ESCRITOS DO GABRIEL

(Tentar que nossas palavras sejam, através de nós ou, quiçá, apesar de nós.
Meus textos, meus rascunhos com erros... )



"Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Cartas e diáros (4)

No diário de Kafka (1883 – 1924), o autor de textos complexos que retratam a contradição do universo humano, seu destino está configurado em um trecho, em anotação feita em 21 de agosto de 1913: “O meu emprego é insuportável porque contradiz o meu único desejo e a minha única vocação, a literatura. Como sou apenas literatura e como não quero nem posso ser outra coisa, o meu emprego não poderá nunca seduzir-me, só poderá, pelo contrário, destruir-me totalmente”.
Conquistou a realidade e os pesadelos da sua ficção, embora tenha perdido parte de seus sonhos ou eles tenham sido sua própria literatura. Com depressão e tuberculose, servindo ainda seu nome para sinônimo de surreal, obscuro, angustiante, foi quem atravessou fronteiras literárias jamais antes alcançadas.
É nossa dívida com o autor.
Em vão, mandou queimar sua obra após sua morte. Até seus diários (agora como género literário) e cartas foram publicados pelo seu amigo Max Brod...
Numa carta ao amigo Pollak, Kafka afirma: “Muitos livros são como uma chave de aposentos desconhecidos no castelo do próprio eu”. Noutra carta, também a Pollak, de 1904, ele disse: “Penso que só devemos ler livros que nos mordam e nos aguilhoem. Se o livro que estamos lendo não nos desperta numa sacudidela, como uma pancada na cabeça, para que perder tempo em lê-lo? Um livro deve ser o machado como qual devemos romper o mar congelado dentro de nós”.
Numa das tantas biografias sobre o autor, existe uma de Ernst Pawel (Editora Imago, 453 páginas), da qual quero transcrever alguns dados:
“Kafka cresceu odiando seu corpo. Tinha horror à intimidade física. O sexo era, para ele, a quintessência da imundície, a antítese do amor”, relata Pawel.
Numa carta a Milena Jesenská, uma de suas paixões, Kafka escreveu: “Tento constantemente comunicar algo incomunicável, explicar algo inexplicável, falo de algo que sinto apenas em meus ossos e que só pode ser experimentado nestes ossos. Basicamente, nada mais é do que o medo sobre o qual tão frequentemente conversamos, mas um medo que tudo recobre, medo do gigantesco e do minúsculo, medo, um paralisante medo de pronunciar uma palavra, embora esse medo talvez não seja medo, mas também o anseio de algo maior do que tudo aquilo que amedronta”. Ele queria “escrever como uma forma de oração”. Kafka, diz Pawel, era “não um homem que escrevia, mas alguém para quem escrever era a única forma de ser, o único meio de desafiar a morte em vida”.
Um detalhe curioso e intrigante (?!) do livro: Pawel diz que Kafka pensou em morar no Paraguai.

Um comentário:

Í.ta** disse...

quanto mais eu leio kafka, mais eu tenho vontade de ler kafka, sabia?

abração, gabriel!

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