ESCRITOS DO GABRIEL

(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )



"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Colher amarga


Cada palavra
como colher amarga
que não serve nunca
até o fundo da boca
ate o fim da voz
segue dizendo esperando
interminavelmente
fundindo-se insuficiente
levando meu cansaço angustia medo
minhas noites todas
pedaços alongados
como uma demorada gota
suspensa enchida
tremendo palpável
ameaçando
pulsando caindo
você os outros
eu mesmo
em mim.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Máscaras


Imperceptível.

(Quantas vezes escrevi a palavra escrever?
                            Quantas a palavra palavra?)

Com este lápis
sem ponta e
abecedários de silêncios lambidos,

transcrevi

o disfarce da grafia,
fios da linguagem, antigas cinzas,
como máscaras daquilo nunca visto.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Os dias

Mesmo
caindo
imóveis
até o fundo
da boca
que passem
tão secos
caduquem
traduzam tudo
e depois não

os dias

pisoteiam
por onde ela passaria
e já não passa.

Porque
ainda novamente
Porque
hoje ainda.

Inútil dizer mais.

domingo, 17 de julho de 2011

Poesia no SESC (19 a 22 de julho)‏


Nesta semana o SESC, Rio do Sul, oferece uma programação cultural diferenciada com ênfase na poesia. O objetivo dessa programação é que a cidade pare para ouvir poesia em seus mais diversos suportes e estilos, rediscutindo essa linguagem e apontando para uma reformulação do entendimento e ampliação do conceito de poesia por parte do público ouvinte. As atividades são gratuitas e serão realizadas nas dependências do SESC. As inscrições nas atividades podem ser realizadas por telefone. Outras informações podem ser obtidas na Central de Atendimento do SESC (47 3521 2798). Abaixo seguem as atividades que integram a programação:

19 de julho
15h30 – Poesia ao Pé da Lua – intervenções poéticas realizadas nas ruas da cidade.

19 de julho
19h – palestra: O que é poesia?, com Gabriel Gómez.

20 de julho
19h – exibição do documentário Por acaso Gullar, direção: Maria Rezende e Rodrigo Bittencourt.

19h15 – palestra: Ferreira Gullar: poeta social, com Ivo Ferrari.

21 de julho
10h30 e 15h – Roda de Leitura Poética – Biblioteca do SESC

22 de julho
19h – Zunido de Poema, com Ryana Gabech e Toucinho Batera (Florianópolis/SC)

Zunido de Poema é uma performance poético-musical criada a partir do livro de poemas Álbum Vermelho, 4º livro da poeta Ryana Gabech. Ao som da bateria e do teclado, os poemas ganham cor, cheiros e gostos. A poesia e a música saltam juntas em um contexto lírico e ritmado, levando ao público as preciosidades rebuscadas das composições de Ryana e a genialidade excêntrica e virtuose do músico Toucinho Batera. Transitando entre as notas irrequietas e a tradição oral de se dizer poesia, a parceria entre músico e poetisa vibra entre temas sobre o feminino, a transformação, a delicadeza e o sonho. A dimensão sonora da imagem sugerida pela palavra, transposta às notas, teclas e batidas levam o espectador a lugares e primaveras que só a música e a poesia conseguem compor. É assim que Ryana e Toucinho apresentam “Zunido de Poema”.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Não há

Não há esperança.
Nenhuma.
Não há final feliz
qualquer.
Nem outro amanhecer
sem dor.
Haveremos de continuar
sem lágrimas,
respirando a pouca luz,
este sonho,
a vida distraída,
a justiça prometida,
o sempre.
Perguntando-nos:
e se alguém estivesse invadindo?
E se permanecesse aqui,
envolvendo, convidando...?
Alguém que não soubesse
que não há esperança,
apenas postergações da mesma dor,
e mesmo assim, resgatasse a fé,
o abandono, um antes e um depois,
como se importasse,
como importam,
as coisas que foram, caíram,
anteciparam sua morte, batendo,
batendo sempre a mesma porta,
e nós acuados, no canto, sem querer ouvir,
porque não há ninguém,
ninguém para atender,
para levar ou trazer
seu amor.

Não há.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Com outras vozes

Minha voz, amarrada
a uma árvore,
faz cantar pássaros
com outras vozes.

Braços tendidos,
crescem em mim as folhas,
ninhos e um som antigo.

Árvores cantam sua existência
nua de pés, mãos e sol.
Nelas, o vento alivia nuvens,
foge de cores,
lágrimas silvestres,
meias palavras
de voar imóvel.

Cai a chuva
de olhos apertados,
listrando o
céu azul sujo.

Um frágil galho
bebe no chão
outra sede
desta água.

Musgo
como tato,
como impressão digital,
abraço íntimo.
Protegido, agregou carinho,
amparado.

Sou o alheio,
o mais meu que amo.
Tão outra coisa!
Sou o secreto ventríloquo
cheio de pássaros.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O Gregório da regininha

A escritora e amiga Regina Carvalho fará o lançamento do seu livro Gregório de Matos - Poemas, no dia 12 de julho em Florianópolis. Além do seu convite, publico um poema do seu livro.
O autor, que nasceu em 1636, apelidado de Boca do Inferno ou Boca de Brasa, também foi advogado. Considerado o maior poeta barroco do Brasil e o mais importante poeta satírico da literatura em lingua portuguesa no período.
Parabéns regininha por mais esta obra!


E POIS CORONISTA* SOU

Se souberas falar também falaras
também satirizaras, se souberas,
e se foras poeta, poetaras.
Cansado de vos pregar
cultíssimas profecias,
quero das culteranias
hoje o hábito enforcar:
de que serve arrebentar,
por quem de mim não tem mágoa?
Verdades direi como água,
porque todos entendais
os ladinos, e os boçais
a Musa praguejadora.
Entendeis-me agora?

Permiti, minha formosa,
que esta prosa envolta em verso
de um Poeta tão perverso
se consagre a vosso pé,
pois rendido à vossa fé
sou já Poeta converso

Mas amo por amar, que é liberdade.

* Coronista: cronista.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

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