ESCRITOS DO GABRIEL

(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )



"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Borges na biblioteca


Eu que imaginei o paraíso na forma de biblioteca,
também o labirinto do livro de areia,
continuo a decifrar máscaras, tigres,
jogos de armar, metáforas de Alexandria.
Esta biblioteca, que outros chamam de universo,
repete o caos, a ordem, a ficção dos espelhos
e se perde, secreta, remota, infinita. Acompanho
a silhueta de rugas com a mesma ternura de passar a mão
no que dorme. Onde guardo seu tato?
Cada livro insinua-se entre sombras
corredores e silêncios; procurando-a quimérica, completa,
inconcebível mitologia. Funde e confunde a palavra
primeira, náufragos, escritas, mundos de babel
em cartografias mutantes.
Ainda cego, pressinto os livros e a noite,
sua origem e a do tempo.
A certeza de que tudo já está escrito
e seu grande vazio.
Quando a vida cai, o mundo apaga, e ela,
iluminada por vozes, não descansa.
Abre portas, entorta vigas e é lâmpada de perdidos,
salvação. Sacode, morde, fere e me recupera com remédio
de tinta impressa no papel.
Só aquilo que se foi nos pertence.
Continuo nela, fênix, fantasma esquecido, feliz,
e ascendo meus olhos sem luz.
Olho quando ninguém olha, e não consigo esquecer
a soma do que li, perdi
e que ainda guardo como revelação.

5 comentários:

Maria Rodrigues disse...

Seu belo poema mergulha e dialoga com o universo de Jorge Luis Borges. Para demonstrar o que digo, segue os versos do poema On his blindness:

"Ao fim dos anos me rodeia
uma insistente neblina de luz
que as coisas a uma coisa reduz
sem forma nem cor. Quase a uma ideia.
A vasta noite elemental e o dia cheio de gente são essa neblina de luz duvidosa e fiel que não declina e que espreita no amanhecer. Eu queria ver uma face alguma vez. Ignoro a inexplorada enciclopédia, o prazer de livros em minha mão reconhecer as altas aves e as luas de ouro.
Aos outros resta o universo;
à minha penumbra o hábito do verso."

- Parabéns pelo belíssimo poema e pelo blog.

Gabriel Gómez disse...

Maria... Poderia falar dias (ou a vida toda dele...). No blog existem muitas referências a sua escrita, os encontros que eu tive (e que foram publicados no meu primeiro livro), sua infinita literatura e meu encantamento. O poema citado é lindo... Ele sempre destacava que o primeiro mal entendido com a cegueira era pensar que apenas exista a escuridão, a cor preta... Sua cegueira era de cor amarela e o fez enxergar muito mais que nossa curta visão....
Outro bom exemplo de como pode ser forte a relação de amor com os livros, da qual o colecionamento é a faceta mais evidente, nos é dado por Jorge Luís Borges, "Continuo imaginando não ser cego; continuo comprando livros; continuo enchendo minha casa de livros. Há poucos dias fui presenteado com uma edição de 1966 da Enciclopédia Brokhaus. Senti sua presença em minha casa - eu a senti como uma espécie de felicidade. Ali estavam os vinte e tantos volumes com uma letra gótica que não posso ler, com mapas e gravuras que não posso ver. E, no entanto, o livro estava ali. Eu sentia como que uma gravitação amistosa partindo do livro. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade de que dispomos, nós, os homens".
Borges demonstra que existem mais que elementos puramente intelectuais nessa amizade entre livro e leitor, que o ato de ler envolve também uma relação íntima, física, onde vários sentidos participam: o tato (o folhear, o passar a mão sobre a encadernação e as figuras), o olfato (sentir o cheiro do papel, da cola, da tinta), a audição (o gosto de ler em voz alta determinadas passagens), mais raramente o paladar (o hábito pouco recomendável de umedecer a ponta dos dedos com a língua, que tantos dissabores causou em O nome da rosa), e, sobretudo, de forma absoluta, a visão.
Obrigado por mais esta lembrança...

Maria Rodrigues disse...

Gabriel,

Seu comentário é quase um poema.Sua relação com a literatura de Borges, também.
Não sou uma estudiosa, como você, do universo "borgeano", mas, do que li,o que mais me marcou foi exatamente sua relação pessoal e única com os livros.
A propósito, talvez por ignorância, desconheço a existência de qualquer outro escritor,além de Borges, que tenha vivenciado relação tão intensa.
Parabéns pelos escritos e pela sensibilidade.

Gabriel Gómez disse...

Maria... novamente agradeço seu comentário. Você está certa sobre minha relação com eles... Tenho também uma boa quantidade de "autografados e abandonados" (e alguns deles já publiquei no blog), onde questiono onde falharam, já que foram dedicados e logo vendidos... Abandonados.
A relação que se estabelece entre leitor e livro é uma relação de desejo. Além do conteúdo, da edição, da encadernação, da ilustração ou do papel, o livro exerce sobre os seus leitores aquilo a que poderíamos chamar uma verdadeira atracção física. Os leitores de livros não se satisfazem em ver um livro numa estante de uma biblioteca qualquer ou livraria. Um leitor de livros tem de poder pegá-lo. Ser palpável nessa intimidade sensorial.
Essa potência obscura que se encerra nas páginas do livro, esse poder de modificar seu portador - o leitor - e por conseguinte, o mundo à sua volta, talvez explique a metáfora do livro como arcano e como tesouro...
É isso e muito mais...
Obrigado pela sua companhia e comentário.

Maria Rodrigues disse...

Gabriel,
Entendo o você diz, pois, os livros são como seres com os quais convivo e experimento uma relação tão íntima, que às vezes, busco reconhecê-los até pelo cheiro que exala de seu interior.
Obrigado por suas respostas a meus comentários e demais delicadezas.
Encontrar seus belos e intensos escritos foi motivo de muita alegria para mim.

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