"O suicídio não é querer morrer,
é querer desaparecer."
Georges Perros

Que confissão?
Lágrimas e mar, sal no sal,
na chaga que não cala.
Seu sonho tropeçou, submerso.
Dorme agora,
abraça o abismo claro que também abraça.
Onde guardou sua cicatriz?
Ouvem uma voz vinda das águas?
É naufrágio ou travessia?
Tudo vibra.
Ele vai chamar? Não importa mais.
Deita que a ressaca devolve o poema,
para sempre,
entre duas vidas,
quando não se quer a vida
e abre espaço no mar.
Ainda cheiro essa mesma espuma.
Os pássaros migram, partem,
mas não esquecem Alfonsina,
se entreolham tristes e também veem,
outro sal no mar.
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Naquele lugar, seu corpo, agora talhado na pedra, olha para sempre a maré e pressente as flores que sempre deixam em seus pés.
Alguns dias antes, Alfonsina tinha encaminhado por carta seu poema "Vou dormir", ao jornal "La Nación", que chegou postumamente, como último pedido num bilhete suicida:
Dentes de flores, touca de sereno,
Mãos de ervas, tu, ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.
Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada à cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho
Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos…
Embala-te um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos
encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que saí…*
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Apenas como curiosidade: tenho o livro
"El dulce daño", 1918, autografado por ela.
Primeira edição. Muito raro.
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* O poeta Felix Luna escreveu a letra da música "Alfonsina e o mar", cantada pela primeira vez por Mercedes Sosa em 1969, utilizando parte do poema original de Alfonsina:
Pela branda areia/ Que lambe o mar/ Sua pequena pegada/ Não volta mais/ Um caminho só/ De pena e silêncio chegou/ Até a água profunda/ Um caminho só/ De penas mudas chegou/ Até a espuma. / / Sabe Deus que angústia/ Te acompanhou/ Que dores velhas/ Calaram tua voz/ Para deitar-te/ Sussurrada no canto/ Das conchas marinhas/ A canção que canta/ No fundo escuro do mar/ A concha. // Te vais Alfonsina/ Com tua solidão/ Que poemas novos/ Foste a buscar?/ Uma voz antiga/ De vento e de sal/ Te requebra a alma/ E a está levando/ E te vais até lá/ Dormida, Alfonsina/ Vestida de mar// Cinco sereinhas / Te levarão/ Por caminhos de algas/ E de coral/ E fosforescentes/ Cavalos marinhos farão/ Uma ronda ao teu lado/ E os habitantes/ Da água vão a brincar/ Prontamente a teu lado. // Baixa-me a lâmpada/ Um pouco mais/ Deixa-me que durma/ Ama-de-leite, em paz/ E se ele chama/ Não lhe digas que estou/ Diz-lhe que Alfonsina não volta/ E se ele chama/ Não lhe digas nunca que estou/ Diz que me fui.
(Do meu livro "Suicidas - os modos de falar à parede)
6 comentários:
Gostei demais do seu livro! Uma poesia tocante, viva, que emociona.
Parabéns!
Muito obrigado Lara!
Seja sempre bem-vinda a meus escritos...
abraços.
É por isso que a literatura aproxima: não conhecia sua obra, agora procurando, vejo quanto ela já disse e continua dizendo.
Obrigado.
Oi Gabriel!
Mercedes es mi gran compañía ..... usted sabe.
En la vida y obra de Alfonsina Storni se conjugan emoción, sentimiento y reflexión. Su poesía es humanamente erótica, anhelante de amor, llena de vivencias, poesía del yo angustiado que se cierra en triste suicidio. Creo que la vida es sentir... ella sigue viviendo en sus escritos...
Acerca de su libro, el tiempo lo dirá más de lo que puedo hacerlo!
Besos...
Oi Cassandra...
Não se acanhe no seu espanhol... pode me chamar de "você" e não de senhor ("usted")... rsrs.
É bem aquilo: um clássico é um livro que nunca termina por dizer aquilo que disse.
Obrigado, bjs.
Esclarecimento: quando disse que não conhecia sua obra, estava me referindo a da Alfonsina, e não a sua.
Por uma ano de muitas descobertas!
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