ESCRITOS DO GABRIEL

(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )



"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Pequeno trecho de poema de Alejandra Pizarnik

Não,
as palavras
não fazem amor
fazem ausência
Se digo água, beberei?
Se digo pão, comerei?

Alejandra Pizarnik,
"Nesta noite, neste mundo"

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Busto de Borges


Você conhece alguém que além de ter toda uma biblioteca dedicada a Jorge Luis Borges, ao lado desta, exiba também um busto do escritor?

Pois é... Cada louco com seu tema...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A poesia é traduzível?

Muitos dos acessos a este Blog vêm de paises de língua hispânica. Seus visitantes reclamam que não entendem ou entendem muito pouco... Eu já pensei por diversas vezes tentar traduzir alguns dos meus escritos ao espanhol, mas um texto do Blog Digestivo Cultural “A poesia é traduzível?”, fez que este projeto, por enquanto, seja adiado.
O referido texto, de autoria de Ivan Junqueira, questiona no seu começo:“Gostaria de iniciar esta conferência com duas perguntas que me parecem cruciais: 1) em que consiste, exatamente, a arte de traduzir?; e 2) seria a poesia traduzível? Antes de respondê-las, porém, conviria tecer aqui umas tantas considerações que, de certa forma, já envolvem uma espécie de resposta. Os vocábulos "traduzir", "tradutor" e "tradução" têm sua origem no latim traducere ou transducere, ou traductio e traductor, que possuíam sentido diverso, mas continham a ideia fundamental de "fazer passar, pôr em outro lugar".”

Leia o texto na integra AQUI.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Poemas dos outros (25)



Abominação á vida torta
Eu sou a porta
Luz no escuro
Oração eficiente
Fiel até debaixo d' água
Água abençoada
Cuspe de Cristo.

(Alguns nomes de Igrejas evangélicas)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Errante

- ...No meu caso muitas vezes penso que digo isto com meus olhos... Que sou ouvida pelos olhos... Ninguém sabe quando faremos uma pequena ou definitiva desaparição...

- Pequenas ou definitivas desaparições? É mágica? Ouvida pelos olhos?

- Sim, não sabe que eles falam? Que dizem muitas coisas que a boca se cala... Ou não sabe como dizer...

- Como quê?

- Que posso não voltar. Que podemos não voltar! Que desaparecemos. Você já viu alguém pela última vez? Não se lembra de como eram seus olhos, seus olhares, como foi toda a cena? Tente lembrar... Se soubesse que era a última vez, e se tivesse prestado mais atenção a isso, saberia que estava se despedindo. De alguma forma os olhos comunicam isso. As pessoas podem não saber, mas seus olhos, sim... E os momentos não voltam... Temos apenas alguns poucos e toda uma vida para arrependermos-nos, ou não, de ter feito a coisa certa.

- Lembro de algumas pessoas, que depois que soube que foi meu último contato com elas, tudo o que fizeram, calaram ou falaram, tomou outro sentido... Outro significado. Não sei se eram os olhos... Mas as palavras ditas naquela vez, agora parecem dizer outra coisa, alguma mensagem oculta... Ou talvez nada. Muitas vezes me arrependi de não ter tido más tempo para elas ou falado outra coisa... Mas ai já é tarde...

- Acredito que ninguém tira de nós nada. Ao contrario, te libertam das coisas para que possamos voar mais leve, mais alto...

(Trecho do diálogo dos personagens da peça de teatro - em construção - "Errante")

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Oliverio Girondo, Obra Completa

Já tinha lido alguns livros e poemas de Oliverio Girondo, mas o volume "Obra Completa", coordenado pelo professor argentino da UFSC, Raul Antelo, consegue somar a vanguarda da sua poesia com depoimentos, descobertas, pesquisa, críticas e analises da sua obra dando um panorama completo da sua inesgotável literatura.

Encadernado com sobrecapas, 798 pp. Ilustr. Scipione cultural, 1999, encontramos estudos de Jorge Schwartz, Francine Masiello, Patricia Artunto, entre outros. Traduções de seus poemas por Augusto de Campos e Eliot Weinberger. Assim como depoimentos de Borges, Mariátegui, Mario de Andrade, Manuel Bandeira, etc.

Antelo conta a preparação deste trabalho, em espanhol, num trecho da carta publicada no suplemento cultural "Ñ", onde esclarece e contesta, parte do trabalho de Jorge Schwartz (que não entraremos no mérito agora):

"En 1989, Amos Segala, director de la colección, convoca en San Pablo a una serie de críticos para asumir la tarea de editar algunas obras que integrarían la lista de Archivos, según las premisas de la crítica genética. Schwartz recibe la incumbencia de editar la obra narrativa de Oswald de Andrade (aún inédita) y yo, la poética de Girondo. En sucesivos viajes a Buenos Aires, descubro materiales, hasta entonces desconocidos, que permitieron avanzar las dos hipótesis más interesantes de relectura de esa obra. Primero: que los poemas vanguardistas del carnet de voyage no son otra cosa que la refuncionalización de las crónicas mundanas, modernistas y anónimas, que Oliverio publica en la revista Plus Ultra en la década del 10 y, segundo, que no hay como interpretar el trabajo del poeta sin una red de artífices de la modernización, lo cual se lee tanto en el poema inicial de Espantapájaros (que no sería posible, como claramente se ve a partir del manuscrito, sin el concurso de un tipógrafo cómplice), o bien en los poemas de la arché, fruto de sus exacavaciones arqueológicas en el cementerio Quilmes del NOA, cosa hasta entonces ignorada y que prueba ser de enorme trascendencia porque establece una sutil pero sólida línea de continuidad con la poética antropológica de Arturo Carrera, el mejor heredero de la poética de Girondo. En suma, la edición Archivos propone una relectura posmodernista de la vanguardia. No estuve solo en ese proceso. Me acompañó un equipo integrado por Delfina Muschietti, Adriana Pérsico, Tamara Kamenszain, Francine Masiello, la mejicana Rose Corral, la española Trinidad Barrera, Roxana Páez, Patricia Artundo, dos colegas rosarinos del área de arte, Guillermo Fantoni y Adriana Armando, amén de dos poetas, el brasileño Régis Bonvicino y el mismo Carrera, que prologó la obra con un bellísimo poema, en rigor, un meta-poema, “El pie de Oliverio”. Last but not least, Jorge Schwartz. Todos ellos recibieron, con año de anticipación, mi trabajo de cotejo de variantes, manuscritas y éditas, de tal forma que la consigna era inequívoca: basar sus análisis en el nuevo texto establecido por la edición Archives y no ya en la edición Losada que por entonces circulaba..."

Os textos de Girondo continuam contemporaneos com a construção dos jogos de linguagem que desestabilizam a formalidade, e encantando novas gerações de poetas e leitores. A obra do Antelo e sua equipe, resgata, descobre e faz jus a quem se revelou e ousou ir ao limite da metáfora vanguardista.

Cansaço - Oliverio Girondo

Cansado.
Sim!
Cansado
de um usar um só braço,
dois lábios,
vinte dedos,
não sei quantas palavras,
não sei quantas recordações,
grisalhas,
fragmentadas.

Cansado,
muito cansado
deste frio esqueleto,
tão pudico,
tão casto,
que quando se desnuda
não saberei se é ele mesmo
que usei enquanto vivia.

Cansado.
Sim!
Cansado
por precisar de antenas,
de um olho em cada omoplata
e de uma cauda autêntica,
alegre,
desatada,
e não desta cauda hipócrita,
degenerada,
pequena.

Cansado,
sobretudo,
de estar sempre comigo,
de me encontrar a cada dia,
quando termina o sono,
ali, onde me encontro,
com o mesmo nariz
e com as mesmas pernas;
como se não desejasse
esperar a baixa maré com uma cútis de praia
oferecer, sob o orvalho, os seios de magnólia,
acariciar a terra como um ventre de lagarta
e viver, uns meses, dentro de uma pedra.

tradução: Jefferson Bessa

domingo, 24 de janeiro de 2010

Um dia como hoje...

24 de janeiro de 1967
Morre Oliverio Girondo

No estoy.
No la conozco.
No quiero conocerla.
Me repugna lo hueco,
la afición al misterio,
el culto a la ceniza,
a cuanto se disgrega.
Jamás he mantenido contacto con lo inerte.
Si de algo he renegado es de la indiferencia.
No aspiro a transmutarme,
ni me tienta el reposo.
Todavía me intrigan el absurdo, la gracia.
No estoy para lo inmóvil,
para lo inhabitado.

Cuando venga a buscarme,
díganle:
"se ha mudado".


Visita, Oliverio Girondo
(Amanhã, mais deste autor...)

Música para o domingo

sábado, 23 de janeiro de 2010

A casa de Quiroga

A casa do escritor Horacio Quiroga em San Ignacio.
A filmagem é amadora, mas vale a pena pela amostra de objetos curiosos e de época.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Mais Horacio Quiroga...

E já que falamos da trágica vida de Horácio Quiroga, que tal listar o tal polêmico e questionado "Decálogo do perfeito contista"?

I Crê num mestre – Poe, Maupassant, Kipling, Tchekov – como na própria divindade.

II Crê que sua arte é um cume inacessível. Não sonha dominá-la. Quando puderes fazê-lo, conseguirás sem que tu mesmo o saibas.

III Resiste quanto possível à imitação, mas imita se o impulso for muito forte. Mais do que qualquer coisa, o desenvolvimento da personalidade é uma longa paciência.

IV Nutre uma fé cega não na tua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ama tua arte como amas tua amada, dando-lhe todo o coração.

V Não começa a escrever sem saber, desde a primeira palavra, aonde vais. Num conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas.

VI Se queres expressar com exatidão esta circunstância – “Desde o rio soprava um vento frio” -, não há na língua dos homens mais palavras do que estas para expressá-la. Uma vez senhor de tuas palavras, não te preocupa em avaliar se são consoantes ou dissonantes.

VII Não adjetiva sem necessidade, pois são inúteis as rendas coloridas que venhas a pendurar num substantivo débil. Se dizes o que é preciso, o substantivo, sozinho, terá uma cor incomparável. Mas é preciso achá-lo.

VIII Toma teus personagens pela mão e leva-os firmemente até o final, sem atentar senão para o caminho que traçaste. Não te distrai vendo o que eles não podem ver ou o que não lhes importa. Não abusa do leitor. Um conto é uma novela depurada de excessos. Considera isso uma verdade absoluta, ainda que não o seja.

IX Não escreve sob o império da emoção. Deixa-a morrer, depois a revive. Se és capaz de revivê-la tal como a viveste, chegaste, na arte, à metade do caminho.

X Ao escrever, não pensa em teus amigos nem na impressão que tua história causará. Conta como se teu relato não tivesse interesse senão para o pequeno mundo de teus personagens e como se tu fosses um deles, pois somente assim obtém-se a vida num conto.


(Publicado originalmente em julho de 1927, na revista argentina Babel)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Horacio Quiroga: o sentido dramático do real...


Lendo a biografia e obra completa do escritor uruguaio Horacio Quiroga (1878 - 1937) é impossível ignorar os fatos que povoaram tragicamente sua vida.

Talvez por seus exageros na vivência e literatura, a geração que o sucedeu – entre eles Jorge Luis Borges – viu em Quiroga, uma voz antiquada que não seria cultuada.

- Seu pai morre com um tiro (que alguns biógrafos acreditam ser suicídio por problemas econômicos)
- Seu padrasto também se suicida.
- Morrem seus irmãos de doença.
- Mata acidentalmente, tentando explicar como seria o funcionamento da arma, seu melhor amigo, o poeta Federico Ferrando.
- Sua primeira esposa, Ana Maria, se suicida (tinha 15 anos quando queria se casar com ela... Ele 30)
- Suicida-se seu protetor, o ex presidente Baltasar Brum.
- Ele se suicida ao descobrir sua doença.
- Seus dois amigos escritores, Leopoldo Lugones e Alfonsina Storni (com quem tivera um caso amoroso), também se suicidam.
- Seus três filhos, Eglé, Dario e a "Pitoca" se suicidam após a morte do pai.

Toda esta tragédia familiar (aqui retratada de forma resumida) de alguma maneira, está presente no universo literário de seus contos...
O atual Uruguai que visitei em 2009, cultua mais Onetti e Benedetti...
Ainda admiro, que este pequeno país em territorio, seja gigante em nomes e qualidade literaria. A lista seria enorme e fica para a próxima...

A suposta falta de dados (e foco no seu drama) é um proposital incentivo para a busca e descobrimento da sua vida e obra.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Poemas dos outros (24)

ISU

Fome
Sexo
Vento
Mulher
Nua


(Um dos poemas feitos e escritos pelo robô ISU, criado pelo artista português Leonel Moura. Ele dotou o robô de um dicionário baseado num conjunto de poemas de autores conhecidos.)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Autografados e abandonados (11)


Mapas Antiguos”, Três folhas, ensaio original a máquina, corrigido a mão e autografado por Manuel Mujica Lainez (1910 - 1884) comprado num leilão na Espanha.



Um dos raros originais (além de alguns de seus livros com sua dedicatória) que possuo deste consagrado (e pouco difundido por aqui) escritor argentino.
Todas as viagens são impossíveis...”, afirma o ensaio, “...hoje que na despedaçada terra que rompem os caminhos e que as fronteiras se mobilizam orientadas por uma maré vermelha. Por isso, a tentação da viagem retrospectiva ao longo de cartografias remotas, tem hoje, mais do que nunca, um poder de realidade que deriva da vida irreal que vivemos. Não nos é dado ir à Itália, à França, à Alemanha de nossos dias. Nem com a imaginação podemos refazer as rotas que foram familiares, pois ignoramos se as estradas conduzem ainda para as mesmas cidades e se as cidades seguem sendo as mesmas. Uma nuvem espessa cobre o mapa atual do mundo.”
Mujica Lainez foi considerado gentil e educado, de literatura um pouco arcaica, já que evita a palavra muito comum, mas sem buscar o desconhecido para o leitor. Seu texto destaca a reconstrução dos ambientes, graças ao talento para a descrição, rica inventividade, além da formação de crítico de arte. Muitos críticos cultuam sua literatura como a mais fina e requintada da Argentina.
O autor, seduzido pelas doutrinas esotéricas, acreditava firmemente na reencarnação e declarou escrever "para fugir do tempo." Esse é o tema da maioria de suas obras.
Em sua narrativa pode ser estabelecida duas áreas principais: a questão argentina e romances históricos. Sua obra-prima foi Bomarzo (1962).
Ganhou o grande Prémio de Honor da Sociedade Argentina de Escritores - SADE em 1955, pelo romance "A casa",
Prémio Nacional de Literatura 1963 para sua novela "Bomarzo".
A Legião de Honra pelo Governo da França em 1982.
Cidadão Ilustre de Buenos Aires.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

PASSARAM 10 ANOS...


Após 10 anos da tragédia dos acidentes com os ônibus argentinos em nosso estado, o Jornal de Santa Catarina e o Jornal A Notícia realizaram uma longa e completa reportagem.
Não acredito, como disse o escritor uruguaio Eduardo Galeano, em caridade, “Eu acredito em solidariedade. Caridade é tão vertical: vai de cima para baixo. Solidariedade é horizontal: respeita a outra pessoa e aprende com o outro. A maioria de nós tem muito que aprender com as outras pessoas."
A jornalista Magali Moser tomou meu depoimento e escrevi uma pequena e sentida nota daquilo que vivi na época.

Leia a nota AQUI e AQUI.

domingo, 17 de janeiro de 2010

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Prêmio Literário

Trecho da nota divulgada recentemente...

O Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Poesia, edição 2009, divulga o nome dos dez poetas premiados. O livro deve estar pronto em final de julho e será lançado na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que acontece de 12 a 22 de agosto de 2010, no Pavilhão de Convenções do Anhembi. Criado em 2005 o prêmio é um dos mais importantes da literatura brasileira. Os livros são lançados em feiras de livro e em bienais da Bahia, Rio e São Paulo. Em 2009, durante a Bienal do Rio de Janeiro, a antologia foi lançada no estande da Giz Editorial e reuniu escritores e poetas do país inteiro.

Confira a lista dos privilegiados:
1° Colocado – Alexandre Tarlei (São Paulo) – poesia: Sou negro
2° Colocado – Dora Oliveira (Ipatinga-MG) – poesia: Retrato da República
3° Colocado – Vanessa Ratton (Guarujá-SP) – poesia: Cidinha
4° Colocado – Fátima Venutti ((Blumenau-SC) – poesia: Mortalha
5° Colocado – Lílian Porto Silva (Niterói-RJ) – poesia: Faz de conta
6° Colocado – Jussára C. Godinho (Caxias do Sul-RS) – poesia: Dia da Consciência Negra: Indignação
7° Colocado – André Sesti Diefenbach (Porto Alegre-RS) – poesia: Farrapos
8º Colocado – Gabriel Fernando Gómez (Buenos Aires, Argentina) – poesia: Infidelidade
9° Colocado – Valéria Victorino Valle (Anápolis-GO) – poesia: Sou Drumundo
10° Colocado – Carolina Bottura (Belo Horizonte-MG) – poesia: Pré-matura

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Cerimônias do Silêncio (19)

Prova

Estranho.

Um adjetivo,
uma palavra,
(que se junta a esta) outra,
uma voz que articula a palavra.
Virgulas,
pontos.

Pausas.

Eu continuo escrevendo
no ar
com meus cadarços
e me deixo dizer
pelo silêncio.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Poemas dos outros (23)

Bem-vindo

Seja bem-vindo ao mundo em que nada está pronto. Seja bem-vindo ao mundo que o hoje vale por dois amanhãs. E seja lá o que você queira fazer, transformar, mudar, mexer, o importante é que você faça logo, sem medo. Encontre um vazio e preencha. Use sua energia natural. Está na sua mão, é com você. Aproveite que o mundo não está pronto e ame, beije, divirta-se, questione, transforme, recicle, repense, faça. O mundo muda. A gente muda.
No mundo em que nada está pronto, nada está pronto. Seu cabelo não está pronto, sua roupa não está pronta, a cidade não está pronta, a pizza pronta não está pronta, seus amores, seu sonho, seu café, nada está pronto. O escultor olhou para sua obra-prima e disse está pronta. Não estava. E continua não estando pronta.
No mundo em que nada está pronto, a interrogação vem sempre antes da exclamação e o ponto final anda sempre acompanhado dos seus dois irmãos gêmeos. No mundo em que nada está pronto, nada está pronto. Nem esse manifesto. Seja bem-vindo ao mundo em que nada está pronto.


(Texto da campanha publicitária do refrigerante Novo Kuat)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Música para o domingo

A mistura perfeita do bolero com o Flamenco... Ganhador do Grammy.

O pianista cubano Bebo Valdes e o cantor espanhol "El Cigala".

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Viagem...!

Daqui a pouco estarei viajando para Buenos Aires... O blog será atualizado quando puder desde lá, o que oportuniza a busca por textos mais antigos, a releitura daquilo que passou desapercebido por quem não acessou sempre.
Mesmo de viagem (volto logo), estarei postando alguma coisa e vendo (e publicando) os possíveis comentários das visitas.
Fiquem a vontade. Quem lê, também escreve a leitura... Soma, acrescenta, aporta. O leitor Ideal, segundo Alberto Manguel, é também o “sentador” ideal. (Um escritor NUNCA é seu leitor ideal).
Espero que nesta nova busca descubram e se agradem com o silêncio escondido que, querendo ou não, habita em toda escrita...
Abraço e obrigado!

Um pouco de Juan Gelman

Juan Gelman (Buenos Aires, 3 de Maio de 1930) é poeta, jornalista e tradutor argentino. É também, provavelmente, o mais importante poeta vivo da Argentina; vencedor do Prémio Cervantes em 2007, o mais importante da literatura em espanhol.
Tem uma pequena coletânea de poemas publicada em Portugal em 1998 pela editora Quetzal, "No avesso do mundo".
No Brasil há três edições de sua poesia: Amor que serena, termina? (antologia traduzida por Eric Nepomuceno), Isso (traduzido por Leonardo Gonçalves e Andityas Soares de Moura) e Com/posições (traduzido por Andityas Soares de Moura).


Um dos fatos marcantes da vida do poeta foi seu exilio, além de ter parentes e amigos desaparecidos pela ditadura militar e a neta raptada por um policial que trabalhava no campo de concentração uruguaio onde Marcelo (seu filho) e a nora (que chegou lá grávida) estava preso.
Tenho alguns CDs lendo seus poemas... Sua voz marcante, cresce na sua escrita, (escute Aqui).

O jogo em que nos metemos

Se me deixassem escolher, eu escolheria
Esta saúde de saber que estamos muito doentes,
esta fortuna de andar tão infelizes.

Se me deixassem escolher, eu escolheria
esta inocência de não ser um inocente,
esta pureza em que ando como impuro.

Se me deixassem escolher, eu escolheria
este amor com que odeio,
esta esperança que como pães desesperados.

Aqui acontece, senhores,
que eu jogo com a morte.


(de "El juego en que andamos")

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A cegueira segundo Borges...

Trecho da palestra de Jorge Luis Borges sobre a cegueira:

"...Não permiti que a cegueira me derrotasse. Além disso, meu editor me trouxe excelentes notícias: se eu lhe entregasse 30 poemas por ano, ele os publicaria em forma de livro. Trinta poemas. Para isso era preciso disciplina, especialmente quando é necessário ditar cada linha. Ao mesmo tempo, porém, eu tinha suficiente liberdade, porque num ano surgem 30 oportunidades para escrever um poema. A cegueira não foi para mim uma desgraça total. Deveria ser considerada como um modo de viver, nem por isso completamente infeliz; um estilo de vida como qualquer outro.
Ser cego tem as suas vantagens. Pessoalmente, devo certas dádivas às sombras: o anglo-saxão e os rudimentos do islandês. Existe também a alegria de muitos poemas, além de ter escrito livros, inclusive um chamado, não sem alguma duplicidade, como se de um desafio se tratasse, O ELOGIO DA ESCURIDÃO. Os cegos também se sentem cercados de carinho. Todo mundo tem afeto pelos cegos.
O poeta espanhol frei Luis de León escreveu:
Quero viver comigo, gozar o bem que devo aos céus, sozinho, sem testemunhas, livre do amor, do ciúme, do ódio, da esperança, dos cuidados.
Se concordarmos que entre as benesses que nos são enviadas pelos céus está a escuridão, quem poderá viver melhor consigo próprio, quem será capaz de se conhecer melhor, como disse Sócrates, do que um cego?
Gostaria de evocar aqui outros casos ilustres. Não sabemos se Homero existiu mesmo; talvez não houvesse um só Homero mas muitos gregos escondidos sob esse nome. Eles, porém, gostavam de imaginar que o poeta era cego, para realçar o fato de que a poesia é antes de tudo música, e a faculdade visual pode ou não estar presente num poeta.
A cegueira de John Milton foi proposital. Ele estragou sua visão escrevendo panfletos em defesa da execução do rei pelo parlamento. Costumava dizer que havia perdido a vista em defesa da liberdade. Ele falava dessa nobre tarefa e não se queixava por ser cego. Compunha versos e sua memória melhorou. Após cegar, Milton passava muito tempo sozinho. Escreveu um longo poema, PARAÍSO PERDIDO, sobre o tema de Adão, pai de todos nós. Embora cego, Milton conseguia manter na cabeça 40 ou 50 hendecassílabos, que depois ditava às pessoas que vinham visitá-lo. Foi assim que escreveu PARAÍSO PERDIDO.
Vamos lembrar outro exemplo, o de James Joyce. A quase infinita língua inglesa, que tantas possibilidades oferece ao escritor, não lhe era suficiente. O irlandês Joyce lembrou-se de que Dublin havia sido fundada por vikings dinamarqueses. Assimilou o norueguês, depois estudou grego e latim. Aprendeu muitos idiomas, e acabou escrevendo num idioma que ele próprio inventou, difícil de entender, mas que possui uma estranha musicalidade. E declarou corajosamente: "De todas as coisas que me aconteceram, a menos importante foi a cegueira." Parte da vasta obra que deixou foi escrita na escuridão, trabalhando as frases de memória, às vezes passando um dia inteiro preocupado com uma única frase.
Um escritor, um artista ou qualquer pessoa deveria ver nas coisas que lhe sucedem uma como ferramenta, deveria pensar que tudo lhe é dado com alguma finalidade. O que lhe acontece, inclusive as humilhações, fracassos, desgraças, é-lhe dado como uma argila, como matéria para sua arte. É preciso tentar beneficiar-se disso. Tais coisas nos foram destinadas para as transformarmos, a fim de que, a partir das circunstâncias dolorosas de nossas vidas, possamos fazer algo de eterno ou que aspire a sê-lo. Se um cego pensar dessa maneira, estará salvo. A cegueira é uma dádiva.
Pense no crepúsculo. Ao cair da noite, as coisas mais próximas desaparecem, exatamente como o mundo visível se afastou de mim, talvez para sempre. A cegueira não é uma desgraça total. É mais um instrumento que o destino ou a sorte colocou em nosso caminho."

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Cerimônias do Silêncio (18)

Defesa

Sabia
antes de iniciar o interrogatório que,
embora não esteja obrigado a responder,
o seu silêncio poderia ser interpretado
em prejuízo da própria defesa...

O espelho (de mudas verdades)
foi implacável.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Autografados e abandonados (10)

O papel do amor - Antologia de contos - 1978 - Edição Especial Indústrias de papel Simão S.A. (Organização, seleção e notas de Edla Van Steen). Desenhos de Italo Cencini.

Autografado em conjunto por:
Hilda Hilst (Agda)
Ricardo Ramos (Eu fui à fonte)
Lygia Fagundes Telles (Pomba enamorada)
Nelida Piñon (A sombra da caça)
Moacyr Scliar (Os amores do ventríloquo)
Flavio Moreira da Costa (Entre santos e soldados)

Esta rara coletânea de contos, cujo centro de gravidade é o tema do amor, constitui uma boa amostra do que o gênero pode oferecer no Brasil.

Leia AQUI o motivo da minha coleção.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A passagem do ano de Drummond...


Feliz passagem a todos!

PASSAGEM DO ANO

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o
[ calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
[ doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
[ clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do
[ acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
[ séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
[ espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.


Carlos Drummond de Andrade

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