ESCRITOS DO GABRIEL

(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )



"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A cegueira segundo Borges...

Trecho da palestra de Jorge Luis Borges sobre a cegueira:

"...Não permiti que a cegueira me derrotasse. Além disso, meu editor me trouxe excelentes notícias: se eu lhe entregasse 30 poemas por ano, ele os publicaria em forma de livro. Trinta poemas. Para isso era preciso disciplina, especialmente quando é necessário ditar cada linha. Ao mesmo tempo, porém, eu tinha suficiente liberdade, porque num ano surgem 30 oportunidades para escrever um poema. A cegueira não foi para mim uma desgraça total. Deveria ser considerada como um modo de viver, nem por isso completamente infeliz; um estilo de vida como qualquer outro.
Ser cego tem as suas vantagens. Pessoalmente, devo certas dádivas às sombras: o anglo-saxão e os rudimentos do islandês. Existe também a alegria de muitos poemas, além de ter escrito livros, inclusive um chamado, não sem alguma duplicidade, como se de um desafio se tratasse, O ELOGIO DA ESCURIDÃO. Os cegos também se sentem cercados de carinho. Todo mundo tem afeto pelos cegos.
O poeta espanhol frei Luis de León escreveu:
Quero viver comigo, gozar o bem que devo aos céus, sozinho, sem testemunhas, livre do amor, do ciúme, do ódio, da esperança, dos cuidados.
Se concordarmos que entre as benesses que nos são enviadas pelos céus está a escuridão, quem poderá viver melhor consigo próprio, quem será capaz de se conhecer melhor, como disse Sócrates, do que um cego?
Gostaria de evocar aqui outros casos ilustres. Não sabemos se Homero existiu mesmo; talvez não houvesse um só Homero mas muitos gregos escondidos sob esse nome. Eles, porém, gostavam de imaginar que o poeta era cego, para realçar o fato de que a poesia é antes de tudo música, e a faculdade visual pode ou não estar presente num poeta.
A cegueira de John Milton foi proposital. Ele estragou sua visão escrevendo panfletos em defesa da execução do rei pelo parlamento. Costumava dizer que havia perdido a vista em defesa da liberdade. Ele falava dessa nobre tarefa e não se queixava por ser cego. Compunha versos e sua memória melhorou. Após cegar, Milton passava muito tempo sozinho. Escreveu um longo poema, PARAÍSO PERDIDO, sobre o tema de Adão, pai de todos nós. Embora cego, Milton conseguia manter na cabeça 40 ou 50 hendecassílabos, que depois ditava às pessoas que vinham visitá-lo. Foi assim que escreveu PARAÍSO PERDIDO.
Vamos lembrar outro exemplo, o de James Joyce. A quase infinita língua inglesa, que tantas possibilidades oferece ao escritor, não lhe era suficiente. O irlandês Joyce lembrou-se de que Dublin havia sido fundada por vikings dinamarqueses. Assimilou o norueguês, depois estudou grego e latim. Aprendeu muitos idiomas, e acabou escrevendo num idioma que ele próprio inventou, difícil de entender, mas que possui uma estranha musicalidade. E declarou corajosamente: "De todas as coisas que me aconteceram, a menos importante foi a cegueira." Parte da vasta obra que deixou foi escrita na escuridão, trabalhando as frases de memória, às vezes passando um dia inteiro preocupado com uma única frase.
Um escritor, um artista ou qualquer pessoa deveria ver nas coisas que lhe sucedem uma como ferramenta, deveria pensar que tudo lhe é dado com alguma finalidade. O que lhe acontece, inclusive as humilhações, fracassos, desgraças, é-lhe dado como uma argila, como matéria para sua arte. É preciso tentar beneficiar-se disso. Tais coisas nos foram destinadas para as transformarmos, a fim de que, a partir das circunstâncias dolorosas de nossas vidas, possamos fazer algo de eterno ou que aspire a sê-lo. Se um cego pensar dessa maneira, estará salvo. A cegueira é uma dádiva.
Pense no crepúsculo. Ao cair da noite, as coisas mais próximas desaparecem, exatamente como o mundo visível se afastou de mim, talvez para sempre. A cegueira não é uma desgraça total. É mais um instrumento que o destino ou a sorte colocou em nosso caminho."

5 comentários:

Regina Carvalho disse...

Sempre há formas de se racionalizar a desgraça que possa nos acontecer, né? E Borges faz isso lindamente!
bj

Gabriel Gómez disse...

Regininha, justamente de tentar aprender com a desgraça, é que estou escrevendo alguns artigos para o jornal de Santa Catarina e o argentino "Clarin", nos 10 anos daquela tragédia com os ônibus argentinos na nossa região.
Afeto e solidariedade, os únicos bens duráveis. Beijo!

Rômulo disse...

Bendito os que conseguem aprender com as desgraças alheias, pois não será necessário dar o próprio passo na mesma tristeza...
Um cego, apenas não capta (ou interpreta) as diversas formas de luz que abrangem o espectro eletromagnético escalado em nanômetros, a partir da fotossensibilidade da retina (que vai do violeta ao vermelho) conforme o comprimento da onda física. Ele faz muito melhor...
Vê com o coração, abaixo e acima de qualquer escala.

Pior, é a miopia social em que vivemos...

Rômulo Ferrari

lili disse...

Já nem se diz de quem são as frase que se metem nos blogs?!

A frase que dá mote a este blog é de José ferreira Gomes, do livro João Sem Medo.

Gabriel Gómez disse...

Já nem se diz Bom dia, ou pelo menos um trato com certa cordialidade, nos comentários que se metem nos Blogs?
Obrigado, não sabia, já foi colocado o crédito, mas a frase não dá "mote" a este blog, e sim apenas era simples aviso.
Fique a vontade.
Bom dia!

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