ESCRITOS DO GABRIEL

(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )



"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Mais Horacio Quiroga...

E já que falamos da trágica vida de Horácio Quiroga, que tal listar o tal polêmico e questionado "Decálogo do perfeito contista"?

I Crê num mestre – Poe, Maupassant, Kipling, Tchekov – como na própria divindade.

II Crê que sua arte é um cume inacessível. Não sonha dominá-la. Quando puderes fazê-lo, conseguirás sem que tu mesmo o saibas.

III Resiste quanto possível à imitação, mas imita se o impulso for muito forte. Mais do que qualquer coisa, o desenvolvimento da personalidade é uma longa paciência.

IV Nutre uma fé cega não na tua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ama tua arte como amas tua amada, dando-lhe todo o coração.

V Não começa a escrever sem saber, desde a primeira palavra, aonde vais. Num conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas.

VI Se queres expressar com exatidão esta circunstância – “Desde o rio soprava um vento frio” -, não há na língua dos homens mais palavras do que estas para expressá-la. Uma vez senhor de tuas palavras, não te preocupa em avaliar se são consoantes ou dissonantes.

VII Não adjetiva sem necessidade, pois são inúteis as rendas coloridas que venhas a pendurar num substantivo débil. Se dizes o que é preciso, o substantivo, sozinho, terá uma cor incomparável. Mas é preciso achá-lo.

VIII Toma teus personagens pela mão e leva-os firmemente até o final, sem atentar senão para o caminho que traçaste. Não te distrai vendo o que eles não podem ver ou o que não lhes importa. Não abusa do leitor. Um conto é uma novela depurada de excessos. Considera isso uma verdade absoluta, ainda que não o seja.

IX Não escreve sob o império da emoção. Deixa-a morrer, depois a revive. Se és capaz de revivê-la tal como a viveste, chegaste, na arte, à metade do caminho.

X Ao escrever, não pensa em teus amigos nem na impressão que tua história causará. Conta como se teu relato não tivesse interesse senão para o pequeno mundo de teus personagens e como se tu fosses um deles, pois somente assim obtém-se a vida num conto.


(Publicado originalmente em julho de 1927, na revista argentina Babel)

6 comentários:

Rômulo disse...

XI - No Decálogo, não tentes encontrar entre os 10 primeiros, o que pensas ser o mais importante, pois todos eles dirão sobre uma verdade incontestável..

É Gabriel! 1927 é agora e sempre.
Abraços! Rômulo Ferrari

Gabriel Gómez disse...

É Rômulo... Cada um, acredito, faria uma lista com sua verdade... Mas devemos sempre acreditar nos mestres. Foi editado um livro recentemente com diversos escritores que questionaram ou afirmaram a validade desta lista...
Abraço.

Maeles Geisler disse...

Bom passar por aqui...
sucesso.

Abraços
Maeles

Gabriel Gómez disse...

Muito bom você passar por aqui. Obrigado e parabéns também pelo teu Blog!

Maeles Geisler disse...

o tempo sempre curto me faz dividir as leituras e sacrificar algumas. é nossa jornada, gostaria de curtir mais seu blog.

Abraços

Gabriel Gómez disse...

Algumas das leituras que não consegue acompanhar por aqui, serão colocadas no meu próximo livro "Cerimônias do Silêncio" neste ano... Ai a leitura poderá te acompanhar mais de pertinho. Livro é sempre um raro e querido companheiro.
Abraço!

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