ESCRITOS DO GABRIEL

(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )



"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

sábado, 31 de outubro de 2009

Cartas e diários (5)

O escritor argentino Macedonio Fernández (1874-1952), autor de uma original (muitas vezes inclassificável) e complexa obra, escreve para seu amigo e admirador Jorge Luis Borges, em 1922: “Tem que me desculpar não ter ido ontem à noite. Sou tão distraído que ia para lá e no caminho lembrei que tinha ficado em casa. Estas distrações frequentes são uma vergonha e esqueço de ter vergonha também. Estou preocupado com a carta que ontem concluí e selei para você; como te encontrei antes de mandá-la, tive o aturdimento de rasgar o envelope e -la no teu bolso: outra carta que por falta de endereço teria se extraviado. Muitas de minhas cartas no chegam, porque omito o envelope ou os selos ou o texto. Isto me deixa tão cansado que rogaria que viesse ler minha correspondência em casa.”
Muitos escritos foram abandonados ou perdidos nas inúmeras mudanças e andanças de Macedonio pela boemia de Buenos Aires. Borges o considerava um ótimo e original pensador, se orgulhava ser seu amigo e “tê-lo visto viver”, mas acreditava que não conseguia ser tão eficiente na escrita como na sua conversa sobre literatura, filosofia, especulações metafísicas e as virtudes da meditação solitária. Escreveu muito, publicou pouco, por considerá-lo eventual.
E assim como o identifica o prólogo da sua obra “Museo de la novela de la eterna”, Macedonio é: “Comparável ao diretor da orquestra, anônimo e dando as costas ao publico”.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Poemas dos outros (13)


Certezas biodegradáveis
...porque aquilo que eu penso hoje pode se transformar e virar uma outra coisa amanhã ou depois de amanhã.


(Cabeçalho do Blog da jornalista de Florianópolis, Ana Paula Luckman)
Veja AQUI qual é a proposta dos "Poemas dos outros"

Corpo, limites, beiras (4)

Perdemos alguns contornos de tanto esquecêlos. Como inservíveis elementos de adereço comprados compulsoriamente. E quando tentamos restaurá-los, não entram nem as pequenas certezas. Alguns escapam, encontram o único lugar possível para sair, e caem, estimativamente, pela margem do erro.
Mudamos, e as mãos tentam achar elevações e textura; sentir as formas do acréscimo e da redução. Precárias delas mesmas, presenteiam, sem saber, uma nova e frágil borda. Com receio, se abrigam protegidas, embaixo de roupas, nomes, caligrafias e abraços que reduzem os tamanhos. Os gestos invadem as fronteiras da calma. Entre o corpo e a roupa existe uma distância enorme. Uma contém a figura da outra, e é preciso abandonar, desamparar as velhas, para receber as novas. Sou explorador do meu desconhecido, desperto para novas jornadas e não resisto ao apelo de uma porta fechada por dentro.

Nossas contiguidades são partes da relação topológica com o mundo; tangível não apenas com objetos concretos, palpáveis, de fenômeno previsível. Frágeis, de pequenos confins, apontados com giz ante uma nova alteração. Na superfície de entrantes e salientes, com orifícios e aberturas que levam às profundezas íntimas, reservadas, que se ocultam e revelam nos sentidos. Assim olhamos seus contornos, atingimos seus limites, cheiramos seus odores, provamos seu gosto e podemos sentir o barulho de vozes, as nossas, quando abordam ouvidos e ambientes.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Cerimônias do silêncio (12)

Onde escondo as asas?

(Porque enamorar-se é um ato individual, e mesmo que a outra parte não saiba nunca, certas mudanças não podemos fingir nem ocultar...)


Veja,
minhas mãos criam ombros e braços,
e se abrem
de costas ao céu,
e sem vento voam
todas as gaiolas
com meus pássaros.

Onde escondo as asas?

Mãos calam outras mãos
alcançam outros espelhos
e se alongam imensas,
tremulas
como mar.

Veja
finjo que chego com meus pés,
que sou lento,
que não te quero
e não passo do chão.
Mas nem encosto nele,
voo estupidamente nu
neste céu inverso
e seu vazio de revelações.

É o instante que mostra
sem palavras,
com ausência,
cada pássaro na pele
que treme
no brutal silêncio.

Como volto ao chão?

Transparente,

vulnerável.
Nada parece meu
nem o exílio voluntário,
nem teu olhar escrito,
onde a mudez prende
as palavras neste prego.

Veja
Minhas mãos criam ombros e braços!
E se abrem.

Veja
Minhas mãos sem vento acendem!
Onde escondo as asas?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Autografados e abandonados (4)

El dulce
daño,
Alfonsina

Storni
(1918)
Primeira

edição
autografado

(muito raro)

Alfonsina Storni foi uma poetisa argentina nascida na Europa em 29 de maio de 1892. Imigrou com os seus pais para a província de San Juan na Argentina em 1896. Em 1901, muda-se para Rosário (Santa Fé), onde tem uma vida com muitas dificuldades financeiras. Trabalhou para o sustento da família como costureira, operária, atriz e professora.
Seus primeiros livros de poemas foram “La inquietud del Rosal”, “El dulce dano” e “Irremediablemente”. Entre outros livros, destacam-se entre suas obras ‘Ocre”, “El Mundo de Siete Pozos”, “Mascarilla” e “trébol”.
Descobre-se portadora de câncer no seio em 1935. O suicídio de um amigo, o também escritor Horacio Quiroga, em 1937, abala-a profundamente.
Em 1938, três dias antes de se suicidar, envia de um hotel de Mar del Plata para um jornal, o soneto “Voy a Dormir” (publicado logo de forma póstuma). Consta que se suicidou andando para dentro do mar — o que foi poeticamente registrado (com partes destes versos) na canção "Alfonsina y el mar" (veja o vídeo), gravada por Mercedes Sosa; seu corpo foi resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938 em Mar del Plata (no lugar foi levantado um monumento). Alfonsina tinha 46 anos.


Vou dormir
(Encaminhado a um jornal como despedida e recebido após cometer suicídio)

Dentes de flores, touca de sereno,
Mãos de ervas, tu, ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.

Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada à cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho

Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos

Para que esqueças… obrigado. Ah, um encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que saí…

Agora que já sabe da história, veja o vídeo...





segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Cerimônias do Silêncio (11)


Placa

Eis aqui
mais um silêncio inaugurado
que morre por querer nomeá-lo.

Poemas dos outros (12)

Crises

Árvore. Asfalto.
Mar. Caneta.
Tem um urubu enorme
sobrevoando as nossas cabeças...
Você não viu aquele gnomo que
passou correndo por aqui?
O teto está cheio de bolhas...
e os caranguejos estão descendo
pela parede.
Eles vão me pegar!
O mundo conspira contra mim.
Vou te contar um segredo:
tenho poderes para-normais.
Sei tudo o que você está pensando
sobre mim.

(Relatos de dois esquizofrênicos recordando seus momentos de surto.)


Veja AQUI qual é a proposta dos "Poemas dos outros"

sábado, 24 de outubro de 2009

Verdade, mentira (1)

O livro da mentira deve ter, com certeza, muitas páginas. Enquanto existe uma verdade, parece haver infinitas argumentações contrárias. E não precisa ser oposta. Um milímetro fora, já é outra coisa qualquer, deturpada, inexata. (Que dizer então quando se apresentam entrelaçadas?) Seu universo é muito mais amplo, espaçoso. E neste ambiente, tudo é provável. Onde a verdade é gasta, obsessiva, a mentira se derrama aberta, caudalosa de brilho alheio. E o que parece pior: enquanto uma dói, a outra se apresenta como piedosa, fácil e suave ao paladar. Uma não tem preço, a outra se vende, cede constantemente e estuda-se como arte. Dois lados do mesmo rosto; um verossímil, outro inacreditável. Mentir para não magoar; o sabor amargo da verdade e a doce mentira engolida, que lambe, consola. Juntas, uma coalha a outra, abarrotando limites, perdendo sabores e princípios. E não contrastam. A mentira é lubrificada, a verdade é a seco.
Alejandro Dolina disse ter, no bairro portenho de Flores, dois livros mágicos: um é o livro da verdade; o outro, da mentira. O incrível desta história é que, enquanto o primeiro contém todo tipo de noção exata, revelações únicas da origem do mundo, as fórmulas da arte, até o complexo processo do amor, e o segundo só consigna falsidades, dados corrompidos, levando ao erro quem, porventura, possa e queira consultá-lo; existe um detalhe sinistro nos dois: o livro da mentira é falso até mesmo no seu título, e passa pelo livro da verdade. Os desafortunados leitores acreditam ter consultado o outro livro. Assim, não há quem pense que suais ideias são oriundas do volume da mentira...
(Trecho do texto "Verdade, mentira" do livro Borges e outras ficções)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Borges no Banheiro (2)

Alessandro Martins, do Blog de Curitiba Livros & Afins, destaca nosso post sobre a gravação de Jorge Luis Borges no banheiro... E afirma: "Eu só acredito ouvindo...". Já tem comentário duvidando que esta gravação exista... Ele pede para que alguém me ajude a colocar o arquivo de som no Blog...
Eu continuo na espera...

Autografados e abandonados...(3)

Teatro quase Completo,
Nelson Rodrigues

Editora Tempo Brasileiro,
1965, Exemplar nº 4550
Autografado em 1965.
- A mulher sem pecado
- Vestido de noiva
- Álbum de família
- Anjo negro

Nélson Falcão Rodrigues (Recife, 23 de agosto de 1912 — Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1980) dramaturgo, jornalista e escritor.
Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino).
A vida foi cruel com o autor. Aos 17 anos, perdeu o irmão Roberto, assassinado aos 21 anos. Dois meses depois da tragédia, morreu o pai, Mário Rodrigues. Por causa da tuberculose, Nelson internou-se diversas vezes. Uma úlcera lhe causava dores terríveis e uma hemorragia intra-ocular o deixou parcialmente cego. Joffre, o irmão mais novo, morreu vítima da tuberculose, aos 21 anos. Perdeu o irmão Paulinho num desabamento. O filho Nelsinho ficou preso durante sete anos durante o regime militar. A filha Daniela nasceu cega, surda e muda.
Todas as tragédias da vida ele transformou em peças de teatro, contos, crônicas e romances. Machista, tarado, reacionário. Chamem-no do que quer que seja, sempre será o pai da moderna dramaturgia brasileira. Abriu caminho para o uso coloquial da língua e inovações na temática dos textos teatrais. Colocou no palco, pela primeira vez, a vida cotidiana do subúrbio carioca. A obra é vasta: escreveu 17 peças, centenas de contos e nove romances. Além disso, fanático torcedor do Fluminense, foi um dos maiores cronistas esportivos de todos os tempos.
Algumas das obras: Vestido de noiva (1943)· A falecida (1953)· Os sete gatinhos (1958)· Boca de ouro (1959)· Beijo no asfalto (1960)· Toda nudez será castigada (1965) e um sem fim de crônicas (A vida como ela é) copiladas em diversos livros.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Borges e seu "John Thomas" no banheiro

Na última viagem a Buenos Aires tive vários encontros com o amigo, jornalista e escritor Esteban Peicovich.
Falamos do tempo que era correspondente na Espanha dos mais famosos jornais da Argentina, dos diversos livros publicados, das históricas reportagens com Perón, Anthony Burgess e claro, Jorge Luis Borges. E é justamente dele a passagem mais curiosa e absurda de uma das tantas reportagens que fez ao escritor argentino. (Na foto, Esteban Peicovich e Borges caminhando por Buenos Aires).
Esteban conta que começando já a gravar, Borges (cego) lhe pede que, por favor, o ajude a ir até o banheiro. O detalhe é que a gravação não para, e ele o conduz do braço, colocando-o de frente ao vaso sanitário. Assegura sua bengala, dá um passo para trás e fica na assistência... Quando acontece o seguinte diálogo (gravado, inédito, e que eu tenho a felicidade de ter no meu arquivo em MP3, e não sei como colocar isso aqui no Blog...)


- Sabe - pergunta Borges, começando a urinar – não falamos ontem de John Thomas?
- Como disse? - Pergunta Esteban – não sei, acredito ter ouvido algo sobre esse autor, mas...
- Ahhh – replica Borges – Não sabe quem é John Thomas? Pois é o nome coloquial do ca.... em inglês. E Lady Jane é da bu... (Nota: em espanhol Borges falou “Pija”, que é uma gíria bastante vulgar do pênis...). John Thomas and Lady Jane... John a secas não teria graça. Mas John Thomas sim. Por isso ninguém se chama John Thomas na Inglaterra. Que curioso, não? É o nome que queria colocar Lawrence ao amante de Lady Chatterley... – finaliza.
Quem conhece seu jeito formal, oratória polida e intelectual, custa acreditar nisto...
Na gravação que tenho se escutam gargalhadas no meio da conversa... Se alguém sabe como colocar este arquivo aqui, me disse, que divido esta curiosidade “erótica” e desconhecida do Guru da literatura Argentina.

Poemas dos outros (11)

Passos

Palmas da mão
Dorso
Espaço entre os dedos
Polegar
Articulações
Unhas e pontas dos dedos
Punhos




(Cartaz de instruções e desenho para a técnica de “lavagem das mãos”)

Veja AQUI qual é a proposta dos "Poemas dos outros".

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Escritores do Sul...

Agradeço ao Editor do Site "Escritores Universais do Sul do Brasil”, (http://www.escritoresdosul.com.br) Leandro Rodrigues, por incluir meu nome como catarinense (tem honra maior?), entre a lista de gaúchos e paranaenses, e nele, minha biografia e comentários sobre meus livros.
A nova edição do Site destaca o trabalho da blumenauense Urda Klueguer, do gaúcho Mario Quintana e do paranaense Paulo Leminski.

Vale a pena conferir...

Cartas e diáros (4)

No diário de Kafka (1883 – 1924), o autor de textos complexos que retratam a contradição do universo humano, seu destino está configurado em um trecho, em anotação feita em 21 de agosto de 1913: “O meu emprego é insuportável porque contradiz o meu único desejo e a minha única vocação, a literatura. Como sou apenas literatura e como não quero nem posso ser outra coisa, o meu emprego não poderá nunca seduzir-me, só poderá, pelo contrário, destruir-me totalmente”.
Conquistou a realidade e os pesadelos da sua ficção, embora tenha perdido parte de seus sonhos ou eles tenham sido sua própria literatura. Com depressão e tuberculose, servindo ainda seu nome para sinônimo de surreal, obscuro, angustiante, foi quem atravessou fronteiras literárias jamais antes alcançadas.
É nossa dívida com o autor.
Em vão, mandou queimar sua obra após sua morte. Até seus diários (agora como género literário) e cartas foram publicados pelo seu amigo Max Brod...
Numa carta ao amigo Pollak, Kafka afirma: “Muitos livros são como uma chave de aposentos desconhecidos no castelo do próprio eu”. Noutra carta, também a Pollak, de 1904, ele disse: “Penso que só devemos ler livros que nos mordam e nos aguilhoem. Se o livro que estamos lendo não nos desperta numa sacudidela, como uma pancada na cabeça, para que perder tempo em lê-lo? Um livro deve ser o machado como qual devemos romper o mar congelado dentro de nós”.
Numa das tantas biografias sobre o autor, existe uma de Ernst Pawel (Editora Imago, 453 páginas), da qual quero transcrever alguns dados:
“Kafka cresceu odiando seu corpo. Tinha horror à intimidade física. O sexo era, para ele, a quintessência da imundície, a antítese do amor”, relata Pawel.
Numa carta a Milena Jesenská, uma de suas paixões, Kafka escreveu: “Tento constantemente comunicar algo incomunicável, explicar algo inexplicável, falo de algo que sinto apenas em meus ossos e que só pode ser experimentado nestes ossos. Basicamente, nada mais é do que o medo sobre o qual tão frequentemente conversamos, mas um medo que tudo recobre, medo do gigantesco e do minúsculo, medo, um paralisante medo de pronunciar uma palavra, embora esse medo talvez não seja medo, mas também o anseio de algo maior do que tudo aquilo que amedronta”. Ele queria “escrever como uma forma de oração”. Kafka, diz Pawel, era “não um homem que escrevia, mas alguém para quem escrever era a única forma de ser, o único meio de desafiar a morte em vida”.
Um detalhe curioso e intrigante (?!) do livro: Pawel diz que Kafka pensou em morar no Paraguai.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Cerimônias do Silêncio (10)

Bem ai

Na faca, na sombra, na pedra,
no que o ruído esquece, no nunca,
nas letras da fumaça do frio,
nas fotos de costas, na porta fechada,
na luz da vela, no abandono, no céu,
na carta perdida, na casa imensa,
no que evapora e dorme profundo,
no corpo feito cadáver, na oração,
no além de si mesmo, na cobardia,
na dança da colher na taça,
no livro no peito de quem dorme,
na cadeira virada, no acordar,
na nada que antecede a dor,
ao tremor, ao fim,
no balão perdido, na espera,
no vomito da fome, no adeus,
na nudez, no umbigo, na poça
que reflete a nuvem que passa,
no medo que golpeia a boca,
no que nunca fui,
bem ai:
o silêncio das coisas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Argumento

"Uma das melhores formas de contar uma história rapidamente é propor seu argumento a outros, reconhecendo que, por nossa incapacidade, complexidade ou ócio, nunca a escreveremos. Narrar o assunto da suposta história sempre será mais fácil que efetivamente escrevê-lo, mesmo que esta também seja uma das formas de poder fazê-lo. Mas cuidado para que, no traço das palavras, não se enxergue sua imagem refletida. Ou sim: afinal, ninguém escreve impunemente."

Trecho do conto "Argumento", do A culpa é do livro.

domingo, 18 de outubro de 2009

Autografados e abandonados...(2)

Odas Elementales, Pablo Neruda.
(Outro dos meus tesouros...)

Editora Losada, Buenos Aires,
Segunda Edição, 1967.
Autografada e dedicada em 1970
por Neruda com sua típica caneta verde.

Deste livro: Ode à Poesia

Perto de cinqüenta anos
caminhando
contigo, Poesia.
A princípio
me emaranhavas os pés
e eu caía de bruços
sobre a terra escura
ou enterrava os olhos
na poça
para ver as estrelas.
Mais tarde te apertaste
a mim com os dois braços da amante
e subiste
pelo meu sangue
como uma trepadeira.
E logo
te transformaste em taça.
Maravilhoso
foi
ir derramando-te sem que te consumisses,
ir entregando tua água inesgotável,
ir vendo que uma gota
caia sobre um coração queimado
que de suas cinzas revivia.
Mas
ainda não me bastou.
Andei tanto contigo
que te perdi o respeito.
Deixei de ver-te como
náiade vaporosa,
te pus a trabalhar de lavadeira,
a vender pão nas padarias,
a tecer com as simples tecedoras,
a malhar ferros na metalurgia.
E seguiste comigo
andando pelo mundo,
contudo já não eras
a florida
estátua de minha infância.
Falavas
agora
com voz de ferro.
Tuas mãos
foram duras como pedras.
Teu coração
foi um abundante
manancial de sinos,
produziste pão a mãos cheias,
me ajudaste
a não cair de bruços,
me deste companhia,
não uma mulher,
não um homem,
mas milhares, milhões.
Juntos, Poesia,
fomos
ao combate, à greve,
ao desfile, aos portos,
à mina
e me ri quando saíste
com a fronte tisnada de carvão
ou coroada de serragem cheirosa
das serrarias.
Já não dormíamos nos caminhos.
Esperavam-nos grupos
de operários com camisas
recém-lavadas e bandeiras rubras.

E tu, Poesia,
antes tão desventuradamente tímida,
foste
na frente
e todos
se acostumaram ao teu traje
de estrela cotidiana,
porque mesmo se algum relâmpago delatou tua família,
cumpriste tua tarefa,
teu passo entre os passos dos homens.
Eu te pedi que fosses
utilitária e útil,
como metal ou farinha,
disposta a ser arada,
ferramenta,
pão e vinho,
disposta, Poesia,
a lutar corpo-a-corpo
e cair ensangüentada.

E agora,
Poesia,
obrigado, esposa,
irmã ou mãe
ou noiva,
obrigado, onda marinha,
jasmim e bandeira,
motor de música,
longa pétala de ouro,
campana submarina,
celeiro
inextinguível,
obrigado
terra de cada um
de meus dias,
vapor celeste e sangue
de meus anos,
porque me acompanhaste
desde a mais diáfana altura
até a simples mesa
dos pobres,
porque puseste em minha alma
sabor ferruginoso
e fogo frio,
porque me levantaste
até a altura insigne
dos homens comuns,
Poesia,
porque contigo,
enquanto me fui gastando,
tu continuaste
desabrochando tua frescura firme,
teu ímpeto cristalino,
como se o tempo
que pouco a pouco me converte em terra
fosse deixar correndo eternamente
as águas de meu canto.

Música para um domingo

The Branford Marsalis Quartet, trilha do filme "Mais e melhores Blues"

sábado, 17 de outubro de 2009

Corpo, limites, beiras (3)

Palavras são tentativas de aprisionar idéias, colocar balizas, extrema de letras e som, confinando aquilo que pensamos definir, (de) limitar conceitos. Aquelas que não conseguimos pronunciar, as não ditas, se acumulam no corpo como finos cristais quebrados, sutis armaduras de cacos que aumentam o volume. Outras, como simples vidros, são páginas transparentes que se antepõem a tudo. E ainda que pareça grande por fora, se apequena por dentro. A pele se eriça, incapaz de reconstruir-se. O limite acumula fantasmas, rastros e ilusões. O tempo passa por ele com marcas. Os objetos não, ficam estacionados, ocupando o lugar da emoção. O corpo se arrepende, paralisa, nutre-se do nada.
As coisas se enganam, pensam que são outras, quebrando-se aos pouquinhos, mas permanecem nelas, iguais, as mesmas delas mesmas, com capacidade de ressurreição. Reordenam-se, e reaparecem quando são chamadas. Limites são desafios, afrontas, inexatidões. Provocam confusão e nem todos são suaves ao gosto. Ou não existem e estão ao ponto extremo de florescer. Quando não reconhecidos, esbarram, tropeçam nos outros, provocam dor. Devemos a eles nossas sombras, que também são intervalos mal projetados. Alongados ou pequenos nas formas, irreconhecíveis, fugindo da luz, embora se alimentando dela. Nossos contornos se desfiguram em outra figura. Queremos recobrá-los, tortos, mutáveis, irreversíveis. Assim como formas que alcançam um espaço à força de tanto imaginar. E os espelhos reclamam o direito pela exclusividade da imagem, sofrendo raras histerias.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Cerimônias do Silêncio (9)

Queria dizer

Queria dizer que
alguns vidros foram
quebrados por pássaros confusos
que não enxergaram
o aparente infinito
refletido.
Que a luz morreu na
sombra do que não nasce.
Que a voz, insuficiente,
parece infantil
quando queremos falar
chorando.
E que tentei dizê-lo sem a boca,
com todos meus olhos,
como quando calo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Autografados e abandonados...

Entre os diversos livros, guardo um lugar especial para aqueles autografados. Levam a marca e respiram o ar do tempo em que foram datados. Sintome transportado àquela hora. Outros, incompreensivelmente, mesmo com assinatura e dedicatória para seus leitores, foram esquecidos e deixados de lado em algum sebo. Que destino ou castigo imposto levou alguém a abandoná-los? Tomavam muito espaço ou a nova cor amarela das páginas não sustentou sua nova leitura? Prometeram uma literatura que não foi cumprida? Qual foi a falha? Onde foram vencidos seus acertos? Que caminhos percorreram até perder-se da estima? Talvez até contem uma história mais curiosa e triste que a do próprio livro. Sinto-me na obrigação de resgatá-los, como se estivesse devolvendo ao autor, e a suas páginas, o carinho e respeito que tiveram na hora da sua assinatura.
Antigos e contemporâneos convivem em harmonia com assinados rejeitados comprados de terceiros. Assim como o filho perdido que volta pra casa. Mesmo adotados, são próximos e amados por igual. Em muitos outros, que guardo com mais zelo ainda, aparece meu nome. Sempre exerceram grande fascínio e agora quero dividir isso com vocês...
Nota: Para começar esta série de livros autografados, hoje quero mostrar um dos grandes contistas brasileiros, avesso a qualquer tipo de entrevista e divulgação da sua imagem (alias, pouca gente sabe como ele é, e algumas poucas fotos que circulam são antigas ou tiradas de longe, sem autorização...). Dalton Trevisan, o "Vampiro de Curitiba". Um dia conto como consegui esta dedicatória no livro...

Poemas dos outros (10)

Céu ou inferno

É dividida em corpo, asas, braços ou descanso, pescoço ou inferno e cabeça, céu ou lua. Também pode ser com casas numeradas e no Céu, descanso. Jogam impelindo com um único pé uma pedra chata até a Lua e volvendo ao princípio do corpo, a primeira casa, sem socorrer-se do outro pé. Apenas no descanso é permitido pôr um pé de cada lado. Quem consegue chegar ao céu vira de costas e atira a pedrinha de lá. A casa onde ela cair passa a ser sua e lá é escrito o seu nome. Nestas casas com "proprietário", nenhum outro pode pisar, apenas o dono, que pode pisar inclusive com os dois pés.


(Algumas instruções para “O jogo da amarelinha”)



Veja AQUI qual é a proposta dos "Poemas dos outros"

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Twitter?

Já foi duro quebrar a enorme barreira de ter um Blog, comprometer-se na sua atualização, interesse e tudo mais. Relutei por muito tempo, mas aqui estou... E não é que agora alguém sugere: Gabriel, porque não entras no Twitter assim podemos seguir-te?
Seguir-me? - respondi com os dizeres daquele decalque que vi num carro: “
Não me siga... eu também estou perdido.”

Corpo, limites, beiras (2)

Concordo com quem disse que acredita mais no alfaiate que nos antigos amigos. Ele toma sempre novas medidas, avaliações de adjacências e arrabaldes do meu corpo, e assim chega o mais próximo possível dos meus contornos atuais. Os amigos, não. Continuam com as velhas estimativas, talhes ultrapassados de mim mesmo, com aqueles que alguma vez tomaram de olho, há muito tempo, e querem que eu caiba nelas, que seja sempre aquilo que uma vez já fui. Ou que eles pensaram que fosse. E ficam com os cadáveres passados expostos, sem distinguir que continuamos respirando em outros formatos, e trocamos de mobília.
Mudo sempre minhas balizas. Transbordo de todas elas. Embora existam limites que não queiram reconhecer novas conquistas, levam tempo para sair de nós, esquecer-nos. Ficam que nem carrapatos abocados na carne, colados nos corpos, com a obsessão da perda, da queda, do estrago. Entre o cheio e o vácuo, o repleto e a nada. Outros fazem parte dos pedaços que perdemos e não juntamos, vão e voltam trazendo outros, e demoramos em reconhecer que alguma vez foram nossos. Sem saber, vamos cunhando novas formas ainda não criadas na menção, reveladas apenas na muda visibilidade do silêncio.



Do livro Borges e outras ficções

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Cerimônias do Silêncio (8)

Do porque não fui...

Não era uma nuvem.
Parecia, mas não era.
Algumas, não todas,
são compostas por partículas mínimas
de temores em suspensão.
Quando caem, formam receios
e molham silêncios
que falam para não ver-te.

Livros... livros...

"As pesquisas na internet muitas vezes o conduziam a uma mal resolvida experiência de se internar no caos. Definitivamente era de outra época e não aspirava a isso. Estava cansado de suas constantes dores nas costas, de erros literários dos inúmeros livros impressos on line e – porque a tela colorida definitivamente não era comparável ao livro – da falta das inúmeras sensações que lhe proporcionavam, ao tocar com seus sentidos cada obra. Depreciativamente considerava que a biblioteca virtual não passava de uma fotocopiadora universal de textos, imagens e sons.
A rede tinha transformado as bibliotecas numa sinfonia de vários movimentos que vão desenvolvendo as informações disponibilizadas no mundo, mas sem cheiro de livro, sem a
textura das páginas, sem as dobras trazidas pelo tempo. Para ele, nada substituía a visita a uma biblioteca. Ela era o símbolo da fugacidade das suas certezas e algumas mal curadas crises de claustrofobia. Aquilo que o dicionário definia como “Impressão produzida no olfato pelas partículas odoríferas emanadas dos corpos voláteis ou dissolvidos”, parecia-lhe insuficiente no seu conceito aplicado ao livro.
Ficou espantado com a notícia de que pesquisadores da Universidade de Cambridge tinham descoberto um novo método para prevenir a deterioração de livros antigos. Demonstraram que, no momento que começam a se decompor, emitem uma complexa mistura de componentes orgânicos – entre eles, ácidos voláteis –, que produzem um cheiro característico. Tomam amostras do ar em diversas áreas da biblioteca, com o propósito de determinar as que têm alto conteúdo de ácido, o que indicaria que naquele local existem volumes em decomposição.
O cheiro dos mais antigos era seu bálsamo preferido. Um simples aroma de livro no ar era capaz de trazer de volta uma carga emocional semelhante a seu desespero por possuí-lo. Mas detestava os arrumados, quase formatados. Gostava deles marcados, de preferência surrados de tão lidos, usados, para assim lê-los pelos olhos de muitos, mas com uma liberdade escondida só dele."


Trecho do conto "Sombras dos personagens", do "A culpa é do livro".

domingo, 11 de outubro de 2009

Cerimônias do Silêncio (7)

Ainda

Ainda que me agarre
ao que cai junto;
das alegrias imperfeitas de
algumas certas tristezas;
da única perna que
consegue dançar;
do último que se dá
quando se perde;
do que me escrevo
quando me apago;
das pequenas perguntas
maiores que eu;
do que nada disse,
dizendo;
da maçaneta solta
que fica na mão;
do que não sei contar
nem com dedos ou palavras.
Ainda me seguro
ao que chamo de
vida.

Música para um domingo...

Anos de solidão - Piazzola e Gerry Mulligan

(Acredito ser a trilha dos textos deste Blog)

sábado, 10 de outubro de 2009

Corpo, limites, beiras (1)

A beira é a medida. Quando chegamos ao contorno, temos que parar ou extravasar, recuar ou persistir, cessar ou prosseguir. Dar-lhe fuga. A beira nos faz suicidas. Construímos bordas querendo aprisionar o conteúdo.
Temos medo e colocamos limites. Modificamos margens procurando por mais espaço. Em tese, o espaço é sempre o mesmo, o que buscamos é que seja nosso, possuí-lo, invadir, ampliar territórios conquistados. Agir em torno, explorar. Alongar paredes levantadas.
Alguns têm fobia às beiradas, mas se acostumam. Muitas não fecham, não coincidem. Nossos limites parecem diferentes. Que parte oculta revela sua
geografia? Que espaço ocupa perante outros corpos? Corpo, embrulho, pequeno maço da alma. Demoramos a medir-nos e, assim, desconhecemos quanto avançamos ou retrocedemos. E perdemos a marca da bainha das extremidades. O quanto está perto ou longe da margem. À beira de nós mesmos. Formas, curvas, ângulos que desenham rasgos de identidade. Extrapolando-o com barrigas, cabelos e unhas que superam nossos próprios alcances. Quem corta as unhas se desfolha. Elas crescem e extravasam, prolongando-nos. Unhas que formam vírgulas ou luas no seu estado crescente, e parecem encaixar-se nas abrangências. Vírgulas e luas cortadas, engolidas ou cuspidas boca fora. Que não param nem quando morremos, iludindo a própria vida. Nossas cinzas se expandem no ar, invadindo alcances figurativos, criando novos contornos. E o invisível se mostra. Não temos apenas limites e, sim, portas. Finas capas de incertezas.

Do livro Borges e outras ficções

Poemas dos outros (9)



"Sim"


(Palavra em letras minúsculas que John Lennon encontrou ao subir numa escada e olhar com uma lupa o teto na exposição de arte vanguardista “pinturas e objetos inacabados” em 1966. Graças ao positivismo desta mensagem, Lennon quis conhecer sua artista... era Yoko Ono. O que aconteceu depois já é história... Um simples “Sim" muita vezes é poesia e abre inúmeras e surpreendentes possibilidades...)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Cartas e diáros (3)

Correspondências e diários de escritores e artistas de alguma maneira completam suas obras. Possuem um algo a mais, revelam um componente que transcende a mesma arte; talvez até, quem sabe, seu lado mais humano.
Assim, muitos deles se encarregaram de construir um vasto e curioso acervo epistolar. E acabam, por este meio, completando, aperfeiçoando sua criação. Revelando intimidades, medos, bastidores, preferências. Assim como qualquer um de nós.
Lembro de Van Gogh, Cortázar, Borges, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Kafka, Caio Fernando Abreu e tantos outros missivistas, que fizeram das cartas ou diários uma nova obra. Cada uma é inevitavelmente autobiográfica, confessional e acaba por formar também seu retrato.
Paradoxalmente, os inúmeros e-mails (muitos mandados sem pedir, outros esperando em vão por resposta) e diversas modalidades de mensagens instantâneas não parecem suprir a intimidade, dedicação e importância do ritual da correspondência redigida em papel de carta e encaminhada pelos correios. De introdução, meio e fim; de cuidados para que cheguem, de respostas lentas e esperadas, de acervos. Cartas escritas quase de silêncios, cuidadosamente guardadas e arquivadas, de necessária preservação da memória.
Fica uma dúvida para o futuro: assim como na atualidade existem inúmeras publicações que coletam e recobram a troca de missivas entre autores, intelectuais e família, continuará havendo para uma posterior leitura, este tipo de literatura em tempos de Internet?

Poemas dos outros (8)

Preceitos

Flutuar
Não mandar
Brincar com tudo
Viver poeticamente
Superar o controlável
Superar o plano físico
Dar-se conta
Provocar movimento
Acreditar num mundo invisível além do plano físico, além dos "longe" e dos "perto".
Não se distrair
Deixar tranquilo a Deus.

(Alguns dos preceitos de uma suposta “nova religião” criada na década de 60 pelo artista performático Federico Manuel Peralta Ramos)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Cerimônias do Silêncio (6)

Seu ir-se

Perdi teu último nome,
que de tão transparente,
caiu dentro de mim.
E seu ir-se
foi tanto
que volta num adentro,
teu não voltar.

Pequenas ficções (4)


Incompreensivelmente,
a agulha perdida no palheiro,
encontra outra no seu lado.
Já o cachorro que revira o lixo,
a seu amigo dentro.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Só empresto o que puder presentear

"...Sem ordem, uma biblioteca seria um simples depósito de livros. Cada um revelado ao lado de outro, e este, ao lado de um terceiro, ramificando-se pelas prateleiras, ganha vida, multiplicando-se entre estantes e corredores, procurando a biblioteca ideal, completa, inconcebível. Quando a vida cai, o mundo se desvanece e ela, iluminada por vozes, vira paraíso. Livros abrem portas, entortam vigas e podem levar à liberdade absoluta. Na biblioteca descobri minha tábua de salvação, antídoto, lâmpada dos pedidos e desejos. Uma ilha, na qual ancorei. Uma ilha chamada livro, à qual gostaria que chegassem as respostas escondidas, quando tudo o que ela consegue fazer é me trazer mais desejos. Eles sacodem, mordem e me ferem como a mais dolorosa das desgraças, e me recuperam com o remédio diluído na tinta preta impressa no papel. No acúmulo e no desprendimento, achei companhia e consolo."

Trecho do conto "Só empresto o que puder presentear" (A culpa é do livro).

Poemas dos outros (7)

Não

Erro inesperado.
A porta já está aberta
Uma operação está pendente
Não há pontos de extremidade
Não é possível encontrar a chave
A rota não está disponível
Não há resposta
Impossível alocar a memória
Sua porta está fora de alcance
O tempo da solicitação expirou
Não pode ser salvo.


(Algumas das mensagens de erro que surgem na tela do computador...)


Veja AQUI qual é a proposta dos "Poemas dos outros"

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Gracias a la vida... (e a Mercedes, que seguirá nos dando sempre tanto...)


Reportagem do diário "Folha do Alto Vale", onde falo da falta que fará a "voz" de Mercedes Sosa. (Para ler, clique na imagem...)

Poemas dos outros (6)

Ela

Cona, biriba, rosa, xiruba, xerea, mata, tabaca, perseguida, xereca, pomba, cabeluda, prexeca, gaveta, garanhona, vulva, choca, xirica, pataca, caverna, gruta, fornalha, urinol, chambica, poça, xiriba, maldita, brecheca, camélia, “os meios”, Boninha, nhaca, petúnia, babaca, crica.

(Relação de nomes dados ao órgão sexual feminino, que a escritora Hilda Hilst, 1930 - 2004, aplica como sinônimo na obra “Cartas de um sedutor”)

Veja AQUI qual é a proposta dos "Poemas dos outros"

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Cartas e diários (2)

Tenho um exemplar do livro "Cartas perto do coração" dedicado e assinado pelo escritor Fernando Sabino e outro por Clarice Lispector. A obra engloba a correspondência mantida entre eles, no período de 1946 a 1969, e retrata a paixão pela literatura, suas dúvidas, amor e reflexões. Intimidades de jovens escritores em inicio de carreira. Cartas que revelam uma amizade de confidências e os desafios do destino comum.Adicionar imagem
Clarice Lispector: “Passo o tempo todo pensando – não raciocinando, não meditando – mas pensando, pensando sem parar. E aprendendo, não sei o quê, mas aprendendo”.
“Não trabalho mais, Fernando. Passo os dias procurando enganar minha angústia e procurando não fazer horror a mim mesma”.
Fernando Sabino: “A arte não nos satisfaz porque não passa disso: é o testemunho de nós mesmos”. “Estou fuçando vago, e ultimamente ando cada vez mais tolerante com a vaguidão das palavras”.
Clarice não deixa de ser muito rude consigo: “Estou vendo que não disse nada, que não é nada disso, e estou vendo que estou bastante perdidinha. Estou sempre errando”, torturava-se. Fernando Sabino não ficava atrás: “Tudo o que tenho feito cada vez corresponde menos ao que eu queria fazer”.
O falso romantismo da criação dá lugar a fragilidades, ao doloroso processo que a envolve.

Cerimônias do Silêncio (5)

Abuso

Não,
o silêncio
apenas abusa em ouvir-se.
Nele, a palavra
pássaro
não consegue voar.

O pássaro sim.

domingo, 4 de outubro de 2009

Poemas dos outros (5)

Anúncio

Alugam-se duas salas para mulheres bem-arejadas


(Anúncio citado numa reportagem de 1988, pelo escritor Mario Quintana, que afirmava que “os verdadeiros poetas não lêem os outros poetas. Os verdadeiros poetas lêem os pequenos anúncios dos jornais”.)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Pequenas ficções (3)


Eram cegos.
Porém se apaixonaram pelo que ninguém enxergava neles.

Erótico

"...Leia-me, exige calmamente. Mas leia-me em voz alta, parece suplicar. Decifro-a pelo tato. Sou minucioso no conteúdo. Soletro a clave. Seu enredo a expõe. Beijo a portada, adivinho o prefácio e sua trama me conquista... Nessa ordem. E fazemos alma. Em que edição estamos?
Afirmo, nego, ardo, suspiro, duvido e acredito. Não peço mais do que me dá. Libero minha anarquia. Sou seu cio. Sua promessa de esquecimento de outras juras. Olhos que apagam todas as memórias. Vida latejando dentro... Briga de cegos por alcançar a luz (lume de simples lamparina). Iluminados à força de tanta sombra. Invejo-lhe a fé.

Uma vez tentou fazer as malas e ir embora para sempre. Não queria ser de ninguém e negou seus favores. Disse que não, mas deixou a porta entreaberta. Uma poesia veio buscá-la. Abandonou seu beijo na gaveta e um cemitério de confidências embaixo da cama.
Era mais longo meu dia, que o dia longo. Solitário de mim, peregrinei por dentro, procurando-a. Seu silêncio era uma pequena obra de arte. E choveu vontade de vêla. Falou, escutei... Contrariei até minha própria voz. Foi a chuva que tudo transforma. E a realidade emudeceu por falta de fôlego. Quando estava aqui, não a tinha. Foi, e hoje a tenho. – me diz amor, eu estava perdido ou não sabia voltar? Nossa reconciliação demorou cinco dias e o dobro disso em noites... E ainda ecoa nas paredes. Posso ouvir..."


Trecho do conto "Erótico".

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Poemas dos outros (4)

"O abraço d´alma"
(Nome da foto tirada no mundial 78 pelo fotógrafo argentino Ricardo Alfieri, que mostra um torcedor sem braços, no meio do campo de futebol, inclinado, "abraçando" do seu jeito, aos jogadores da seleção Fillol e Tarantini, que comemoravam abraçados, de joelhos, a vitória sobre a Holanda no estádio Monumental de Nuñez.)
Veja
AQUI qual é a proposta dos "Poemas dos outros"

Policarpio

A célere da aragem amofinou seu rebento. As nuances pareceram dissipadas em conspurco. Não sobrestava de precipitar. Policarpo trazia um aleive imêmore no epítome da retentiva. Lobrigou uma charneira, arredou o tálamo, assentou e ficou altercando. Não abichou a findar seu escopo. Apetecia ter arrazoado, sentiu-se acoimado, sorumbático. Era carapeta, caraminhola ou figmento? Não perfilhava com fidúcia e carpir-se como infante não seria o rebate. O estipêndio tinha acabrunhado e apenas soçobravam alentos encanecidos. Sentiu-se um cardisplicente. A promissão dela foi perpetrada. Ao partir, levou seu imo, cerne e tutano. A fúcsia ruiu ate o báratro da disgra. Agora a expiação o acabrunhava macambuziamente. Para que abespinhar-se, apoquentando a avaria? Apenas abocou os sobejos e nímios para voltar a ser mais um ludíbrio joliz para outra nubente consorte.

(de "Borges e outras ficções)

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