ESCRITOS DO GABRIEL

(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )



"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Minha poesia e os times catarinenses...

Alguém poderia me explicar o que tem a ver minha poesia com o futebol catarinense?

E ainda num site de esporte da Globo?

Veja AQUI (A Invasão Catarina) e tente me explicar.

O cara viajou...

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Não era eu



Sonhei que éramos outros. 
Nossos nomes diferentes, 
noutro lugar qualquer. 
Os sonhos não dão satisfação. 
Admitamos (não queria): 
estamos ainda dormindo. 
É assim, já sei, 
de noite voltamos a rir 
como num filme de lentíssimas (con)sequências. 
Mas agora acordei com os gritos. 
Descobri meus braços estendidos
na tua direção.
O quarto vazio, 
o colchão úmido que apaga 
e afunda tua marca, 
e teus olhos vidrados, 
mordidos em mim. 
Juro, não era eu. 
Sonhei que era o outro, 
o próximo. 
Aquele que sussurra abecedários 
em teus sonhos e te desvela;
e tem o nome cochichado
na ponta
da tua língua dormida.
Esse que faz
a vida possível de lágrimas engolidas, 
as sombras repartidas 
que nos seguem uma e outra vez 
onde deveríamos estar e nunca estamos. 
Pois é, 
acordei. 
Parecíamos vivos e mascados,
um tango mal dançado,
onde não há letra sem traição. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Na boca do Povo

Mais uma entrevista, desta vez "Na boca do povo", da rede BA de TV, do estimado Neri Conte.
Muita gente me parou, me escreveu, me parabenizou... Gente que conhecia e outra que não. Nunca pensei que poderia ter a repercussão que teve... 
A reportagem já tem 3 semanas e ainda encontro muitas pessoas que comentam minhas colocações sobre a guerra das Malvinas, sobre o papa, sobre o "jeitinho brasileiro", sobre literatura, política, religião... Ou seja, daquilo que penso sobre alguns temas tratados.

Assista AQUI a primeira parte.
AQUI a segunda parte
AQUI a terceira parte
AQUI a quarta parte
AQUI a quinta parte
AQUI a sexta parte
AQUI a última parte

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Sobre as manifestações...


Mais uma reportagem... 
Desta vez falando sobre as manifestações, manipulação da imprensa, Argentina, liberdade... 

Agradeço ao apresentador Rogério Fernandes do programa “RS Comunidade”, na RSTV, pelo seu convite e cordialidade.

Assista a entrevista completa AQUI.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Com o pé na cozinha


Quero compartilhar um vídeo do programa "Com o pé na cozinha" na RSTV, que dividi com minha filha Gabrielle.
Por um tempo procurei e agora que achei, quero partilhar esta conversa literária com todos... 

Ao mestre Aurélio meu agradecimento pelo sábio tempero.

Veja o programa AQUI

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Projeto espalha livros pela cidade

O escritor, editor e agitador cultural Carlos Schroeder conta que incluiu meu livro "Suicidas - Os modos de falar às paredes"  no projeto  "Livro voador", que transforma estabelecimentos comerciais em nano-bibliotecas, circulando assim pela cidade de Jaraguá do Sul, "lépidos e faceiros", nas mãos dos leitores e em dez pontos da cidade.
Eis a matéria publicada no jornal "O Correio do Povo". (Veja também AQUI no Site de origem)
.
Detalhe: na foto, encostado, podemos reconhecer a capa de "Suicidas"...


Incentivo Publicitário Curt Ness é um dos criadores do Livro Voador
(Foto: Eduardo Montecino)

Por iniciativa independente, Jaraguá do Sul ganhou um novo projeto de incentivo à leitura. “Livro Voador”, criado pelo publicitário Curt Ness e pelo parapsicólogo Pedro Lopes de Oliveira, distribuiu 60 livros em dez pontos do município. Os títulos permanecerão disponíveis para empréstimos da comunidade, de forma gratuita.

Para participar, os interessados devem conferir qual o ponto de “distribuição” de livros mais próximo. Lanchonetes, hospital e restaurantes participam do projeto com seis livros disponíveis, cada um.

Com esse acervo, o “Livro Livre”, que entrou em prática ontem, está apenas no começo. Para aumentar a quantidade de livros, os idealizadores orientam os leitores a disponibilizar mais títulos nos pontos, como forma de doação.

“Há uma tarjeta presa ao livro, para que o leitor possa saber como funciona a mecânica e, também, para saber que poderá devolver o livro onde retirou, ou nos demais estabelecimentos da campanha”, explicou Nees.

Com o “Livro Livre”, Jaraguá ganhou mais um projeto de incentivo à leitura. Com o mesmo objetivo, também funcionam o “Leitura no Terminal” e “Biblioteca Convida”, promovidos pela Biblioteca Pública Municipal Rui Barbosa.


Confira os pontos do “Livro Voador”

- Cheirinho Lanches, Rua Feliciano Bortolini, 1411

- Empada Brasil, Rua Marechal Floriano Peixoto, 35

- Ferrazza Café e Bar, Avenida Marechal Deodoro da Fonseca, 860

- Hospital Jaraguá, Ortopedia, Solarium, Setor 4

- Mannos Restaurante, Rua Antônio C. Ferreira, 850

- Mannos Restaurante, Rua Expedicionário João Zapella, 88

- Padaria Pão Quente, Rua Jorge Czerniewicz, 71

- Padaria Tecnopan, Rua Bernardo Dornbusch, 2330

- Quadra Esportiva Society Marechal, Avenida Marechal Deodoro da Fonseca, 1035 (fundos)

- Restaurante Mime, Rua Walter Marquardt, 470

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Na 7 feira do livro de Jaraguá do Sul



O escritor Gabriel Gómez participou da 7 Feira do Livro de Jaraguá do Sul onde realizou no novo teatro do Centro Cultural do município/SCAR, uma palestra/conversa com a escritora Suzana Mafra sobre poesia, literatura e livros.
Após uma hora de ser entrevistado no palco pelo mediador do evento, os escritores também responderam diversas perguntas da platéia, concluindo com uma noite de autógrafos onde muitos subiram ao palco para garantir seu livro assinado.“Realmente foi uma noite incrível de conversas, livros e o carinho da platéia. Originalmente estava programado para apenas uma hora, mas se estendeu por mais uma porque o publico participou muito fazendo diversas perguntas”, afirmou o escritor.
O Sucesso foi comprovado quando após este encontro literário, os dois poetas foram também convidados para repetir esta conversa na Feira do Livro de Brusque, no dia 7 de agosto.

(Trecho do texto publicado no Jornal A Cidade)

terça-feira, 4 de junho de 2013

Oportunidades para divulgar a literatura regional



Escritor Gabriel Gómez

            O mês de junho será marcado por oportunidades ímpares, em termos de divulgação dos valores literários regionais e também para proporcionar visibilidade, ao relevante trabalho desenvolvido pela Associação de Escritores do Alto Vale do Itajaí, em âmbito local e regional.
            O escritor rio-sulense, Gabriel Gómez, estará presente na 7ª edição da Feira do Livro de Jaraguá do Sul, que acontece de 6 a 16 de junho. Gómez, que é o atual diretor de eventos da Associação de Escritores, se apresentará no novo palco do Centro Cultural de Jaraguá do Sul (Scar), na segunda-feira, dia 10 de junho. Na oportunidade, vai participar de uma conversa-palestra sobre poesia e literatura.
            É importante destacar que nos últimos cinco anos, Gómez lançou cinco obras literárias. Desta forma, é na atualidade o escritor do Alto Vale, com o maior número de publicações consecutivas. Além do reconhecimento em termos regionais, já está obtendo visibilidade estadual. Este fato é relevante para a região e também motivo de orgulho para a Associação de Escritores do Alto Vale do Itajaí, considerando-se que Gabriel é um dos fundadores da entidade literária.

(Nota publicada no Jornal A Cidade, na coluna "Falando de Literatura", de Jonas Felácio Junior - Jornalista e Pós-graduado em História, Cultura e Patrimonio. Secretário da Associação de Escritores do lto Vale do Itajaí) 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Na Feira do Livro de Jaraguá do Sul

O escritor Rio-sulense Gabriel Gómez é um dos confirmados para participar da 7ª edição da Feira do Livro de Jaraguá do Sul, que acontece do 6 até o dia 16 de junho. Ele se apresentara na segunda-feira, dia 10, para uma conversa-palestra sobre poesia e literatura no novo palco no Centro Cultural de Jaraguá do Sul (Scar).

Veja AQUI toda a programação da Feira. 

Durante o lançamento, a organização divulgou também o nome de três grandes autores infantis e mais quatro participantes que já foram confirmados.
Trata-se dos músicos e escritores Zeca Baleiro e Adriana Calcanhoto, a violonista Badi Assad e o escritor Rubens Figueiredo. A cerimônia também contou com o lançamento da logomarca do evento. O evento, que é referência no Sul do País, integra o Circuito Nacional de Feiras do Livro do Governo Federal. Para o coordenador geral, Carlos Henrique Schroeder, a proposta não é que a feira seja apenas um local para vender literatura, mas um ambiente para discutir as obras.
— O objetivo do evento é ser um palco de ideias e não apenas um comércio de livros. No ano passado, demos atenção aos quadrinhos (com Ziraldo e Mutarelli) e, neste ano, nos voltamos para a música. A literatura toca em todas as artes —, acredita.
A intenção da organização é nunca repetir um nome sequer. Por isso, na hora de escolher os convidados, o que mais conta é o ineditismo.
Adriana Calcanhotto (que também assina como Adriana Partimpim) participa para falar sobre suas composições, ilustrações e seus dois livros, no dia 6 de junho, às 19 horas. Uma das grandes compositoras e violonistas do país, Badi Assad faz um show no dia 8 de junho, às 19 horas. Vencedor do Prêmio Jabuti por duas vezes, Rubens Figueiredo estará o dia 11 de junho, às 19 horas, e o compositor e músico Zeca Baleiro marca presença no dia 12 de junho, às 19 horas, para falar sobre seus livros e suas composições.
Além dos convidados, a feira continua com a programação de debates, oficinas contações de histórias e a comercialização de livros a partir de R$ 1.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Como ser um grande escritor

Charles Bukowski

 

Poema do livro “O amor é um cão dos diabos”.


você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados;

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil -
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma derrota total
mesmo que a razão para esta derrota
pareça certa ou errada

um gosto precoce da morte não é necessariamente uma cosa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente
o tempo é a cruz de todos
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque

e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem?
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.

terça-feira, 5 de março de 2013

Preto e branco numa última cor no abraço

Tinha escrito bem grande "Abraço grátis" e saído entusiasmado para o calçadão. Acreditava que um abraço poderia mudar o dia. Por isso levantava o cartaz bem alto, ante o olhar indiferente de muitos, agitando-o quando enxergava algum possível candidato. A edição para a filmagem tinha escolhido sua música preferida. Focalizava todo mundo preto e branco. O combinado era que as cores apenas apareceriam quando alguém também abrisse seus braços. Estava nítida a mancha vermelha da sua camiseta pela bala perdida. Era sua última cor ao despedir-se para sempre de um estranho.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Perdidos

Onde você está agora?
Estou aqui, bem aqui! Calma, não tenho certeza, mas acho que estou perto. Você parece um pintor seguindo meu relevo de memória. Já te vi, fica onde você está que estou chegando. Eu sei que não são horas... É, também pensei. Pensou o quê? Que não são horas, ora. Mas tenha paciência, já estou perto. Tenho. Isto não é a saída? Não sei, fica aí, por favor! Fico. O quê? Como é possível me ver e não ser visto? Estou aqui. Finalmente! Nem de perto te enxergo direito. Nem eu. Eu sei. Dei voltas e voltas. Eu fiquei parada. Ainda bem. Não era feito à medida? Não, nada é a medida. As coisas não mudam juntas. A vista agora melhora o espaço. Sim, o olho parece se acostumar. Cheguei, podes me ver? Ainda não. E sentir? Estou aqui. Sim, agora sim. Eu também. Me dá a mão, segura. Seguro. Vou pular. Pulei, demorei? Demorou, sim. Parece estar com frio. Estou. Está tudo bem? Acho que sim. Fica. Então tá, fico, mas deixa agora me virar. Já? Sim. Já vamos dormir? Sim, é tarde. Sei, mas... Cansei para chegar, até amanhã. Cuida, não se perca... Cuido, sim, pode deixar. Coloca melhor o lenço, te cobre mais. Estou coberta, mesmo sem saber o que estou deixando entrar, o que estou deixando fora. O quê? Nada, deixa. Beijo então. (Estranhamente próximos e sozinhos, pensou, mas falou um vai à merda bem baixinho e depois dormiu).

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Geografia da alma

Para esta voz que me resta
Para o galho que me segura
Para esta fé que vacila
Para a palavra a prova de balas
Para a bala de cada dia
Para esta nudez dos outros
Para esta boca apenas tua
(excessivamente minha)
Para os três tigres que a travam
Para a mágica que escondo
(a pomba apertada no peito
que já está morta na manga)
Para o que joguei fora engolindo
Para o sopro que me anima
Para o que já foi e ainda pulsa
Para o que intercepta tuas cartas
E os braços
nos abraços dos pássaros
E o preço do apreço
E o que não vale nunca
E que eu ainda pago
E o peso do que levo
E o que se desfaz nas mãos
Neste frio de fome
Nesta fome de corpo
Onde os dedos não voltam
E as águas não lavam
E esperam
E a fotografia de costas
Sorrindo timidamente
E teu nome
Descalço
Que nestas horas
Reabre o fechado e
corrige tudo.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Vou dormir

"O suicídio não é querer morrer,
é querer desaparecer."
Georges Perros


Que amarga queixa o mar ouviu?
Que confissão?
Lágrimas e mar, sal no sal,
na chaga que não cala.
Seu sonho tropeçou, submerso.
Dorme agora,
abraça o abismo claro que também abraça.
Onde guardou sua cicatriz?
Ouvem uma voz vinda das águas?
É naufrágio ou travessia?
Tudo vibra.
Ele vai chamar? Não importa mais.
Deita que a ressaca devolve o poema,
para sempre,
entre duas vidas,
quando não se quer a vida
e abre espaço no mar.
Ainda cheiro essa mesma espuma.
Os pássaros migram, partem,
mas não esquecem Alfonsina,
se entreolham tristes e também veem,
outro sal no mar.

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Na madrugada do dia 25 de outubro de 1938, uma mulher não aguenta mais as dores causadas pelo câncer. A morfina não faz mais efeito e sua depressão lhe ajuda para tomar a decisão: sai da sua pensão em Mar del Plata e se joga desde um espigão para o remédio dos sais marinhos. Alguns afirmam que foi adentrando lentamente, que o alívio veio com as ondas. De manhã, alguns trabalhadores veem surgir um corpo boiando. Ao levá-lo ao hospital, a reconhecem como Alfonsina Storni. Tinha 46 anos.
Naquele lugar, seu corpo, agora talhado na pedra, olha para sempre a maré e pressente as flores que sempre deixam em seus pés.
Alguns dias antes, Alfonsina tinha encaminhado por carta seu poema "Vou dormir", ao jornal "La Nación", que chegou postumamente, como último pedido num bilhete suicida:

Dentes de flores, touca de sereno,
Mãos de ervas, tu, ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.
Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada à cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho
Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos…
Embala-te um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos
Para que esqueças… obrigado. Ah, um
encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que saí…*


Apenas como curiosidade: tenho o livro
"El dulce daño", 1918, autografado por ela.
Primeira edição. Muito raro.

* O poeta Felix Luna escreveu a letra da música "Alfonsina e o mar", cantada pela primeira vez por Mercedes Sosa em 1969, utilizando parte do poema original de Alfonsina:

Pela branda areia/ Que lambe o mar/ Sua pequena pegada/ Não volta mais/ Um caminho só/ De pena e silêncio chegou/ Até a água profunda/ Um caminho só/ De penas mudas chegou/ Até a espuma. / / Sabe Deus que angústia/ Te acompanhou/ Que dores velhas/ Calaram tua voz/ Para deitar-te/ Sussurrada no canto/ Das conchas marinhas/ A canção que canta/ No fundo escuro do mar/ A concha. // Te vais Alfonsina/ Com tua solidão/ Que poemas novos/ Foste a buscar?/ Uma voz antiga/ De vento e de sal/ Te requebra a alma/ E a está levando/ E te vais até lá/ Dormida, Alfonsina/ Vestida de mar// Cinco sereinhas / Te levarão/ Por caminhos de algas/ E de coral/ E fosforescentes/ Cavalos marinhos farão/ Uma ronda ao teu lado/ E os habitantes/ Da água vão a brincar/ Prontamente a teu lado. // Baixa-me a lâmpada/ Um pouco mais/ Deixa-me que durma/ Ama-de-leite, em paz/ E se ele chama/ Não lhe digas que estou/ Diz-lhe que Alfonsina não volta/ E se ele chama/ Não lhe digas nunca que estou/ Diz que me fui.


(Do meu livro "Suicidas - os modos de falar à parede)


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Cervos

Caminhamos lentamente e em fila, para cruzar o rio. E nadar quando for necessário. A terra ainda é um lar. Um coro de pássaros nos acompanha e sossega nas pontas de cada haste. Não me perguntem como e onde nasceu o costume de apoiar a cabeça e o pescoço nas costas daquele que está na frente. Sei que facilita e o caminho parece mais leve. Mas hoje estou cansado. Já nem falar consigo. Peço desculpas, não aguento muito ser o primeiro. Levei uma mordida e agora estou sentindo. Nós não contamos os anos, apenas vemos se podemos fazer algo ou não. Não sei quantos estão atrás. As correntes estão aumentando e precisamos manter-nos atentos. Parecemos ariscos, mas quem nos ameaça está sempre de prontidão.
Vou dar um sinal e pedir para ser o último. Quem sabe aí eu possa me atrasar um pouco, até as águas ficarem vermelhas...

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

As mortes em Horacio Quiroga


Quiroga enganou com a verdade ao vendedor quando disse que o veneno era para seu suicídio. Os dois riram. A barba ajudou. Não sabia que sua decisão era mais uma peça do recorrente, parte do seu antes e depois. Que obedeceu a um jogo indecifrável, da série de fatos que está envolvido o universo e seus vínculos circulares, em inúmeras séries e cifras igualmente incompreensíveis, repetitivas. Para isto seu pai teve que morrer com um tiro. Seu padrasto também. E que tentando explicar como seria o funcionamento da arma, matasse acidentalmente seu melhor amigo. Que sua primeira esposa se suicidasse, igual que seu protetor, como seus dois amigos escritores, Leopoldo Lugones e Alfonsina Storni. E que finalmente seus três filhos, Eglé, Dario e a "Pitoca" também procurassem o mesmo fim após a morte do pai.
Assim como no Jardim de veredas que se bifurcam, o tempo se bifurca perpetuamente em inumeráveis futuros de frágeis fios. Em um deles, no caminho mais longo, todos esperam pacientemente até o final.

(Vínculos circulares - do livro "Suicidas, os modos de falar à parede", Gabriel Gómez) 


E quiçá ele poderia ter contado sua propria morte, tal como escreveu Eduardo Galeano, no seu recente livro "Os filhos dos dias":

Hoje, morri.
No ano de 1937, fiquei sabendo que tinha um câncer incurável.
E soube que a morte, que me perseguia desde sempre, havia me encontrado.
Eu enfrentei a morte, cara a cara, e disse a ela:
- Acabou esta guerra.
E disse a ela:
- A vitória é sua.
E disse a ela:
- Mas o quando é meu.
E antes que a morte me matasse, eu me matei.

(Pode ser que Horacio Quiroga Tivesse contado assim sua própria morte - "Os filhos dos dias", Eduardo Galeano)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Cansei

Cuando aprendí braille para leer tus cicatrices…
Raquel Bullón Acebes


Deixa. Cansei. Deixa assim. De alguma forma deixa disso. Volta, cansei, volta só hoje, à noite, açoite. Cansei. Estou faminto agora e não quero discutir. É difícil julgar apenas pela casca antiga. A lâmina já não corta e seu cheiro não sai dos meus dedos. De fato, cansei. Nossa vida não era isso. Ouça. Quando ficou assim? Deixa, coloca os pratos e comamos em paz, sem falar, sem olhar, sem dar-nos autênticos motivos, ou sim. Sem sermos você e eu. Eu sei, está fria, a comida, nossa vida, seca de nós, e não volta aonde ia quando íamos juntos. Lembra? Troca. Cansei. Pela última vez, sejamos rápidos de passos, de saídas, de encontrar algum novo canto abandonado, até para lamentar no escuro. Depois correr ou chorar. De leve. Deixa pular primeiro desta corda. Tempo de menos repartido em dois, ou em três, diga. Não sei. Chegamos até aqui, veja, separados o bastante, pela proximidade. Nada. Ninharia, migalha. Droga de vida. É quase isso. Deixa por tanto. Cansei.

Do meu livro: "Suicidas - Os modos de falar à parede"

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Mais sobre o lançamento

Lançamento
Muitas pessoas (O auditório do Sesc teve que ser ampliado com mais cadeiras...), prestigiaram o lançamento do meu 5 livro “Suicidas – Os modos de falar à parede”, realizado na sexta-feira, dia 9. Muita gente ligada à cultura, educação, escritores, ao novo executivo (o vice-prefeito eleito Jean de Liz e esposa), ao Legislativo (o presidente da Câmara de Vereadores José Thomé), imprensa, família, amigos... Agradeço novamente ao SESC (leia-se Volmar, Sidneia e Rodrigo) pela organização e sucesso desta nova edição da Feira do Livro.

Sobre o lançamento (1)
“Caríssimo amigo, escritor, poeta, jornalista Gabriel Gómez: Ainda estou emocionada com o lançamento especial de seu livro SUICIDAS que ocorreu ontem no SESC de Rio do Sul. O coração palpita mais alto quando diante de um escritor, poeta que se desnuda para seu público e brinda á todos com emoções muito cálidas. É preciso ter imensa coragem para mostrar o âmago de si mesmo. E, GABRIEL GOMEZ sabe fazer isto como um ícone em plena seara. Na presença de amigos, familiares e sua veneranda mãe ele, o poeta levitou. Foi realmente uma festa!”
Saudações da escritora Apolônia Gastaldi.

Sobre o lançamento (2)
“Vivenciei ao lado da minha filha Belisa, nessa sexta-feira, às 7 e meia da noite nas dependências do Sesc no Budag (Parabéns pela estrutura do Sesc). O lançamento do livro "Suicidas", Os modos de falar à parede, do escritor e meu amigo Gabriel Gómez. Muita gente presente, algumas que eu não via a muito tempo. Foi muito bom. Uma frase do livro "A VIDA CUSTOU PARA ENTRAR NAS PALAVRAS." O livro é muito bom! Parabéns Gabriel...”
Comunicador Lorival Goulart.

Sobre o lançamento (3)
Gabriel! Parabéns por mais este lançamento de seu 5º Livro. Você tem hoje um importante papel no cenário da Literatura e da Cultura de Rio do Sul e região. Tens o reconhecimento no estado, tens grande reconhecimento em sua tão amada e querida terra Argentina. Para mim você é fonte inspiradora para muitos que ainda timidamente soltam as primeiras palavras no papel, para aqueles que desejam, mas não tem a coragem de se mostrar ao público. Você pode e tem poder para alavancar muitos escritores de seus berços adormecidos. Assim escreveu o nosso Vando (Adorivano Bento) no dia nacional do escritor em 24/07/2012: "Na leitura de um bom livro, o conhecer não lhe esconde/ O livro fala e pergunta, a alma se deleita e responde/ Ler é sonhar acordado, (...) é derrubar as barreiras (...).
Marta Rejane Trindade de Lima, Bibliotecária Grupo UNIASSELVI/FAMESUL
Pedro Klock, Diretor Grupo UNIASSELVI/FAMESUL.

Sobre o lançamento (4)
“Nascido em Buenos Aires, riossulense de alma, um presente para nossa cidade. Gabriel Gómez transcende a palavra e nos presenteia com lindas obras literárias, não é a toa que nesse ano foi merecedor do prêmio “Sucesso Empreendedor na Cultura”. Lutador incansável da valorização da arte no nosso município, Gabriel tem o dom da escrita e uma “língua afiada”, qualidades importantes no nosso tempo, onde nem todos têm a coragem de se expressar... Participou das coletâneas “Livro do Esquecimento” e "Nada tem nome", do projeto SESC e disso nos orgulhamos também. Publicou “A Culpa é do Livro, em 2008; “Borges e outras ficções” em 2009. Em 2010 publicou "Cerimônias do silêncio". E no ano de 2011 lançou o seu quarto livro: "Exercícios da Ausência”. E hoje, temos o prazer de compartilhar com o Gabriel o lançamento de seu quinto livro "Suicidas: Os modos de falar à parede".
Palavras de Sidineia Köpp- Técnica de Cultura do SESC, na abertura do lançamento.

Leituras e comunicadores
Lourival Goulart (rádio Mirador), além de colocar no seu Blog o evento, leu no programa de sábado alguns dos poemas do livro “Suicidas”, no quadro a música da minha vida.
Também o comunicador Cícero Luis (Rádio Mirador) foi com sua família ao lançamento do livro e me entrevistou no seu programa da tarde.
Alem de uma longa entrevista ao vivo, o comunicador Alex Policarpio (Super rádio Difusora/ESPN) esteve prestigiando o lançamento do meu livro no SESC.
O programa Holofoty´s do Fabiano Schneider (Rede BA) prestigiou e acompanhou todo o lançamento com imagens e entrevistas.
A Rede BA e RSTV fizeram para seus respectivos jornais, diversas entrevistas e imagens do evento.
O diário “Folha do Alto Vale” publicou uma longa matéria e fotos sobre o livro e minha carreira de escritor.
Às meninas do Blog “Vale por elas” (Rita e Fabi), pela alegria, fotos e presença e ao Marcos (e esposa Luciane) pela cobertura da Revista Sucesso...
A todos, meu cordial e sincero muito obrigado!


Leia o livro em formato digital, AQUI gratuitamente:

 
 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Sobre o Lançamento de "Suicidas"

Momento histórico para a literatura de Rio do Sul


O lançamento do livro “Suicidas”, de autoria do jornalista e escritor, Gabriel Gómez, representa um grande momento, para a literatura de Rio do Sul e região.
É válido ressaltar a continuidade da produção literária de Gómez. Em cinco anos, são cinco obras inéditas e com temáticas diferenciadas. Este aspecto, demonstra a relevância do trabalho intelectual do escritor.
Antes da publicação de “Suicidas”, Gabriel lançou  “A Culpa é do Livro”, em 2008. No ano de 2009, publicou “Borges e outras Ficções”. Em 2010, fez o lançamento de “Cerimônias do Silêncio". No ano seguinte, o autor de Rio do Sul editou "Exercícios da Ausência”.
Com esta considerável produção literária, tornou-se o principal escritor da capital do Alto Vale do Itajaí, em atividade, obtendo reconhecimento da sociedade e das pessoas que apreciam o universo literário.
A Associação de Escritores do Alto Vale do Itajaí e os amigos da literatura de nossa região, orgulham-se deste fato e acreditam que o trabalho de Gabriel, poderá servir de inspiração para novos autores, que sonham em publicar os seus escritos. Inclusive, o escritor riossulense já ganhou concursos literários e, consequentemente, teve os seus escritos divulgados em âmbito estadual e nacional.
Em termos de história da literatura de Rio do Sul e do Alto Vale do Itajaí, são poucos os autores que alcançaram a marca de cinco livros publicados. São eles: Alcides Buss, de Salete, Fiorelo Zanella, de Taió, Harry Wiese e Apolônia Gastaldi, de Ibirama, Carlos Schroeder, de Braço do Trombudo, Leonir Pedro Braun, de Imbuia, Lúcia Martins, de Ituporanga, além de Neide Maria de Souza Areco e José Ernesto de Faveri, de Rio do Sul.
São nomes já reconhecidos regionalmente e agora Gabriel passa a integrar este seleto grupo. Além da quantidade de obras publicadas por estes autores, é fundamental salientar a qualidade de conteúdo dos trabalhos. Mesmo com poucos incentivos culturais, no quesito de incentivo à publicação de livros, a região de Rio do Sul e do Alto Vale do Itajaí é destaque, em termos de produção literária no Estado de Santa Catarina.

Jonas Felácio Júnior – Secretário da Associação de Escritores do Alto Vale do Itajaí – Graduado em Jornalismo pela Unidavi, Pós-graduado em História, Cultura e Patrimônio pela Celler Faculdades e cursando a Licenciatura em História pela Uniasselvi/Famesul. Professor de Filosofia na E.E.B. Maria Regina de Oliveira em Agronômica e Professor de História e Geografia na E.E.B. Paulo Cordeiro.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Flores

P:
R: Vendo flores na rua, de porta em porta, de carro em carro, no pequeno posto onde trabalho e me entrincheiro.
P:
R: Não, seria como penitência. A intempérie me protege e agasalha. A rua ensolarada substitui a anestesia.
P:
R: Acho que sim. Apenas diria que aqui tudo se vê, que é mais uma forma de sustento. Minto como todo mundo. Não penso no fim do mês, tenho poucas certezas que o desamor me impôs.
P:
R: Não moço, mas se há que ler, eu leio.
P:
R: É que muitos não sabem, mas de cada uma, ajeito as folhas, rego-as com cuidado, coloco um papel platinado como arranjo...
P:
R: Já fiz muito, agora não, aliás, o mínimo necessário. Não temos nada em comum, não me deixaram nada além de alguns beijos esquecidos e fracassos por toda a minha cara. Voltando: quando posso, falo com elas, baixinho. Renovo-as com carícias. No jardim cresce meu pão.
P:
R: Não, já apanhei muito também. Não vai funcionar comigo. Antes chorava por isso, agora apenas grito: Flores! Flores! Perfeitamente ensaiado. De algum modo, sou cada uma delas com o cheiro dos espinhos, quando a gente se cheira.
P:
R: Sim, mas algumas acabam murchando, perdendo seus verdes e vermelhos, caindo suas pétalas com o mesmo silêncio dos doentes. E vão como se vão as flores.
P:
R: Por isso dá pena jogá-las fora, então peço licença e as levo para casa quando meus braços estão vazios. Acomodo todas em vários copos com água morna, onde os ramos parecem sangrar em silêncio no meio da noite, que é quando bebo, e combina com meu aspecto de muitos metros enroscado nas cobertas, com o resto triste e barato do abandono, a mínima luz, as plantas da varanda, olhos de pedra, e eu atrás, encolhida, paredes cegas e o cheiro de funeral das coisas caladas onde parece não haver paisagem, onde restam poucas claridades, além de um sorriso claro. De manhã, pássaros pousam sobre minhas feridas. Eles acreditam que não os vejo antes de dormir. Divertem-se me cercando. Mas, que importam seus murmúrios, enquanto morro? E se Deus fosse uma decepção total? Às vezes penso que a intuição é seu alfabeto. Só não me peçam saber qual é o sentido de tudo isto. Eu deveria ler a Bíblia. Não sei descrever um quarto escuro onde não cabe o céu na janela.
P:
R: Qualquer coisa. Qualquer. Falo de esperança em gavetas separadas.
P:
Em algumas situações gostaria fazer isso, sim. Passar a borracha, apagar algumas partes e redesenhar a vida de uma forma diferente. Por momentos somos apagados pelo que já não conseguimos dizer. Encobertos pelo extraviado. E é com tanta intensidade que não estamos, que nem palavras nos encontram, que do nó da garganta brota sempre a fome ou apenas flores que morrem e que prontamente usarão para decorar nosso silêncio. Não sabemos que fazer do olhar. O que se vê, é o que falta, o que não fala, o que não volta. Não estamos nem detrás da procissão da ausência; e as suas pernas que se arrastam. Nós, que já não estamos: os invisíveis, os esquecidos, os ignorados e errantes... Os que falam com línguas sem céu. Cada dia desaparecemos um pouco, até completar-nos.
P:
R: Pois é... Tento fazer o mesmo com minha vida. Nem sempre consigo. Vez que outra me alcança um desespero. Abro esta porta, mas o inverno nas flores chega por acumulação. Amor e vento (e eu morrendo). Quando acordo todo dia e vejo que sou a mesma de ontem, penso que não é o bastante. Já não sei aonde ir, mas volto a trabalhar cedo para que nada disto se note.

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