ESCRITOS DO GABRIEL

(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )



"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Dança

Um, dois, três passos. Avança lentamente. Elegante. Todos se foram. Agora é com ele. As mãos acompanham a dança. Gira para a direita, retrocede e abaixa com leveza seu corpo. Sente-se acompanhado por inúmeros olhares e um barulho no ar. O público reage, se identifica e parece ir junto. Mais um passo, desta vez para a esquerda, querendo achar um espaço, quase de refúgio, paternal. Os braços se juntam simultâneos, se comunicam. Às vezes parecem esperar, recuados. Outras, encontram a leveza ou a força, ensaiando, mapeando a busca. O corpo suado, esculpido, acha outro. Dançam juntos, suam juntos e enredam mãos e corpos com cautela. Abraçam-se. Medem, ajustam e regulam cada movimento. A coreografia tantas vezes praticada e revista. Os olhos acompanham tentativas que enganam. Luzes intensas, fôlego nervoso. Enquanto um parece correr, o outro dança. A poesia primária, sincronizada, dialoga desafiante. Exaltados, frágeis, lentos e velozes; desamparados. Dançam em equilíbrio, com as pontas do pé, dançam... Parecem driblar, mas não: dançam. Não param, evoluem. Para frente e para trás. O tempo de tablado se esgota. Precisa do último movimento que não chega, ou chega tarde. Procura exprimir-se no momento restante, circula incessantemente, mas está exausto. Foi surpreendido. Um, dois; um, dois. Ouvem-se gritos de glória, aflição e também de agonia; um direto preciso, uma esquerda aberta, implacável, um meio giro e o barulho seco da queda. Falta de ar. Seu protetor cai junto, voa fora da boca. Arrastado, beija a lona com sangue. Cercado, cospe sangue nas cordas. Seus olhos perdem o foco. Tenta alçar-se, procura forças, mas cai, inconsciente, vermelho de dor. Não chega nem a ouvir o grito provocante, o aceno ainda combativo do seu adversário. A toalha jogada de um dos cantos, cortando a passagem do juiz, é a cortina que avisa que a dança acabou.

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