
Sonhei que éramos outros.
Nossos nomes diferentes,
noutro lugar qualquer.
Os sonhos não dão satisfação.
Admitamos (não queria):
estamos ainda dormindo.
É assim, já sei,
de noite voltamos a rir
como num filme de lentíssimas (con)sequências.
Mas agora acordei com os gritos.
Descobri meus braços estendidos
na tua direção.
O quarto vazio,
o colchão úmido que apaga
e afunda tua marca,
e teus olhos vidrados,
mordidos em mim.
Juro, não era eu.
Sonhei que era o outro,
o próximo.
Aquele que sussurra abecedários
em teus sonhos e te desvela;
e tem o nome cochichado
na ponta
da tua língua dormida.
Esse que faz
a vida possível de lágrimas engolidas,
as sombras repartidas
que nos seguem uma e outra vez
onde deveríamos estar e nunca estamos.
Pois é,
acordei.
Parecíamos vivos e mascados,
um tango mal dançado,
onde não há letra sem traição.