ESCRITOS DO GABRIEL

(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )



"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Autografados e abandonados (Desculpa Bioy...)


“Ocasionalmente as obsessões permitem
a grande obra. Quem sabe de que livro
estamos lendo agora os rascunhos.”
Adolfo Bioy Casares


Borges e seu amigo Bioy Casares


Entre os diversos livros da biblioteca, guardo um lugar especial para aqueles autografados. Levam a marca e respiram o ar do tempo em que foram datados. Sinto-me transportado àquela hora. Outros, incompreensivelmente, mesmo com assinatura e dedicatória para seus leitores, foram esquecidos e deixados de lado em algum sebo.

Que destino ou castigo imposto levou alguém a abandoná-los? Tomavam muito espaço ou a nova cor amarela das páginas não sustentou sua nova leitura? Prometeram uma literatura que não foi cumprida? Qual foi a falha? Onde foram vencidos seus acertos? Que caminhos percorreram até perder-se da estima? Talvez até contem uma história mais curiosa e triste que a do próprio livro. Sinto-me na obrigação de resgatá-los, como se estivesse devolvendo ao autor, e a suas páginas, o carinho e respeito que tiveram na hora da sua assinatura.

Antigos e contemporâneos convivem em harmonia com assinados rejeitados comprados de terceiros. Assim como o filho perdido que volta pra casa. Mesmo adotados, são próximos e amados por igual. Em muitos outros, que guardo com mais zelo ainda, aparece meu nome. Sempre exerceram grande fascínio e foram utilizados com diversos propósitos, assim como suas dedicatórias. Mas quero enfatizar uma. Ela sempre chamou minha atenção e fez que especulasse infinitas conjunturas e perguntas a partir dos detalhes registrados na página do livro.

Dono de uma vasta obra onde a fantasia e a realidade se superpõem com harmonia magistral, o escritor Adolfo Bioy Casares não pára de me surpreender. E deve ser em parte por isso que possuo, justamente dele, uma das “dedicatórias” mais curiosas e inusitadas. Suspeito que foi na 6º exposição da Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, já que o carimbo ainda consta numa das páginas.

A impecável construção de relatos fez com que, em 1990, conquistasse o maior galardão literário da língua espanhola: o prêmio Cervantes. Bioy era rico, pertencia a uma família tradicional.

Sua fama de galã e conquistador extrapola também sua bibliografia. “Comecei a escrever para seduzir as mulheres. Elas estão sempre na origem de tudo”, confessou. E claro que diversos fatos da sua vida e obra retratam e confirmam este perfil. Casado com a escritora Silvina Ocampo, construiu, junto com Borges, um dos pilares mais fortes e renovadores da literatura de ficção Argentina e mundial. Escreveram individualmente e a quatro mãos, adotando o nome de H. Bustos Domecq e B. Suárez Lynch. Bustos fora um tataravô de Borges e Domecq um tataravô de Casares. “A invenção de Morel” (1940), a mais reconhecida obra de Bioy Casares, foi claramente a inspiradora do bem sucedido seriado americano “Lost”. Numa clara referência e homenagem, um dos capítulos exibe um dos protagonistas e habitantes da ilha lendo o referido livro.

Por muitos anos Borges e Bioy lideraram o cenário literário - intelectual. Sua escrita, amizade e gostos se fundiam de forma recíproca, no cordial papel de mestre e discípulo.

Não posso deixar de citar um comentário do seu contemporâneo, Julio Cortazar, a uma de suas obras: “Poderia ter sido algo grande, mas malogra parcialmente pela excessiva assimilação da técnica do papai Borges e de seus temas”.

“Adolfito”, como era conhecido pelos amigos e família, um dos escritores de mais prestigio e sedutores da sua época, não escondia sua paixão pelas mulheres. Silvina, também rica e onze anos mais velha, sentia orgulho da sua conquista. Compartilhavam assuntos literários e certa burla para convenções sociais. Mas defendia seu “troféu” até de suas amigas mais intimas. Nem sempre ganhava... Com o tempo acabou aceitando suas diversas amantes, aventuras superficiais, como ela mesma definia, enquanto não ameaçassem a estranha e estável união intelectual. Um dos casos mais conhecidos e duradouros foi aquele que manteve com a bela Elena Garro, esposa do escritor mexicano e prêmio Nobel de Literatura, Octavio Paz.

Silvina possuía um particular encanto que contrastava com aquilo que a si mesma considerava como “fealdade”: “Onde quer que eu vá com esta cara?” perguntava. Impossibilitada de dar um filho a seu marido e, com medo de perdê-lo, acabou concordando em adotar Marta Bioy, filha de Adolfito com uma de suas amantes.

Diversas histórias com suas mulheres faziam parte já do folclore literário. “Bioy teve amantes que o freqüentaram até o dia da sua morte”, confessa no seu livro “Os Bioy”, Jovita Iglesias, fiel empregada da casa, amiga da família e que trabalhou com o casal por quase cinqüenta anos. “Tenho um defeito, Jovita, uma grande debilidade: gosto tanto de mulheres, que se a um pau de vassoura fantasiassem de mulher, iria atrás desse pau de vassoura.” Esse tipo de confissão não era raro para ela, mas não acontecia com amigos como Borges, onde autores, obras e escritos eram quase a exclusividade dos temas das conversas. E por esta popularidade e fama é que a dedicatória que fez no exemplar do livro “Cuentos breves y extraordinários” (Editora Losada, 2º edição), recompilada juntamente com Jorge Luis Borges, toma uma dimensão diferente.

Nele textualmente está escrito:

“Para Nora Mónica Marcalain,
muy cordialmente
Adolfo Bioy Casares (sua assinatura), 1980
44 - 6586 después de las 11 a.m.”.


O telefone aparece riscado uma vez e logo escrito novamente de forma clara... Não vou indagar nem querer saber quem era a tal Nora... Mas arrisco a perguntar: - por que junto a uma dedicatória, um telefone e até o esclarecimento da melhor hora para ligar? Que telefone era esse? Por que depois das 11 a.m.? Por que tudo isto escrito num livro e não numa outra folha qualquer? Qual é o verdadeiro sentido deste recado? Por que parecendo uma coisa tão pessoal e atenciosa, Nora Mónica Marcalain, se desfez dele? Talvez o tempo tenha apagado o interesse, ou faça parte de um passado que não faz questão lembrar. Por que está comigo como mais um livro-filho desarraigado? E eu cobrando ainda alguma ingênua explicação...

Perguntas que talvez não tenham nunca uma réplica coerente.

“A vida consiste em adaptar-se à incoerência”, com certeza me responderia. Mesmo assim parece curioso, e de fato o seria, em circunstâncias normais.

Coincidentemente (ou não) tenho uma folha original das memórias de Bioy (que publicou em 1994 com também alguns bastidores amorosos). Nela, claramente altera e emenda, corrigindo à mão com sua caneta, algumas palavras do texto escrito à máquina. Comprei de um antigo colecionador de livros, documentos e manuscritos em Buenos Aires. Casualidade também ou não, seu escritório fica defronte ao apartamento de Borges, na rua Maipú. Por ironia do destino, justamente nessa folha, conta que seu interesse pelos sonhos começou quando seus pais tiraram dele um cachorro que tinha ganhado numa rifa. Eles, que não queriam o bicho, asseguraram que não existia o tal cachorro. Que possivelmente o teria sonhado...

A tal ironia é que tanto no manuscrito que tenho como no livro depois publicado, o nome do cachorro era “Gabriel”. Provavelmente, uma fantástica e premeditada vingança no tempo, por possuir agora justamente o livro que faz jus àquela fama de conquistador... Ou estarei novamente fabulando? “A gente afirma que muitas explicações convencem menos que uma só, mas a verdade é que para quase tudo existe mais de uma razão.”, justificaria. E seria uma boa saída para esta história de amores, literatura e memórias.

“Que agradável seria a vida se terminasse um pouco antes da morte...”, disse na voz de uma das suas tantas personagens. O último aristocrata das letras argentinas faleceu aos 84 anos em 1999.

Mas sou o “cachorro” que espalhou a tal dedicatória, o telefone e recado... Que possui o referido volume e divulgou mais esta “prova”.

Estamos quites agora.

Desculpa, Bioy...

Obs: A citada folha autografada do livro e o manuscrito corrigido de Bioy Casares continuam comigo para atestar a veracidade ante qualquer cético leitor.




(Do meu livro "Borges e outras ficções") 

segunda-feira, 29 de março de 2010

Autografados e abandonados (11)

Urupês - Monteiro Lobato

Livraria Martins, 1944, 1ª edição. Exemplar nº 94 de uma tiragem especial de 120 exemplares, numerados de 1 a 120 e assinados pelo autor, em papel Westerledger. Ilustrações de Paim.
Urupês é considerado um clássico de Monteiro Lobato, e da literatura brasileira. É composto por 14 contos, que mostram a vida quotidiana do caboclo do interior de São Paulo, através de suas crenças, costumes e tradições. As histórias têm geralmente, um final trágico e inesperado.
Leia AQUI o motivo da minha coleção.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Autografados e abandonados (10)

O papel do amor - Antologia de contos - 1978 - Edição Especial Indústrias de papel Simão S.A. (Organização, seleção e notas de Edla Van Steen). Desenhos de Italo Cencini.

Autografado em conjunto por:
Hilda Hilst (Agda)
Ricardo Ramos (Eu fui à fonte)
Lygia Fagundes Telles (Pomba enamorada)
Nelida Piñon (A sombra da caça)
Moacyr Scliar (Os amores do ventríloquo)
Flavio Moreira da Costa (Entre santos e soldados)

Esta rara coletânea de contos, cujo centro de gravidade é o tema do amor, constitui uma boa amostra do que o gênero pode oferecer no Brasil.

Leia AQUI o motivo da minha coleção.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Autografados e abandonados (9)

"Labyrinths", Penguin Books, 1976.
Um dos três livros autografados que tenho de Jorge Luis Borges. Este é uma coletânea de alguns textos em inglês e conta com a costumeira diminuta assinatura, sem dedicatoria.
Uma curiosidade deste livro: A assinatura do autor se repete na página 208.
Para ler o que já escrevi sobre meus encontros com Borges, veja AQUI.
(No detalhe, sua assinatura em outro exemplar)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Autografados e Abandonados (8)

Aspectos da Literatura Brasileira
Mario de Andrade
1943 - Americ=Edit.
(Outro tesouro na minha biblioteca...)

Autografado ao amigo e músico Camargo Guarnieri.
(Em 1928 o músico foi apresentado a Mario de Andrade, a quem mostrou suas obras recém compostas Canção Sertaneja e Dança Brasileira. O escritor modernista tornou-se seu mestre intelectual. Guarnieri passou a freqüentar a casa de Mário de Andrade, com quem discutia estética, ouvia obras musicais e tomava livros emprestados. O contato entre ambos tornou-se uma grande amizade e também uma parceria artística. Muitas das canções escritas por Camargo Guarnieri foram sobre textos de Mário de Andrade, incluindo a ópera Pedro Malazarte. Exercendo atividade como crítico musical na imprensa, Mário de Andrade foi um dos principais responsáveis pela aceitação e pela divulgação da obra de Camargo Guarnieri.)

Mario de Andrade (São Paulo, 9 de outubro de 1893 — São Paulo, 25 de fevereiro de 1945). Poeta, romancista, crítico de arte, musicólogo, professor universitário e ensaísta, considerado unanimidade nacional e reconhecido por críticos como o mais importante intelectual brasileiro do século XX. Mário de Andrade liderou o movimento modernista Maylsonanico no Brasil e produziu um grande impacto na renovação literária e artística do país, participando ativamente da Semana de Arte Moderna de 22, além de se envolver (de 1934 a 37) com a cultura nacional trabalhando como diretor do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo.
Mário criou vínculos fortes com outros nomes do país, se correspondendo freqüentemente com grandes artistas brasileiros, dentre quais se destacam Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Fernando Sabino e Augusto Meyer, e veio a falecer em 1945 na mesma cidade em que nasceu, após três décadas de trabalho que desempenhou em estilo vanguarda.
Considerado o escritor mais nacionalista e múltiplo dos brasileiros, Mário construiu um caráter revolucionário na literatura brasileira, que se iniciou com Paulicéia Desvairada, onde analisa a cidade de São Paulo e todos seus elementos (provincianismo, aristocracia, burguesia, rio Tietê, Avenida Paulista). Mário também é considerado um dos primeiros musicólogos do país, e seu maior interesse era a música, particulamente os ritmos nordestinos, nos quais tentou pesquisar e valorizar, assim como fez com a Missão de Pesquisas Folclóricas, tentando criar um estudo e uma descoberta das raízes culturas do Brasil. Isso também ocorreu com seu romance mais famoso, Macunaíma, considerada uma das obras capitais da narrativa brasileira no século XX.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Autografados e abandonados (7)

Caprichos
&
Relaxos

Paulo Leminski

1º Edição
Autografada em 1985

Deste livro:

a noite
me pinga uma estrela no olho
e passa

---

apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme
----
parem
eu confesso
sou poeta
cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face
parem
eu confesso
sou poeta
só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Autografados e abandonados...(6)

Posdata,
Octavio Paz

(Mais um, que pelas voltas da vida, está na minha biblioteca...)

Siglo veintiuno editores sa.
(1971) Com dedicatória do autor
para o escritor portugues
Joaquim de Montezuma de Carvalho.

Octavio Paz (Cidade do México, 31 de Março de 1914 — Cidade do México, 19 de Abril de 1998) Escritor e diplomata mexicano, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1990.
Passou a infância nos Estados Unidos, acompanhando a família. De volta ao seu País, estudou Direito na Universidade Nacional Autônoma do México. Cursou, também, estudos de especialização em Literatura. Morou na Espanha, onde conviveu com diversos intelectuais; também em Paris, Japão e Índia.
Em 1945, ingressou no serviço diplomático mexicano. Ao residir em Paris, testemunhou e viveu o Movimento Surrealista, sofrendo grande influência de André Breton, de quem foi amigo. Publicou mais de vinte livros de poesia e incontáveis ensaios de literatura, arte, cultura e política, desde Luna Silvestre, seu primeiro livro, de 1933.
Todos os dias te descubro…
Octavio Paz

Todos os dias descubro
A espantosa realidade das coisas:
Cada coisa é o que é.
Que difícil é dizer isto e dizer
Quanto me alegra e como me basta
Para ser completo existir é suficiente.
Tenho escrito muitos poemas.
Claro, hei de escrever outros mais.
Cada poema meu diz o mesmo,
Cada poema meu é diferente,
Cada coisa é uma maneira distinta de dizer o mesmo.
Às vezes olho uma pedra.
Não penso que ela sente
Não me empenho em chamá-la irmã.
Gosto porque não sente,
Gosto porque não tem parentesco comigo.
Outras vezes ouço passar o vento:
Vale a pena haver nascido
Só por ouvir passar o vento.

Não sei que pensarão os outros ao lerem isto
Creio que há de ser bom porque o penso sem esforço;
O penso sem pensar que outros me ouvem pensar,
O penso sem pensamento,
O digo como o dizem minhas palavras.

Uma vez me chamaram poeta materialista.
E eu me surpreendi: nunca havia pensado
Que pudessem me dar este ou aquele nome.
Nem sequer sou poeta: vejo.
Se vale o que escrevo, não é valor meu.
O valor está aí, em meus versos.
Tudo isto é absolutamente independente de minha vontade.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Autografados e abandonados (5)

El lenguaje de la Pasión
Mario

Vargas Llosa
Editora Aguilar,

1 edição, (2001).
(Este não foi abandonado, já que está dedicado a este servidor...)

Mario Vargas Llosa (nascido Jorge Mario Vargas Llosa) em Arequipa, Peru, 28 de março de 1936, um dos maiores escritores de língua espanhola, reconhecido, em nível mundial, como romancista, jornalista, ensaista e político.
Sua obra critica a hierarquia de castas sociais e raciais, vigente ainda hoje, segundo o escritor, no Peru e na América Latina. Seu principal tema é a luta pela liberdade individual na realidade opressiva do Peru. A princípio, assim como vários outros intelectuais de sua geração, Vargas Llosa sofreu a influência do existencialismo de Jean Paul Sartre.
Muitos dos seus escritos são autobiográficos, como "Batismo de Fogo" (1963), "A Casa Verde" (1966) e "Tia Júlia e o Escrevinhador"(1977). Por Batismo de Fogo recebeu o Prêmio Biblioteca Breve da Editora Seix [Barral e o Prêmio da Crítica de 1963. Sua obra seguinte, A Casa Verde mostra a influência de William. Em 1981 publica A Guerra do Fim do Mundo, sobre a Guerra de Canudos, que dedica ao escritor brasileiro Euclides da Cunha, autor de Os Sertões.
Ganhou inúmeros prêmios, principalmente o Prêmio Cervantes (1994), o mais importante da língua espanhola.
Em 1980 começa a ter maiores atividades políticas no país. Em 1983 a pedido do próprio presidente Fernando B. Terry preside comissão que investiga a morte de oito jornalistas. Em 1987 inicia o movimento político liberal contra a desestatização da economia, o que ia de encontro ao presidente Alan García. Em 1990 concorre à presidência do país com a Frente Demócrata (FREDEMO), partido de centro-direita, mas perde a eleição para Alberto Fujimori.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Autografados e abandonados (4)

El dulce
daño,
Alfonsina

Storni
(1918)
Primeira

edição
autografado

(muito raro)

Alfonsina Storni foi uma poetisa argentina nascida na Europa em 29 de maio de 1892. Imigrou com os seus pais para a província de San Juan na Argentina em 1896. Em 1901, muda-se para Rosário (Santa Fé), onde tem uma vida com muitas dificuldades financeiras. Trabalhou para o sustento da família como costureira, operária, atriz e professora.
Seus primeiros livros de poemas foram “La inquietud del Rosal”, “El dulce dano” e “Irremediablemente”. Entre outros livros, destacam-se entre suas obras ‘Ocre”, “El Mundo de Siete Pozos”, “Mascarilla” e “trébol”.
Descobre-se portadora de câncer no seio em 1935. O suicídio de um amigo, o também escritor Horacio Quiroga, em 1937, abala-a profundamente.
Em 1938, três dias antes de se suicidar, envia de um hotel de Mar del Plata para um jornal, o soneto “Voy a Dormir” (publicado logo de forma póstuma). Consta que se suicidou andando para dentro do mar — o que foi poeticamente registrado (com partes destes versos) na canção "Alfonsina y el mar" (veja o vídeo), gravada por Mercedes Sosa; seu corpo foi resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938 em Mar del Plata (no lugar foi levantado um monumento). Alfonsina tinha 46 anos.


Vou dormir
(Encaminhado a um jornal como despedida e recebido após cometer suicídio)

Dentes de flores, touca de sereno,
Mãos de ervas, tu, ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.

Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada à cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho

Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos…
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos

Para que esqueças… obrigado. Ah, um encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que saí…

Agora que já sabe da história, veja o vídeo...





sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Autografados e abandonados...(3)

Teatro quase Completo,
Nelson Rodrigues

Editora Tempo Brasileiro,
1965, Exemplar nº 4550
Autografado em 1965.
- A mulher sem pecado
- Vestido de noiva
- Álbum de família
- Anjo negro

Nélson Falcão Rodrigues (Recife, 23 de agosto de 1912 — Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1980) dramaturgo, jornalista e escritor.
“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino).”
A vida foi cruel com o autor. Aos 17 anos, perdeu o irmão Roberto, assassinado aos 21 anos. Dois meses depois da tragédia, morreu o pai, Mário Rodrigues. Por causa da tuberculose, Nelson internou-se diversas vezes. Uma úlcera lhe causava dores terríveis e uma hemorragia intra-ocular o deixou parcialmente cego. Joffre, o irmão mais novo, morreu vítima da tuberculose, aos 21 anos. Perdeu o irmão Paulinho num desabamento. O filho Nelsinho ficou preso durante sete anos durante o regime militar. A filha Daniela nasceu cega, surda e muda.
Todas as tragédias da vida ele transformou em peças de teatro, contos, crônicas e romances. Machista, tarado, reacionário. Chamem-no do que quer que seja, sempre será o pai da moderna dramaturgia brasileira. Abriu caminho para o uso coloquial da língua e inovações na temática dos textos teatrais. Colocou no palco, pela primeira vez, a vida cotidiana do subúrbio carioca. A obra é vasta: escreveu 17 peças, centenas de contos e nove romances. Além disso, fanático torcedor do Fluminense, foi um dos maiores cronistas esportivos de todos os tempos.
Algumas das obras: Vestido de noiva (1943)· A falecida (1953)· Os sete gatinhos (1958)· Boca de ouro (1959)· Beijo no asfalto (1960)· Toda nudez será castigada (1965) e um sem fim de crônicas (A vida como ela é) copiladas em diversos livros.

domingo, 18 de outubro de 2009

Autografados e abandonados...(2)

Odas Elementales, Pablo Neruda.
(Outro dos meus tesouros...)

Editora Losada, Buenos Aires,
Segunda Edição, 1967.
Autografada e dedicada em 1970
por Neruda com sua típica caneta verde.

Deste livro: Ode à Poesia

Perto de cinqüenta anos
caminhando
contigo, Poesia.
A princípio
me emaranhavas os pés
e eu caía de bruços
sobre a terra escura
ou enterrava os olhos
na poça
para ver as estrelas.
Mais tarde te apertaste
a mim com os dois braços da amante
e subiste
pelo meu sangue
como uma trepadeira.
E logo
te transformaste em taça.
Maravilhoso
foi
ir derramando-te sem que te consumisses,
ir entregando tua água inesgotável,
ir vendo que uma gota
caia sobre um coração queimado
que de suas cinzas revivia.
Mas
ainda não me bastou.
Andei tanto contigo
que te perdi o respeito.
Deixei de ver-te como
náiade vaporosa,
te pus a trabalhar de lavadeira,
a vender pão nas padarias,
a tecer com as simples tecedoras,
a malhar ferros na metalurgia.
E seguiste comigo
andando pelo mundo,
contudo já não eras
a florida
estátua de minha infância.
Falavas
agora
com voz de ferro.
Tuas mãos
foram duras como pedras.
Teu coração
foi um abundante
manancial de sinos,
produziste pão a mãos cheias,
me ajudaste
a não cair de bruços,
me deste companhia,
não uma mulher,
não um homem,
mas milhares, milhões.
Juntos, Poesia,
fomos
ao combate, à greve,
ao desfile, aos portos,
à mina
e me ri quando saíste
com a fronte tisnada de carvão
ou coroada de serragem cheirosa
das serrarias.
Já não dormíamos nos caminhos.
Esperavam-nos grupos
de operários com camisas
recém-lavadas e bandeiras rubras.

E tu, Poesia,
antes tão desventuradamente tímida,
foste
na frente
e todos
se acostumaram ao teu traje
de estrela cotidiana,
porque mesmo se algum relâmpago delatou tua família,
cumpriste tua tarefa,
teu passo entre os passos dos homens.
Eu te pedi que fosses
utilitária e útil,
como metal ou farinha,
disposta a ser arada,
ferramenta,
pão e vinho,
disposta, Poesia,
a lutar corpo-a-corpo
e cair ensangüentada.

E agora,
Poesia,
obrigado, esposa,
irmã ou mãe
ou noiva,
obrigado, onda marinha,
jasmim e bandeira,
motor de música,
longa pétala de ouro,
campana submarina,
celeiro
inextinguível,
obrigado
terra de cada um
de meus dias,
vapor celeste e sangue
de meus anos,
porque me acompanhaste
desde a mais diáfana altura
até a simples mesa
dos pobres,
porque puseste em minha alma
sabor ferruginoso
e fogo frio,
porque me levantaste
até a altura insigne
dos homens comuns,
Poesia,
porque contigo,
enquanto me fui gastando,
tu continuaste
desabrochando tua frescura firme,
teu ímpeto cristalino,
como se o tempo
que pouco a pouco me converte em terra
fosse deixar correndo eternamente
as águas de meu canto.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Autografados e abandonados...

Entre os diversos livros, guardo um lugar especial para aqueles autografados. Levam a marca e respiram o ar do tempo em que foram datados. Sintome transportado àquela hora. Outros, incompreensivelmente, mesmo com assinatura e dedicatória para seus leitores, foram esquecidos e deixados de lado em algum sebo. Que destino ou castigo imposto levou alguém a abandoná-los? Tomavam muito espaço ou a nova cor amarela das páginas não sustentou sua nova leitura? Prometeram uma literatura que não foi cumprida? Qual foi a falha? Onde foram vencidos seus acertos? Que caminhos percorreram até perder-se da estima? Talvez até contem uma história mais curiosa e triste que a do próprio livro. Sinto-me na obrigação de resgatá-los, como se estivesse devolvendo ao autor, e a suas páginas, o carinho e respeito que tiveram na hora da sua assinatura.
Antigos e contemporâneos convivem em harmonia com assinados rejeitados comprados de terceiros. Assim como o filho perdido que volta pra casa. Mesmo adotados, são próximos e amados por igual. Em muitos outros, que guardo com mais zelo ainda, aparece meu nome. Sempre exerceram grande fascínio e agora quero dividir isso com vocês...
Nota: Para começar esta série de livros autografados, hoje quero mostrar um dos grandes contistas brasileiros, avesso a qualquer tipo de entrevista e divulgação da sua imagem (alias, pouca gente sabe como ele é, e algumas poucas fotos que circulam são antigas ou tiradas de longe, sem autorização...). Dalton Trevisan, o "Vampiro de Curitiba". Um dia conto como consegui esta dedicatória no livro...

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