ESCRITOS DO GABRIEL

(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )



"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Deixando-nos

Vamos-nos deixando em todas as partes.
Em todas as digitais, salivas, beijos, sangue,
feridas mal curadas.
Nas fotos que já não reconhecemos,
nos traços que arrastamos,
no suor, lagrimas
que achamos que limpamos.
Vamos-nos perdendo
nas unhas que roemos,
na urina que destilamos,
na pele que nos escama, nos envelopes que fechamos.
Vamos-nos diluindo
nas águas do banho,
dos rios, nos pelos,
dejetos que escondemos,
na espuma que nos limpa,
na roupa que habitamos.
Fragmentamo-nos em camas, despedidas e
abraços. Estamos no ar, jardins,
em outros corpos, tatuados, no pó,
mesmo antes de retornarmos.
Apodrece o que se cala
com olhos que nunca esquecerias.
Na voz que deixamos na memória
quando partimos, com desapego,
abandonando
o passageiro que levamos.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Trapézios

Galhos altos despencam em silêncio,
encostando, se dispensam dos outros.
Cansados, apagam seu nome,
a memória de pássaros,
flores e trapézios.
Notam que o céu fica mais longe.
Quem poderá saber o que dizem,
quando esperam no chão,
a pisada de quem passa e
não traduz o som seco
do seu último tremor?

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Honrar à vida

Na minha visita a Buenos Aires, assisti a um espetáculo que no final destacou a música de Eladia Blasquez, "Honrar la vida"... Ela já foi cantada por Mercedes Sosa e queria compartilhar sua letra, sua emoção e mensagem, na minha tradução... (No final, o vídeo de Mercedes Sosa, ao vivo).

Honrar à Vida
Eladia Blázquez

Não! Permanecer e transcorrer
não é perdurar, não é existir
nem honrar à vida!
Há tantas maneiras de não ser,
tanta coincidência sem saber
adormecida.
Merecer a vida não é calar nem consentir,
tantas injustiças repetidas...
É uma virtude, é dignidade!
E é a atitude de identidade mais definida!
Isso de durar e transcorrer
não nos dá direito de enaltecer.
Porque não é o mesmo que viver...
Honrar à vida!

Não! Permanecer e transcorrer
nem sempre quer sugerir,
honrar à vida!
Há tanta pequena vaidade,
em nossa tola humanidade
enceguecida.
Merecer a vida é erguer-se na vertical,
além do mal, das quedas ...
É como dar à verdade,
e a nossa própria liberdade
as boas-vindas! ...
Isso de durar e transcorrer
não nos dá direito de enaltecer.
Porque não é o mesmo que viver...
Honrar à vida!


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Nada tem nome

Este longo poema sobre a palavra, que eu dividi em 5 partes, ficará no Blog enquanto viajo para Buenos Aires nesta semana...
Espero que seja uma boa companhia.
Até a volta...



I
Palavras acordam junto, lambem o rosto,
abrem os olhos, engolimos a seco
parte deste arranhado ar,
do silêncio último,
atravessado.
Repetem rituais, se retraem
e dividem a muda coreografia
do mesmo caminho vazio,
o estreitam,
nada chamam pelo nome, desconhecem apelidos.
Se algo pode ser dito, não é o dito.
Empurram e mudam a distância das coisas,
(por isso algo sempre faz falta em algum lugar),
extraviam alfabetos, blindam afetos de mãos e gestos
entrelaçados, perguntas sem respostas, de perdão e graça,
asas de amores passageiros, misturam ao seu nosso sentimento,
batem na parede o silêncio do avesso, sangram
na página em branco, fecham e abrem janelas, gaiolas,
portões de longos ecos emperrados pela ferrugem;
precisam arrumar o dia,
as que chegam, as que estão, juntam seus pedaços
entre os elementos, querem ser escolhidas,
se confidenciam, não fazem ruído.
Não acordam direito.

II
Parece espontâneo, mas está previsto:
palavras conjeturam, forjam todas as prisões e celas
(alguns olhares nem conseguem mais falar,
mesmo que as coisas procurem sempre lugares nos olhos...),
enforcam línguas, engolem vida, solitária vida,
de constantes chiados,
se ocultam, não passam pela mesma porta,
pela mesma boca, frias, se quebram e continuam,
atravessam a cara em muitas órbitas,
sua linha não entra na agulha,
já não explicam nada.
Palavras esfolam palavras,
no centro, no meio de nós,
adornos.
E tu, como aqueles artistas de rua,
do circo da rua,
que levam a tocha com fogo para a boca
e cospem combustível nas chamas,
incendeias algumas no hálito, no grito que não volta;
quando elas se tocam, te tocam,
escoam, se apalpam de mãos úmidas, já não pesam,
já não passam, germinam em mundo novo, sem terminar,
ainda em construção, em combustão,
possível.

III
Que atirem então poemas pela casa, pelas fábricas,
nos ventos, na cara, nos quartos, nos palcos, na carne,
nos cômodos da oração;
que atirem em tentativas desnecessárias,
de poesias desnecessárias, artificiais,
de poetas dispensáveis, ociosos, não lidos, engavetados,
sofridos, que sobram, conspiram, inúteis, errados,
teimosos poetas de livros encalhados,
de palavras em excesso, cansadas, contaminadas,
onde nada entra, nada falam, que abortam,
abreviam, lapidam, que atiram e falham
em pedaços de lembranças a ponto de esquecer.
(Esquecimentos em palavras
que não foram,
mas foram
as primeiras
a não chegar).

IV
Acorda que acordam palavras
que entendo e não sei falar.
Em silêncio tentam dizer teu nome...
Qual deles?
Quanto é suficiente?
Cai o que não consegues dar.
Cada uma delas é uma caixa da china,
que guarda uma outra menor, e outra,
e outra, e outra depois... E na última nada,
está vazia.
Envelopes sem cartas.
São sempre outras, as mesmas.
Roupas das vestes do traje sem corpo,
de alma e corpo tatuados,
o caleidoscópio da palavra palavra,
que copia e altera a voz que não tem,
a fumaça de letras que respira.
Tudo está dito e ainda poderá se dizer,
ou não.
Voltarão muitas vezes, e logo, a última.
Quando elas caem, as plantas não crescem,
as pedras não rolam, os parques ficam em silêncio,
pássaros desaparecem,
cresce limo nas costas das coisas.
Não sabem por onde começar a chorar.
Qual será a primeira da manhã?
Golpeia ou acaricia?
Teremos sol? Qual será o inventário?
Qual delas beberemos até saciar-nos?
Sabemos e ignoramos.
A língua não assemelha às coisas que nomeia
e faz tudo falar.
Onde dói o coração imaginário?
Na palavra luz já estava sua sombra, seu contorno,
o pó, cinzas, restos do fogo e anjo,
preenche o corpo que mora até voltar a esvaziar-se.
Tudo arde. Podes ouvir?
Nos chama com um nome que não é nosso,
a palavra fala antes de poder dizer.

V
Cresce infinita tua voz na voz de hoje,
e a devolve resumida,
te pronuncia e guarda com anotações à margem,
mordendo a beira dos lábios,
tocam-se nas bordas, assopram
coisas que calam e que poderiam tocar-te, enumerar-te,
neste som que te reinventa, que te acorda, te encosta,
que volta, te traz aqui, necessária, urgente,
te decifra incompleta, atravessa a carne
e lhe dá forma a meus ouvidos:
Você, real,
o melhor que poderia oferecer o dia
e não tem nome.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Limites

A beira é a medida.
Quando chegamos ao contorno,
temos que parar ou extravasar, acuar ou persistir,
cessar ou prosseguir.
Dar-lhe fuga.
A beira nos faz suicidas.
Construímos bordas querendo aprisionar o
conteúdo. Temos medo, colocamos limites.
Mudamos margens para mais espaço.
Embora seja sempre o mesmo...
Buscamos que seja nosso, possuí-lo,
invadir, ampliar territórios conquistados,
alongar paredes levantadas.
Agir em torno, explorar.
Muitas, não fecham, não coincidem.
Nossos limites parecem diferentes.
Não temos apenas fronteiras, e sim portas.
Corpo, embrulho, pequeno maço da alma,
finas capas de incertezas.
O limite acumula fantasmas, rastros e ilusões.
O tempo passa por ele com marcas.
Os objetos não, ficam estacionados,
ocupando o lugar da emoção.
O corpo se arrepende,
paralisa, nutre-se do nada.
No fundo, somos bairristas. Queremos invadir,
mas voltar para onde já estamos.
Navegar ancorados, ir seguros pela corda guia,
não sair da mão firme, genitora.
Colocamos nossas bandeiras para identificar conquistas
e possessões, delimitamos a nova extensão com sinais,
cheiros próprios e da infância,
mas ambicionamos secretamente
nos perpetuar no mesmo espaço, nas coisas
que nos cercam e esperam; olhar remoto,
distante, mas da mesma janela,
a nossa.

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