ESCRITOS DO GABRIEL

(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )



"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Cerimônias do Silêncio (1)

O Silêncio e o Mutismo são diferentes.
O Silêncio é o prelúdio da abertura a uma revelação, o Mutismo é o fechamento decidido a qualquer revelação, é a recusa em receber ou transmitir qualquer idéia ou pensamento, é a atitude deliberada de não revelar nem por gestos ou palavras a sua intenção ou pensamento.
O Silêncio abre uma passagem, o Mutismo fecha.
Segundo as tradições houve um grande silêncio antes da criação do mundo, e haverá um silêncio ainda maior ao final dos tempos.
O Silêncio antecede e envolve os grandes acontecimentos, os grandes fatos. O Mutismo os esconde, os oculta ou os disfarça.
O Silêncio dá às coisas grandeza e majestade; o Mutismo as degrada e as deprecia.
Um marca o progresso o outro indica uma regressão.
O Silêncio é uma grande cerimônia.

Alguns poemas sobre o silêncio...

I - Poção

Cadê o remédio de efeito lento,
de muda sequela,
que apaga
o nunca dos olhos?

Cadê o veneno acelerado
de agora ou nunca
que abrevia
a sede de ausência?

Continuam no mesmo copo,
vazio,
inalcançável sempre.

II - Pela última vez

Entre um sim e um não
vestiu-se nua, e desarmada
saiu de usadas trincheiras
que torcem e retorcem a palavra
até cair o último silêncio.
E foi então
que novamente
disse tudo
não dizendo mais nada
pela última vez.

E foi,
como nunca tinha ido,
como quem já não está.

III - Falta

Estendo sua ausência sobre a toalha,
sirvo café para dois,
e nada falo para ouvir
o que não disse.
Bebo o meu, enquanto o dela espera,
e nem consigo olhar
como não está.
Insanamente a respiro,
abafando o que emudece
e não pulsa.
Escrevo para que me seja dado
seu nome
no tom e carência certa,
enquanto digo anjo, lua, boca.
Depois nada e calo.
Tudo falta,
como se não tivesse sido.
Não sei se quero nela
o que já não existe,
ou ambas,
ou todas nela mesma.
Recolho a mesa,
a cadeira do lugar e
bebo frio seu café.
Tudo disse
o que eu não saberia como,
deste jeito imenso de estar só.
Já somos o silêncio
que seremos.

Eu não entendo de perdas.

IV - O pior

Tinha para dizer-me
o pior dos silêncios que
eu não queria ouvir.

Então calou.

2 comentários:

*** Dê disse...

lindo gabriel,expressivo como sempre ,sensibilidade a flor da pele..... cerimonias do silencio e o maximo...vc escreve com a alma....lindo ....lindo....emocionante...abraços

Gabriel Gómez disse...

Que bom você por aqui... Obrigado. Apareça sempre! Bj.

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