ESCRITOS DO GABRIEL

(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )



"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Não era eu



Sonhei que éramos outros. 
Nossos nomes diferentes, 
noutro lugar qualquer. 
Os sonhos não dão satisfação. 
Admitamos (não queria): 
estamos ainda dormindo. 
É assim, já sei, 
de noite voltamos a rir 
como num filme de lentíssimas (con)sequências. 
Mas agora acordei com os gritos. 
Descobri meus braços estendidos
na tua direção.
O quarto vazio, 
o colchão úmido que apaga 
e afunda tua marca, 
e teus olhos vidrados, 
mordidos em mim. 
Juro, não era eu. 
Sonhei que era o outro, 
o próximo. 
Aquele que sussurra abecedários 
em teus sonhos e te desvela;
e tem o nome cochichado
na ponta
da tua língua dormida.
Esse que faz
a vida possível de lágrimas engolidas, 
as sombras repartidas 
que nos seguem uma e outra vez 
onde deveríamos estar e nunca estamos. 
Pois é, 
acordei. 
Parecíamos vivos e mascados,
um tango mal dançado,
onde não há letra sem traição. 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Perdidos

Onde você está agora?
Estou aqui, bem aqui! Calma, não tenho certeza, mas acho que estou perto. Você parece um pintor seguindo meu relevo de memória. Já te vi, fica onde você está que estou chegando. Eu sei que não são horas... É, também pensei. Pensou o quê? Que não são horas, ora. Mas tenha paciência, já estou perto. Tenho. Isto não é a saída? Não sei, fica aí, por favor! Fico. O quê? Como é possível me ver e não ser visto? Estou aqui. Finalmente! Nem de perto te enxergo direito. Nem eu. Eu sei. Dei voltas e voltas. Eu fiquei parada. Ainda bem. Não era feito à medida? Não, nada é a medida. As coisas não mudam juntas. A vista agora melhora o espaço. Sim, o olho parece se acostumar. Cheguei, podes me ver? Ainda não. E sentir? Estou aqui. Sim, agora sim. Eu também. Me dá a mão, segura. Seguro. Vou pular. Pulei, demorei? Demorou, sim. Parece estar com frio. Estou. Está tudo bem? Acho que sim. Fica. Então tá, fico, mas deixa agora me virar. Já? Sim. Já vamos dormir? Sim, é tarde. Sei, mas... Cansei para chegar, até amanhã. Cuida, não se perca... Cuido, sim, pode deixar. Coloca melhor o lenço, te cobre mais. Estou coberta, mesmo sem saber o que estou deixando entrar, o que estou deixando fora. O quê? Nada, deixa. Beijo então. (Estranhamente próximos e sozinhos, pensou, mas falou um vai à merda bem baixinho e depois dormiu).

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Geografia da alma

Para esta voz que me resta
Para o galho que me segura
Para esta fé que vacila
Para a palavra a prova de balas
Para a bala de cada dia
Para esta nudez dos outros
Para esta boca apenas tua
(excessivamente minha)
Para os três tigres que a travam
Para a mágica que escondo
(a pomba apertada no peito
que já está morta na manga)
Para o que joguei fora engolindo
Para o sopro que me anima
Para o que já foi e ainda pulsa
Para o que intercepta tuas cartas
E os braços
nos abraços dos pássaros
E o preço do apreço
E o que não vale nunca
E que eu ainda pago
E o peso do que levo
E o que se desfaz nas mãos
Neste frio de fome
Nesta fome de corpo
Onde os dedos não voltam
E as águas não lavam
E esperam
E a fotografia de costas
Sorrindo timidamente
E teu nome
Descalço
Que nestas horas
Reabre o fechado e
corrige tudo.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Vou dormir

"O suicídio não é querer morrer,
é querer desaparecer."
Georges Perros


Que amarga queixa o mar ouviu?
Que confissão?
Lágrimas e mar, sal no sal,
na chaga que não cala.
Seu sonho tropeçou, submerso.
Dorme agora,
abraça o abismo claro que também abraça.
Onde guardou sua cicatriz?
Ouvem uma voz vinda das águas?
É naufrágio ou travessia?
Tudo vibra.
Ele vai chamar? Não importa mais.
Deita que a ressaca devolve o poema,
para sempre,
entre duas vidas,
quando não se quer a vida
e abre espaço no mar.
Ainda cheiro essa mesma espuma.
Os pássaros migram, partem,
mas não esquecem Alfonsina,
se entreolham tristes e também veem,
outro sal no mar.

------

Na madrugada do dia 25 de outubro de 1938, uma mulher não aguenta mais as dores causadas pelo câncer. A morfina não faz mais efeito e sua depressão lhe ajuda para tomar a decisão: sai da sua pensão em Mar del Plata e se joga desde um espigão para o remédio dos sais marinhos. Alguns afirmam que foi adentrando lentamente, que o alívio veio com as ondas. De manhã, alguns trabalhadores veem surgir um corpo boiando. Ao levá-lo ao hospital, a reconhecem como Alfonsina Storni. Tinha 46 anos.
Naquele lugar, seu corpo, agora talhado na pedra, olha para sempre a maré e pressente as flores que sempre deixam em seus pés.
Alguns dias antes, Alfonsina tinha encaminhado por carta seu poema "Vou dormir", ao jornal "La Nación", que chegou postumamente, como último pedido num bilhete suicida:

Dentes de flores, touca de sereno,
Mãos de ervas, tu, ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.
Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada à cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho
Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos…
Embala-te um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos
Para que esqueças… obrigado. Ah, um
encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que saí…*


Apenas como curiosidade: tenho o livro
"El dulce daño", 1918, autografado por ela.
Primeira edição. Muito raro.

* O poeta Felix Luna escreveu a letra da música "Alfonsina e o mar", cantada pela primeira vez por Mercedes Sosa em 1969, utilizando parte do poema original de Alfonsina:

Pela branda areia/ Que lambe o mar/ Sua pequena pegada/ Não volta mais/ Um caminho só/ De pena e silêncio chegou/ Até a água profunda/ Um caminho só/ De penas mudas chegou/ Até a espuma. / / Sabe Deus que angústia/ Te acompanhou/ Que dores velhas/ Calaram tua voz/ Para deitar-te/ Sussurrada no canto/ Das conchas marinhas/ A canção que canta/ No fundo escuro do mar/ A concha. // Te vais Alfonsina/ Com tua solidão/ Que poemas novos/ Foste a buscar?/ Uma voz antiga/ De vento e de sal/ Te requebra a alma/ E a está levando/ E te vais até lá/ Dormida, Alfonsina/ Vestida de mar// Cinco sereinhas / Te levarão/ Por caminhos de algas/ E de coral/ E fosforescentes/ Cavalos marinhos farão/ Uma ronda ao teu lado/ E os habitantes/ Da água vão a brincar/ Prontamente a teu lado. // Baixa-me a lâmpada/ Um pouco mais/ Deixa-me que durma/ Ama-de-leite, em paz/ E se ele chama/ Não lhe digas que estou/ Diz-lhe que Alfonsina não volta/ E se ele chama/ Não lhe digas nunca que estou/ Diz que me fui.


(Do meu livro "Suicidas - os modos de falar à parede)


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Cansei

Cuando aprendí braille para leer tus cicatrices…
Raquel Bullón Acebes


Deixa. Cansei. Deixa assim. De alguma forma deixa disso. Volta, cansei, volta só hoje, à noite, açoite. Cansei. Estou faminto agora e não quero discutir. É difícil julgar apenas pela casca antiga. A lâmina já não corta e seu cheiro não sai dos meus dedos. De fato, cansei. Nossa vida não era isso. Ouça. Quando ficou assim? Deixa, coloca os pratos e comamos em paz, sem falar, sem olhar, sem dar-nos autênticos motivos, ou sim. Sem sermos você e eu. Eu sei, está fria, a comida, nossa vida, seca de nós, e não volta aonde ia quando íamos juntos. Lembra? Troca. Cansei. Pela última vez, sejamos rápidos de passos, de saídas, de encontrar algum novo canto abandonado, até para lamentar no escuro. Depois correr ou chorar. De leve. Deixa pular primeiro desta corda. Tempo de menos repartido em dois, ou em três, diga. Não sei. Chegamos até aqui, veja, separados o bastante, pela proximidade. Nada. Ninharia, migalha. Droga de vida. É quase isso. Deixa por tanto. Cansei.

Do meu livro: "Suicidas - Os modos de falar à parede"

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Pela metade

Tenho uma palavra pela metade
que não posso escrevê-la,
já que não está completa.

Não aparece nem a ponta
daquilo que representa.

Mas ela está aí,
esperando para concluir,
querendo de mim
o que quer que seja:
um dizer, sua interpretação,
o corpo e sua cabeça.

Mas eu não sei,
nada sei sobre ela.

Apenas que está pela metade
e justo aquilo que falta,
é o que eu tenho dela.


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Cartas


As cartas não contam nada
como alguns acreditam.

As cartas, como Rubem Alves disse,
são para que mãos separadas se toquem
na mesma folha.

Que separam?
Não sei.

Mas transbordam palavras,
perseguem histórias
e apenas sossegam
quando reveladas.

Que revelam?
Não sei.

Algumas, só lidas pelo fogo,
não chegam a outras mãos
e ardem mudas,
consumidas.

Que calam?
Não sei.

E voltam a guardar segredos
E se anunciam
com outros nomes,
outras tintas
e a mesma morte.

Assim como o silêncio?
Talvez.
(Não convém lembrá-los.)





terça-feira, 5 de junho de 2012

Animais que domesticamos


Vamos desabitando paredes artificiais,
refúgios contra ataques, privacidades.
Vamos despovoando tipologias,
limitações, espaços íntimos, reservados.
Vamos movimentando vidraças, muros,
cortinas que afastam, mobiliários.
Vamos inabilitando quartos, terraços,
varandas, jardins ocultos, ocupados.
Vamos desertando territórios, paisagens,
cenários sólidos, lugares.
Vamos arrancando disfarces, anonimatos,
identidades.
Vamos abrindo chaves de portas,
cadeados, algemas das mãos.
Vamos soltando maçanetas, amarras,
cadarços de sapatos.

Vamos mudando para partir.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Que nem eu


Um dia você abrirá os olhos, que nem eu. Acordará em qualquer lugar, suponhamos que aqui, neste triste espaço íntimo, parte do seu todo, objeto de repouso invisível, que nem eu. Por esta vez dirá, terei que esperar, e sentada, esperará. Então você pensará em contar, um, dois, três, até quanto acreditar que possa demorar. Mas não contará. E você pensará, não tenho paciência em contar, mas já que estou sentada, vou esperar sem calcular o tempo. Mas você não terá calma nem tempo para regular. Estará impaciente, calculando inconsciente toda espera, e tentará não pensar nisso, e possivelmente dirá, não sei há quanto estou aqui, mas vou ficar imóvel, talvez em transe a fila ande, e aí tudo aconteça sem perceber, e assim você fica. E quando se mexer, novamente, um pouco antes do então, num gesto singular, não haverá mais animação nem pausas para simular o alimento no deserto. Nem tempo para esperar. Estará excessivamente sozinha, e então você será como eu, depois nunca mais.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Salto duplo (2)

Não se arriscava a pular
sem a rede de segurança.

Era um jeito de aparentar
o perigo que corria.

Embora a verdadeira façanha,
foi ocultar habilmente
as asas,
nas precárias roupas de trapezista.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Salto duplo

Figuras, movimentos, apoios e saídas.
Giros, balanços, travas
sem contato do chão.
Não sei quantas voltas já dei,
mas justamente falhei
no salto duplo sem rede.

Fui um acrobata que no final
não encontrou mais tua mão
no pulo que inaugura esta morte.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Da crônica da vida real


O investigador em inteligência artificial
desenvolveu um robô mensageiro
que transmite beijos a longa distância.
O dispositivo tem o formato de uma pequena bola
com lábios artificiais sensíveis ao tato.
A propaganda adverte que para que tudo funcione,
como no telefone,
se necessitam pelo menos dois.
Quando alguém quer beijar quem está longe,
segura o robô com paixão e beija seus lábios de silicone.
A outra parte faz o mesmo enquanto a pequena
maquina transmite o movimento de seus lábios
para quem está do outro lado.
Parece um beijo real, mas seu único defeito
é o barulho (assemelha-se a um porco),
o qual abaixa intensamente
o grau erótico da experiência.

Alguém poderia dizer-nos (ou perguntar ao inventor),
se é a solidão que faz
à maquina beijar
ou aproveitam a boca aberta
do mesmo bocejo?


(Extraído de uma notícia real)

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Bordel

Flores plásticas num canto do quarto,
carne a mostra, cheiros, restos de algo,
algo seco, um outro de álcool,
com sede afunda o que já foi barco.

Sempre outra pele, nada e quase então,
como animais que pulam das sombras
para outras sombras traduzir a luz.
Dor por quase tudo, tatuado,

naufragam águas e desertos nus,
sem ordem, baralhados
corpos apressados para armar
o amor e depois
ir
quando já foram.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Soy yo

Soy yo.
No hay personajes ajenos.
No busquen, no salven
ni torturen otro.
Soy quien escribe y se esconde.
Quien a si mismo plagia.
El verdugo, la victima y actor.
El mismo que siempre vuelve
y no termina nunca por llegar.
Quien describe su propio dolor
mirando los rostros de los otros.
Quien tira la palabra y
ofrece la cara.
Aquel fingidor, desamparado,
sucio de angustia, desnudo.
Alterador de sentidos.
El ultimo y el primer gesto,
limite del verbo,
voz ausente de las cosas.
Sujeto, predicado
y versos húmedos, obscuros,
que ya no interesan.
No me amen.
Mentiras no me salvan.
Compré el arma
de Hemingway.   

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Vozes quebradas

A gravidade,
que tudo deixa cair,
distrai e esconde
o que não escolhe calar,
o que não sabe pousar
e não suporta mais seu peso.
Então se desprende
e desaba.
Daí o ruído de quebradas vozes.
Ignoro as coisas quando dizem
que não falam,
o que emudece porque não cai,
por esquecido horror mudo,
de invisível trancado,
continuo, empoeirado,
que ficam sempre
em pé, detidas, onde esteve a vida,
em previsíveis lugares comuns.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Dois poemas em espanhol

Origami

Toma el papel y
deshace este origami
donde la figura era otra.
Alisa,
intenta ablandar los recuerdos
de los pliegues, de sus arrugas
en su piel fruncida.
¿Era para volar o simple forma decorativa?
No importa. Aplana bien su contorno,
abre y cura las heridas,
píntale algunos colores,
dibuja con nueva tinta,
agárralo en tus manos
y borra esta casi nada
como si no fuera nada
este papel.


(Aqui para ler Origami em português)

---------------------

Su presencia
firma con sobrenombres,
con diferentes formas ajenas.

El frío ultrapasa disuelto en la cortina.

Es ella.



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