.
Vejamos então cada um dos poemas que levam coincidentemente o mesmo título: “O Tigre”.

Primeiro o de Neruda, no livro “Os versos do capitão”:

Sou o tigre.
Te espreito entre as folhas,
vastas como lingotes
de mineral molhado.
O branco rio cresce
na neblina. Chegas.
Desnuda te submerges.
Espero.
De repente num salto
de fogo, sangue, dentes,
num bote exato derrubo
teu peito, teus quadris.
Bebo teu sangue, quebro
teus membros um por um.
E fico então velando
durante anos na selva
teus ossos, tua cinza,
imóvel, longe
do ódio e da cólera,
desarmado em tua morte,
envolto em cipós,
imóvel na chuva,
sentinela implacável
do meu amor assassino.

O Tigre”, de Borges, no livro História da noite:

Ia e vinha, delicado e fatal, repleto de infinita energia, do outro lado das firmes barras e todos nós o olhávamos. Era o tigre dessa manhã, em Palermo, e o tigre do Oriente e o tigre de Blacke e de Hugo e de Shere Khan, e os tigres que foram e que serão e também o tigre arquetípico, já que o indivíduo, em seu caso, é toda a espécie. Pensamos que era sanguinário e belo. Norah, uma menina, disse: “Está feito para o amor”.

O tigre de Neruda faz amor, assassina e bebe sangue. O de Borges é um animal enjaulado, comparado aos de tantos outros escritores. Delicado e fatal, que representa toda a espécie e feito para o amor.
Dois tigres díspares. E se as diferenças já aparecem nos estilos, nos comentários que um fez do outro, são evidentes.
Segundo a revista mexicana Nexos, Neruda escreveu a um amigo o seguinte comentário: “Borges me parece excessivamente preocupado com os problemas da cultura que não me atraem em absoluto, que não são humanos... Ao meu redor sempre vejo menos idéias, sempre mais corpos, luz do sol e suor.” Ou numa outra entrevista no México, em 1974: “Não posso dizer que foi o maior, e tomara que seja cem vezes superado por outros, mas de qualquer maneira ele abriu a brecha, a atenção, a curiosidade intelectual da Europa para nossos países. Isso é tudo que posso dizer. Mas eu brigar com Borges, porque todo o mundo quer me fazer brigar com Borges, não o farei nunca. Ele não entende nada do que se passa no mundo contemporâneo e pensa que eu tampouco entenda. Então, estamos de acordo”.
Já o escritor argentino alfinetava, sobre Neruda: “Ás vezes, foi um excelente poeta, também”. E numa palestra transcrita no jornal “La Opinión” de 1976, Borges definia: “Quando era um poeta sentimental, era muito fraco, quando escreveu Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, era inconsistente. Mas quando se deixou arrastar pelo comunismo, escreveu esplêndidos poemas. Assim, significa que precisava do comunismo como estímulo; não o que eu, leitor, preciso como estímulo.”
E como a disputa fez escola, ainda existem borgeanos e nerudistas e, por conseguinte, um a favor e contra o outro. Separando opiniões, estilos e até a própria literatura. Deixando que as idéias políticas (partidárias) afastem e divida quem faz da arte seu pão. E acabo concordando com a justificativa do escritor argentino Ernesto Sábato: “O romance deve mostrar uma realidade ao leitor, não uma realidade qualquer, mas uma escolhida e estilizada pelo artista, e escolhida e estilizada conforme sua visão de mundo, de modo que sua obra é, de alguma maneira, uma mensagem, significa algo, é uma forma que o artista tem de nos comunicar uma verdade sobre o céu e o inferno, a verdade que percebe e sofre.
Já não se trata de Argentina ou Chile, nem do poema de um ou do outro. O mundo literário, a sensibilidade criativa, não reconhece este minúsculo perímetro.
A busca da identidade sul-americana que une uma literatura insolente, ousada, ávida por ultrapassar sua fronteira, continua fortalecendo-se desde os diferentes pontos do continente. Dois poetas, dois caminhos, a mesma arte. Cada um do seu jeito, num distanciamento que não é crucial, e que ambiciona se recriar constantemente.
Existem inúmeros textos a respeito. Descrevendo exemplos, citando fatos e argumentos. Outros desmentindo e apaziguando o suposto conflito. Aquilo que continua sendo intermediário.Independente dessa pendência, que atravessa épocas e limites literários, extrapolando ideologias e atitudes, pode-se afirmar que dois tigres cumpriram sua transcendente missão:

Um ser Borges; o outro, Neruda.

(do meu livro "Borges e outras ficções")

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Se é bom ler, é ótimo ter lido


Tempo atrás comprei um livro pelo seu curioso e indiscreto questionamento na capa: "Como Falar dos Livros que Não Lemos?", do professor de literatura francês Pierre Bayard. Cada leitor, com certeza, teria sua própria técnica e artifício para esta resposta...
Mas, o que de fato quer dizer ler um livro? Lê-lo com real atenção da primeira a última palavra, sem pular trechos ou páginas? E mesmo assim, ao chegar ao final, será capaz seu leitor lembrar de tudo? E ainda, quem pode dizer que não conhece um livro como "Dom Quixote", mesmo nunca tendo aberto as páginas da obra de Cervantes? Quantos outros foram comprados (e esquecidos) motivados pelo nosso estado emocional daquela hora?
O autor determina algumas categorias para isto e sugere não separar os livros entre lidos e não lidos. Em lugar disso, os categoriza como livro folheado, livro de que ouvi falar, livro esquecido e livro desconhecido.
Parece impossível concretizar a "obrigação de ler tudo" para ser julgado digno de falar sobre livros. Sem querer entrar numa longa declaração de frustrações e adiamentos, quantas outras categorias poderiam existir a partir desta suposição? No capítulo inicial de "Se um Viajante Numa Noite de Inverno", o personagem-narrador de Italo Calvino entra em uma livraria e tergiversa a respeito desta lista... E vamos ser sinceros: Os livros que todos leram é praticamente como se você também os tivesse lido... Ou não? Parece existir um conhecimento coletivo, compartilhado para este tipo de “leitura” de boca em boca. Ainda temos a categoria daqueles que sempre fingimos ter lido e que já seria hora de decidir-se a lê-los realmente; aqueles outros demasiados caros que podem esperar alguma promoção; os livros que de repente inspiram uma curiosidade inexplicável e sem justificativa aparente; e finalmente aquela velha desculpa dos livros que, se você tivesse mais vidas para viver, certamente leria de boa vontade, mas infelizmente os dias que lhe restam para viver não são tantos assim... E aí já viu.
Livros, livros... Tantos que poderiam levar-nos à loucura de Dom Quixote, as fogueiras do Giordano Bruno, à revolução, à fé ou à estupidez de queimá-los em históricas fogueiras. Esta misteriosa relação de desejo que se estabelece entre leitor e livro parece íntima, física, corporal; onde vários sentidos participam: o tato (o folhear, o passar a mão sobre páginas e texturas), o olfato (sentir o cheiro do papel, da tinta e até do tempo...), a audição (ler em voz alta, escutar a musicalidade das palavras e rimas), o paladar (umedecer a ponta dos dedos com a língua, que tantos transtornos causou em “O nome da rosa”), e de forma absoluta, a visão.
Se leitura, antes de tudo, é prazer, como não lembrar daquela (e para alguns, traumatizante experiência) que já fizemos por obrigação na escola? Com títulos e estilos que pareciam à velha e conhecida colher cheia de comida da mãe: necessária, mas quase sempre a contra-gosto, sem fome daquilo.
Tantos livros, tantas vidas. Mas se falamos dos livros que não lemos, estamos sem participar da sua co-autoria, sem poder somar o que apenas cada um dos leitores consegue incorporar em cada uma das leituras... E como o escritor argentino Jorge Luís Borges definiu: “Um livro, quando está fechado, é uma coisa entre as coisas. Mas quando seu leitor o abre, então ocorre o fato estético, e esse fato estético pode não ser ou não deve ser exatamente o que o autor sentiu, mas algo novo, isto é, cada leitor é um criador – colaborador, em todo caso, do texto. E os textos são, sobretudo, diferentes, não pelo modo como estão escritos, mas pelo modo como são lidos.”
A leitura é a eterna busca por si mesmo, a passagem e travessia que o bom leitor faz para esta descoberta. A procura do livro ideal, da página essencial, da frase e palavra definitiva. Como então falar que decidimos não ter esta busca e descoberta, fingindo que preferimos o que nos contaram a ter uma experiência única e pessoal?
Parafraseando Drummond, se é bom ler, é ótimo ter lido.

Artigo da minha autoria publicado na revista Blush.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Retalhos, mistura de trechos...


Assim como alguns velhos e novos retalhos emendados fazem uma nova peça de cores e texturas; assim como Dj´s adicionam e misturam músicas, ritmos e fazem recriações da sobreposição... Ou antigos alquimistas e suas fórmulas... Assim pequenos trechos de diferentes autores e estilos da literatura dão vida a outros textos...

Irreal

O rapaz soltou o corpo e se deixou deslizar suavemente no banco. - Nunca me aconteceu uma coisa assim – disse, como que falando a si mesmo. (1)

O medo seca a boca, molha as mãos e mutila. O medo de saber nos condena à ignorância; o medo de fazer nos reduz à impotência. (2)

Essas emoções repetidas e inesperadas, se tivessem que continuar, poderiam transformar uma perturbação mental passageira e momentânea numa doença crônica. (3)

- Devagar, devagar... Não fique preocupado. Você verá que não é nada. (4)

Era preciso reconhecer que seus olhos esbugalhados perfuravam a escuridão. (5)

- Não entre! Não entre! (6)

Trancou-se no banheiro e lavou varias vezes o rosto. Precisava refrescar-se, afogueado. Um frio fogo o queimava. (7) Mesmo não querendo, todo homem é feito de fugas, maiores ou menores, graves ou inconsequentes. O fugir é o pai da mentira. (8)

Do outro lado dos livros, transposta a superfície preta e branca das palavras impressas, do outro lado de um jardim e de uma grade de ferro, o mundo parece irreal, ou, melhor dizendo, o mundo é exatamente essa irrealidade. (9)

Esta página, por exemplo, não nasceu para ser lida. (10)


------------------------------------

1 – Julio Cortazar. Bestiário. 1986. Editora Nova Fronteira. Ônibus. Pág. 57.
2 – Eduardo Galeano. O livro dos Abraços. 1989. Coleção L&PM. 2007. A desmemória 2. Pág 110.
3 – Vincent Van Gogh. Cartas a Théo. L&PM editora. 2002. Carta de 22 de fevereiro de 1889. pág 341.
4 – Luigi Pirandello. Male di Luna. Os melhores contos de loucura – Flávio Moreira da Costa, organização. 2007. Ediouro. Pág. 104.
5 – César Aira, A luz Argentina, 1983, Uma Buenos Aires de Novela, Editorial Sudamericana, pág 338.
6 – Horacio Quiroga. A galinha Degolada. Os melhores contos de loucura – Flávio Moreira da Costa, organização. 2007. Ediouro, pág 89.
7 – Otto Lara Resende. O Elo Perdido. Para gostar de ler. Editora Ática. 1992. Pág 66.
8 - Rubens da Cunha. Aço e nada. 2007. Design Editora. A fuga de todos nós. Pág 130.
9 - Ricardo Piglia. O último leitor. 2006. Companhia das Letras. Pág 29.
10 – Paulo Leminski. Distraídos venceremos. 1987. Editora brasiliense. Pág. 15.

sábado, 22 de maio de 2010

O último outro lado


O cachorro que desceu tentou dizer-me algo dos moradores do teto.
Não entendi. Tentei, mas não consigo decifrar nem o próprio grito abafado que escuto cada vez que faço silêncio.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Cartas...


- Cartas... Cartas... Quase nem lembro qual foi a última que escrevi... Muito menos para quem... Viu que quase mais ninguém escreve cartas? Agora é mensagem no celular, no e-mail e nada de cartas... Não existe mais o antigo cheiro do perfume borrifado na folha, a letra borrada pela tinta ou aquela triste marca de lágrima caída sobre o papel. Você nem sabe que tipo de letra alguém possa ter... A essência da carta clássica morreu. Não lembro nem mesmo qual foi a última que recebi...
- Eu também não... Lembro sim a última vez que rasguei cartas... Parece haver um dia especial para rasgar certos papeis. Fazer a limpa, faxina geral de sentimentos na gaveta... A gente se sente um pouco mais leve... É como tirar algum peso de cima, esvaziar um pouco nossa bagagem de coisas que, às vezes sem saber, já não usaremos mais... E que faz mal acumular.
- Tem razão... Uma vez rasguei uma carta de amor de um fora que levei, e aconteceu um fato curioso... Depois de rasgada, alguns pedaços pareceram formar outra carta na mesa... Com palavras e frases que eu gostaria de ter lido dela. Apenas palavras boas. As piores, aquelas que falavam de ir embora, de dor, que já não queria mais nada, pareceram ficar de fora... No chão. Gostaria de ter lido aquela carta rasgada, que se formou de forma casual, e que ela nunca escreveu...
- Sei... Quando eu quero rir, leio minhas cartas de amor. Quando quero chorar, leio minhas cartas de amor... Não foi o poeta que disse que todas as cartas de amor são ridículas? Pois vivo escrevendo cartas que nunca mando...


Trecho do diálogo dos personagens da peça "Errante", uma homenagem ao livro, no retrato da solidão das pessoas... (deste servidor...)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Pequeno diálogo inexistente


Julio, posso te confessar algo?


Escrevo, já que não podes ler-me. Que outra sorte me resta com escritores que continuam invadindo-me e justificando? (“Andávamos sem procurar-nos, mas sabendo que andávamos para encontrar-nos”).
Assim como no teu livro “O jogo da amarelinha” poderia pular, sem qualquer ordem, de página em página, de palavra em palavra, procurando a frase exata e encaixá-la. E a história seria outra, sendo a mesma... Buscando a licença no meu diminuto caos literário. E esperar o silêncio, aquele que habita, sabendo que me revelaria.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Diário


- Gostaria de poder ler um trecho daquilo que escrevi no meu diário – disse
- Nunca soube que você levasse um diário. Alias, sempre pensei que colecionasse cadernos escritos em branco. Embora tenha lido e gostado de algumas páginas e reprovado outras, não concordaria em conhecer suas intimidades, já que as tenho lido e não gostei.
- É verdade. Nunca escrevi um diário e nunca o faria, por isso gostaria de poder lê-lo. Quer ouvir?
- Sim, mas com a condição que leia só as páginas em branco.
- Está pedindo-me o impossível. Justamente essas são as mais íntimas, daí o motivo de ter apenas páginas sem nenhuma palavra.
- [...]
- [...]
- [...]
- [...]
- Realmente são bastante reservadas e pelo trecho que acabou de não ler, indiscretas.
- É, por isso nunca as escrevi.
- Concordo. Mesmo assim deveria queimar todas pelas dúvidas de alguém tentar fazê-lo.
- Já o fiz.
- Mas se acabou de não lê-las!
- Não o tinha feito enquanto o fazia.
- Fez bem então. É por isso que não gosto de diários e nunca escreveria um.
- Eu também não.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Desaparecidos!



"... Reconheço, tive mais sorte do que muitos que jamais foram encontrados. Mesmo sabendo que choveu sangue e aparentemente cessou, ainda continua pingando embaixo das árvores onde eu me refugio. Mesmo que possa estar perdido, morto por dentro e tenha feridas não cicatrizadas que continuam se multiplicando. Elas, diferentes nos inúmeros raptados, não desaparecem. Continuam mutilando-me. Combater a suposta minoria terrorista se converteu em genocídio. Nada mais terrível e sublime que contar a própria verdade, a poesia do desespero, que ainda procura na mesma praça com brancos lenços amarrados na cabeça, a outra metade da história.
Embora não sendo eterna, a dor parece interminável, suicida. O passado para muitos ainda não fala por si mesmo. Jurei tentar esquecer, mas não esqueço.
Monto meu quebra-cabeças com partes de mim, perdidas, feito de restos que não encaixam em nada. Agora qualquer mostra de afeto me deixa transparente, puro, cheio de felicidade... Mas sem saber, sem querer ou parar para entender, me pego também fugindo de alguma coisa, qualquer coisa, e corro do jeito que ainda consigo, até meu fôlego esgotar, até meu coração lento acelerar...
Algumas vezes não é nada mesmo. Tomo meus remédios, falo mal, xingo muito, grito além da minha garganta, como se continuasse a sentir tudo de novo e volto a me prometer parar com isso. Em outras, ainda choro; poucas vezes mesmo... Uma ou duas, no máximo, por dia. E rapidamente me escondo no banheiro e enxugo as lágrimas, acesas pelas tantas mortes que morri e que vi morrer.
Como se mede o ódio? Ele me inunda e bebe o resto.
Nunca mais também vi minha filha, ou melhor, vejo-a sempre... Quando “desapareceu”, jurei revirar o céu e a terra para encontrá-la. Mas parecia não estar nem em um, nem no outro... Possivelmente, esteja no mar... Agora está em todas as partes; aonde vou, vai junto, sempre. Terão vencido se não conseguisse vê-la mais... E é olhando para o céu que a vejo melhor.
Ainda luto por justiça, persigo alguns fantasmas que andam por mim e pela rua e gosto de me sentir livre. Toda vez que lembro, cuspo de nojo e revolta. Passo meu dia cuspindo.
Tudo isso, suportado por alguém contra quem ninguém formulou qualquer acusação, num tempo que é melhor lembrar esquecendo.
Guardo um velho revólver para o caso de ainda voltarem. Ou talvez sirva para mim, para eu finalmente descansar deles. Quem aparecer primeiro, leva.
E a memória não me deixa nem um minuto em paz... "



Trecho do meu conto "Desaparecido" (Borges e outras ficções), sobre as vítimas das muitas ditaduras que passamos e seus desaparecidos políticos... Lamentavelmente, baseado em fatos reais...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A poesia é traduzível?

Muitos dos acessos a este Blog vêm de paises de língua hispânica. Seus visitantes reclamam que não entendem ou entendem muito pouco... Eu já pensei por diversas vezes tentar traduzir alguns dos meus escritos ao espanhol, mas um texto do Blog Digestivo Cultural “A poesia é traduzível?”, fez que este projeto, por enquanto, seja adiado.
O referido texto, de autoria de Ivan Junqueira, questiona no seu começo:“Gostaria de iniciar esta conferência com duas perguntas que me parecem cruciais: 1) em que consiste, exatamente, a arte de traduzir?; e 2) seria a poesia traduzível? Antes de respondê-las, porém, conviria tecer aqui umas tantas considerações que, de certa forma, já envolvem uma espécie de resposta. Os vocábulos "traduzir", "tradutor" e "tradução" têm sua origem no latim traducere ou transducere, ou traductio e traductor, que possuíam sentido diverso, mas continham a ideia fundamental de "fazer passar, pôr em outro lugar".”

Leia o texto na integra AQUI.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails