“Havia chegado a uma terra de fragmentos, perdida, um lugar de coisas para as quais não havia palavras e também um lugar de palavras que não correspondiam a coisa nenhuma.”Paul Auster - Cidade de vidro
Caminho com o risco do imprevisível. A poucos metros da rua larga, o rio e o porto. Preto de óleo, água suja, fumaça e hálitos vencidos que o vento traz e abandona na lembrança. Agora é porto Madeiro, belo, caro, cuidado. Por cima, por baixo, e dentro de mim, Buenos Aires.
Demoramos em aceitar alguns fatos, não acreditamos totalmente que o tempo tenha transformado algo, deixando só alguns rastros e pistas da passagem. Quando voltei, lembrei que não haveria “mais penas nem esquecimento”. A letra do tango é uma meia verdade...
Regresso ao centro. Ao velho e novo centro de sempre, cerne de atrasos largos, metáforas. Meus olhos, que conviviam com sua rotina, parecem agora descobri-lo por primeira vez. Perdi algumas coisas por aqui... Era preciso voltar, recuar, e mesmo que minhas pisadas estejam definitivamente apagadas, ele me habita e convoca. A memória descontinua parece sonhar-se a si mesma. As dezesseis ruas do calçadão Florida são mais de sacolas, rumores, perfumes e ternos. Pessoas vêm um pouco mais atrás. Cotovelos são pára-choques da vulnerabilidade.
O outono fuma sem parar, e já não traga. Conheço essa atmosfera, a mesma geografia de monotonia variável, sua mitologia, mitos e lendas. Mas as coisas não me reconhecem. O céu continua coberto pelos descuidos da atenção, distrações da correria, que escapa nos pequenos fechos das antigas marquises. Ar de boemia portenha, cafés, livrarias e gente assobiando alguma música que já soube e agora ignoro. Mulheres lindas e das outras, parecidas, vestidas iguais, se olham, mais que os homens. Outras contrastam. Enquanto eles, sem tempo, correm; outros deitam, dormem ou vendem pequenas coisas, sentados nas saliências das ruas; marcando territórios. Mulheres com crianças estendem sua mão, e esperam. Crianças perambulam, algumas claramente sujas.
No metrô, os músicos tocam (ou trocam) suas lamúrias sonoras, por moedas. O tango se esconde em ambientes caros, que poucos conseguem frequentar.
Madrugada e tango, sombras sem domar. Desempregados fazem filas e circulam por ruas que mudaram de nome, cansadas de tanta gente. Algumas paredes continuam berrando desabafos abandonados, protestos silenciosos, de poucas palavras e de mesmas cores.
Pareço um estrangeiro; talvez o seja agora. Encontro pessoas, que aparecem no meio de outras pessoas, e me oferecem câmbio e couro. Devo estar diferente mesmo – penso –, levanto a gola do paletó, faço um gesto qualquer e coloco a mão no bolso para disfarçar.
Junto-me a milhares que tomam café em alguma esquina e lêem quase o mesmo jornal. O futebol continua alimentando cegas paixões e justificando frustrações, inimizades e guerras populares. A cidade é um animal indiferente. Já não há poesia que me espante.
Táxis rondam vítimas. Há vozes, que não parecem; são pontes entre abismos, solidões disfarçadas, duplicadas por celulares pendurados em alguma parte da aflição. Um bandoneón, com fundo eletrônico, faz a nova trilha, no meio do pó que se renova, e arrasta lembranças que teimam em evaporar-se. O casal dança na rua, e pede ajuda em cada passo que desenha. Da porta de uma loja, o funcionário arrisca um mate, parece entediado, mesmo com clientes. Um outro vigia, sempre sério, desconfiado, e não atende. Há barulho de queixas, bumbos, caçarolas e também de buzinas que se queixam porque quem faz barulho ainda atrapalha o trânsito. Ônibus, cachorros, muitos cachorros na rua. Abandonados ou amarrados, que nem buquê de flores canil; juntos, levados ao passeio pela mesma mão. Vejo alguns cinemas que agora são templos, outros já criaram uma nova religião, e os sebos continuam demorando gente. Ninguém me conhece; só reconheço o que mudou, o que já não está. O cheiro permanece naquilo que não enxergo. Chagas, triunfos, traições e um sofrimento mítico incorporado, convivem como escudo, entre a ironia do dia e alguma filosofia de mesa de bar.
Desconheço algumas palavras; elas tomaram outro rumo, vestiram outra roupa de camuflagem renovada. O sotaque diluído me separa ainda mais. A cidade é um pentagrama que persegue a própria voz, sem palavras, em fotos amarelas e flores secas. Nos restaurantes se esconde, dissimulada, a realidade que finge ser outra. E fica sempre rindo no outro lado da calçada. Espero para cruzar a Avenida Corrientes, enquanto dois policiais se cumprimentam com um beijo; o velho culto à amizade, intocável, incompreendidamente popular.
Paro na porta de um prédio na Rua Maipú e penso quantas vezes Borges entrou por aqui e olhou sem ver da sua varanda, o verde da Praça San Martin. Quantas vezes retratou ruas, personagens e costumes... Reinventando uma fundação mítica e poética, numa cartografia imaginária, labiríntica e apenas visível nos seus textos. E que se revelava com palavras, facas, pedra e pátios; subúrbios de rufiões e esquinas de compadritos. As muitas Buenos Aires pareciam gritar-lhe: Verbaliza-me! E assim o fez em inúmeros poemas e contos: “As ruas de Buenos Aires/ já são minhas entranhas./ Não as ávidas ruas,/ incômodas de turba e de agitação,/ mas as ruas entediadas do bairro,/ quase invisíveis de tão habituais...”. Aquela cidade já não existe. E o centro continua, segundo sua expressão: “um lugar pitoresco e desenraizado”.
Paro numa outra esquina, demoro a continuidade, e assisto o mundo passar... A cidade é, antes de tudo, um estado de afeição. Se algo não morreu, foi meu olhar, que procura, ávido, mas sem respostas. Acompanho a silhueta de paredes com meus dedos, com a mesma ternura de passar a mão em algo que dorme. Para que ela sinta, mas sem acordar. Um grito foge da boca. Depois, o passado cai da memória e fica na minha frente, provocante, mal-intencionado, de aparente liquidação. E nem assim consigo levá-lo... Teia de aranhas de lembranças, redemoinho de papéis à procura de um sentido.
Quantas Buenos Aires submersas? Onde se esconde aquela que perdi? (Ou se perde aquela que escondi?) Provavelmente nas múltiplas cidades que Calvino identificou: “... de quem passa sem entrar é uma; é outra para quem é aprisionado e não sai mais dali; uma é a cidade à qual se chega pela primeira vez, outra é a que se abandona para nunca mais retornar.”.
Tento recuperar sua (minha) memória como antropólogo urbano; suas (minhas) marcas que a identificam e promovem legitimidade. Até onde era minha?
Entro no cemitério da Recoleta, e ai, conto meu pé de realidade para quem queira me ouvir. Pergunto-me, onde estou? E uma voz feminina não me responde. E volto a perguntar-me, como sei que é feminina?
Uma cidade de camadas, de pó antigo e espanadores de espectros; que respira melhor de noite, azul, intensa e contornos vagos de persecuções e anonimatos. A nova em cima da velha, em cima da outra e da outra, mais velha, como pele de tinta fina ou tule, que cobre e abafa muitas outras. Verdadeiras caixas chinesas. O ar está sem anúncios nem gavetas para esvaziar, mas embaralhado, e revela de forma precária, hipotética, aquilo que nunca saberemos de nós. Como “Leônia”, uma das tantas Cidades invisíveis, e que se refaz todos os dias. Nela a gente acorda todas as manhãs em lençóis frescos, lava-se com sabonetes recém tirados das embalagens, veste roupões novíssimos... Só que quanto mais a cidade expele, pelas coisas que todos os dias joga fora para dar lugar às novas, mais coisas acumula; as escamas do seu passado se solidificam numa couraça impossível de tirar; renovando-se todos os dias, a cidade conserva-se em sua única forma definitiva: a do lixo de ontem que se junta ao lixo de dias, anos e lustros. De tanto querer ser nova, acumula, afasta de si o velho, e a ameaça de desmoronamento do que expurga é iminente. Basta que alguma coisa, qualquer coisa, pequena ou insignificante, se precipite, que afunde a cidade no passado que em vão tenta repelir, e vestir-se de nova. Aquela que segundo Piglia é “a cidade ausente” e está inserida cedendo lugar às múltiplas cidades internas que o imaginário humano é capaz de construir. E ficam na lembrança, em silêncio, do que possivelmente nunca foi, ou foi só para nós antes de perdê-la, nossas cidades particulares, embaixo das linhas do atual. Parece haver sempre duas maneiras de lê-la: uma a aumenta, a outra a anula em mistérios parcialmente revelados. E me perco em pactos secretos, vingado na memória das emoções. Perder-me é desdobrá-la.
Penso em outra coisa sem parar de pensar no mesmo, percebo o que acontece quando nada acontece, e ando para trás sem recobrar as asas. Embora pareça ter mais gente, faltam muitos e ficaram menos, marcados pela ausência. E nunca acabam por chegar. O culto ao que já não está, ao que já se foi, parece necessário, mas é doentio exumar eternamente o que não pára em si, e ainda teima, caprichoso, viver entre nós com o coração virado ao sul. E as coisas minúsculas, aparentemente despercebidas, hoje parecem poemas. Tenho que traduzi-la constantemente, enquanto ela se diverte assustando quem volta.
“Todas as viagens são impossíveis...”, afirma o ensaio “Mapas Antigos”, original que possuo corrigido a mão e assinado pelo escritor Manuel Mujica Lainez, “... hoje que na despedaçada terra que rompem os caminhos e que as fronteiras se mobilizam orientadas por uma maré vermelha. Por isso, a tentação da viagem retrospectiva ao longo de cartografias remotas, tem hoje, mais do que nunca, um poder de realidade que deriva da vida irreal que vivemos. Não nos é dado ir à Itália, à França, à Alemanha de nossos dias. Nem com a imaginação podemos refazer as rotas que foram familiares, pois ignoramos se as estradas conduzem ainda para as mesmas cidades e se as cidades seguem sendo as mesmas. Uma nuvem espessa cobre o mapa atual do mundo.”
De tanto andar, suas ruas já são outras, como são outros os escritores que a decifram de tanto lê-la. Mesmo assim, fico com a sensação de que meu passado está a escassos segundos, e que sempre chego tarde para recuperar cheiros, rastros e obsessões num extenso inventário de silêncios, de fadigas, ausências e epitáfios.
Na ilha do dia anterior, de Umberto Eco, os visitantes não conseguem fixar um ponto no espaço no qual o tempo possa ser medido, tornando impossível inscrevê-la no presente. Tanto na ilha como naquelas tantas cidades que já não conseguimos possuir, o que vemos talvez não seja a mesma que os outros percebam.
A paisagem só alcança espelhar a visão do mundo de cada viajante. A saudade, um exagero do tempo que ele mesmo extrapola, é a porta giratória que nos devolve sempre a mesma entrada. Sou um viajante imóvel que pensou ir embora, mas que nunca conseguiu sair por completo. Dois mapas superpostos.
Que inventar então com as imagens e vozes contidas, que permanecem como fantasmas, nos vazios da memória? Como mapear, em que espelho enxergar o que já não existe? O passado continua se distanciando cada vez mais rápido; os dias são curtos, muito curtos para desfilar todos nossos mortos. Buenos Aires não passa mais pela mesma rua. A morte continua melhorando-nos constantemente.
E assim, como eu procurei por ela, sem sucesso, talvez ela também não tenha me reconhecido... Os dois continuaremos sem nos ver.
O Goofus Bird, pássaro que constrói o ninho ao contrário e voa para trás, porque não lhe importa aonde vai, mas sim onde esteve, parece querer voar, de forma infinita, sobre o mesmo que já não está.